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sábado, 22 de dezembro de 2012

Pobre Midas.


Naquele momento, Midas encontrava-se rente ao chão – só não estava mais profundo porque era impossível – coberto por seus ouros que outros tanto desejavam e admiravam, mas no fim, do que adiantava tudo aquilo? Tanta beleza, tanta riqueza, se nunca poderia tocar nada sem estraga-la?
Com seus olhos tão fadigados e o coração vasto – mais até do que o mundo -, ele mirava todos os lados, pois era somente o que o pobre Midas podia fazer : olhar desejoso... E olhava... Sim, olhava para os céus á procura de alguma explicação, até mesmo ora ou outra, mirava as sombrias profundezas...
Onde estava sua fada madrinha naquele momento tão melancólico e obscuro? – Era o que ele pensava – Será que ele e seu sangue eram tão amaldiçoados que os privavam daquele doce final feliz que todos pareciam ter? Sim, ele sabia que era um monstro – pobre Midas –, contudo, não é humano o direito da redenção, e por fim, não era isso que ele era? Humano, fraco e indefeso?
Nem mesmo podia chorar – pobre Midas –, pois as Parcas arrancaram-lhe o pranto, na verdade, essas três senhoras haviam lhe retirado tudo! Suas fantasias, seus prazeres, e a única coisa que restava naquele corpo mórbido era um fiapo tênue de esperança. Ah sim, pobre Midas.
Novamente tornou a olhar e pensou em se erguer. Quem sabe se sua maldição houvesse sido quebrada enquanto se lamentava? Quem sabe as divindades houvessem se compadecido de sua dor, e agora, apenas daquela vez, ele pudesse novamente ser um homem comum: Nem rei, muito menos pobre. Mas somente um homem livre de seus fantasmas, pronto para viver uma vida comum – que fosse! Porque o mesmo já estava cansado de limitar-se a tão medíocre existência do avulso.
Por fim, riu-se consigo desse seu estúpido e utópico devaneio, e resolver ficar caído ao chão dourado mesmo – mas tão escuro! –, completamente sozinho com seus ouros que de nada lhe valiam.
Ah sim... Pobre Midas.


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Soneca


                - Vem cá, eu deixo você dormir aqui.
                Soneca não respondeu, olhando-me meio receoso com a proposta. Suas sobrancelhas grossas – mas ainda sim, lindas – estavam erguidas enfatizando a dúvida expressa em seus olhos castanhos.
                - Caramba! Meu colo é tão ruim assim?!
                - Claro que não, né, seu besta! – disse-me ele, aproximando e passando os braços sobre meus ombros – é porque... Bom, aqui?
                Olhamos em volta. Era manhã, soneca e eu estávamos no campus da nossa universidade, chovia e nos abrigávamos em um amontoado de árvores bem distante dos blocos estudantis. O clima estava claramente frio, mas não de uma forma ruim, pois ele só aguçava o desejo que nossos corpos estivessem entrelaçados – nem que fosse num abraço.
                Soneca percebeu que não houvera me convencido, e tornou a falar.
                - Ah tipo, alguém pode nos ver, sei lá.
                - É verdade! Estamos gazeando aula, isso é um horror – retorqui sarcasticamente.
                Um lindo sorriso iluminou aqueles belos lábios que eu tanto amava. Naquele momento, o sol que faltava no céu, de repente, estava bem ali, de tão caloroso que era.
                - É, só estou preocupado com isso – disse ele tentando forjar um tom sério – Claro!
                - Era só o que deveria estar. Vem, se deita aqui... Vou te deixar com mais sono!  Em vinte e dois de abril do ano de mil e quinhentos, Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil...
                - O que você está fazendo? – perguntou dando aquele sorriso novamente.
                - Te ensinando história! É só começar que você fica sonolento, não é?
                Soneca sorriu maliciosamente, levantando apenas um lado dos lábios, antes de dar-se por vencido e cair em meu colo, fingindo roncar.
                - Viu? É tiro-e-queda!
                - Tem razão! – falou enquanto pegava minha mão para por em seus cabelos loiros e cacheados – Cafuné também ajuda e muito.
                - Manhoso!
                - Ei, não pare, se não vou acordar! – Soneca ameaçou de se levantar, mais eu o impedi que fizesse isso.
                - Tudo bem então... Hum, de início, Portugal não se interessou por nossas terras, e as esqueceu durante mais ou menos trinta anos. Foi só então, que começaram a enviar pessoas para poder explorar as terras brasileiras...
                Parei de falar e baixei meu olhar, para conseguir vê-lo. Soneca me fitava com os olhos serenos e amenos, sorria feito um bebê e acariciava minhas mãos enquanto fazia cafuné em seus cabelos.
                - Por que parou? – sussurrou Soneca num tom rouco, parecia estar prestes a cochilar.
                - Eu me atrapalhei...
                - Com quê?
                - Com você – sussurrei aproximando-me um pouco de seu rosto – Fui prestar atenção em como você é lindo, e a história perdeu a graça.
                - Perdeu a graça, ou você não sabe mais, hein, seu avoado?!
                - Pode me culpar por ser avoado quando estou com você?
                Soneca novamente sorriu e fechou os olhos, dando um pequeno beijo em minhas mãos. Voltei ao meu trabalho, porém dessa vez, sem falar mais nada, limitando-me apenas a acariciar seus cabelos e rosto. Não queria perder mais nada daquele ser, nem mesmo um ínfimo detalhe num segundo qualquer daquela adorável cena, pois era assim que eu o observava, feito um espectador diante de uma peça esplendorosa, onde ele era meu ato principal – sem falar do favorito.

Sei que poderia reviver essa cena tantas outras vezes a qual desejasse, pois Soneca era absolutamente meu e não fugiria de mim. Entrementes, continuei a observá-lo assim mesmo, com paixão de como se fosse a primeira e única vez que eu faria aquilo.
Os minutos se passaram, e a respiração de soneca ia ficando cada vez mais arfante e pesada, até que por fim, adormecer completamente em meu colo. Ele era tão lindo dormindo, quanto era acordado dando seus sorrisos maliciosos.
Não pude evitar, vê-lo assim tão frágil e sereno, completamente esparramado em meu colo, atiçara em mim uma vontade de dizer aquilo que todo amente deve dizer, embora somente quando for chegada a hora. Tive vontade de finalmente abrir a boca, escancará-la e urrar feito um desvairado para colocar algo que estivera cativo entre meu coração e a garganta. Algo que apenas sussurrei para não acordá-lo.
- Eu te amo