Naquele momento, Midas
encontrava-se rente ao chão – só não estava mais profundo porque era impossível
– coberto por seus ouros que outros tanto desejavam e admiravam, mas no fim, do
que adiantava tudo aquilo? Tanta beleza, tanta riqueza, se nunca poderia tocar
nada sem estraga-la?
Com seus olhos tão fadigados e o
coração vasto – mais até do que o mundo -, ele mirava todos os lados, pois era
somente o que o pobre Midas podia fazer : olhar desejoso... E olhava... Sim,
olhava para os céus á procura de alguma explicação, até mesmo ora ou outra,
mirava as sombrias profundezas...
Onde estava sua fada madrinha
naquele momento tão melancólico e obscuro? – Era o que ele pensava – Será que
ele e seu sangue eram tão amaldiçoados que os privavam daquele doce final feliz
que todos pareciam ter? Sim, ele sabia que era um monstro – pobre Midas –,
contudo, não é humano o direito da redenção, e por fim, não era isso que ele
era? Humano, fraco e indefeso?
Nem mesmo podia chorar – pobre
Midas –, pois as Parcas arrancaram-lhe o pranto, na verdade, essas três
senhoras haviam lhe retirado tudo! Suas fantasias, seus prazeres, e a única
coisa que restava naquele corpo mórbido era um fiapo tênue de esperança. Ah
sim, pobre Midas.
Novamente tornou a olhar e pensou
em se erguer. Quem sabe se sua maldição houvesse sido quebrada enquanto se
lamentava? Quem sabe as divindades houvessem se compadecido de sua dor, e
agora, apenas daquela vez, ele pudesse novamente ser um homem comum: Nem rei,
muito menos pobre. Mas somente um homem livre de seus fantasmas, pronto para
viver uma vida comum – que fosse! Porque o mesmo já estava cansado de
limitar-se a tão medíocre existência do avulso.
Por fim, riu-se consigo desse seu
estúpido e utópico devaneio, e resolver ficar caído ao chão dourado mesmo – mas
tão escuro! –, completamente sozinho com seus ouros que de nada lhe valiam.
Ah sim... Pobre Midas.
