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domingo, 20 de novembro de 2011

Tempo ao seu tempo.


                 “Tudo em seu tempo ao seu tempo.
                  É uma bela frase, deveras, pois o tempo corre sozinho e se realiza com a mesma solidão, sem se quer nos perguntar a preferência.
                 “Devo correr mais devagar agora?” Deveria ele nos questionar quando algo de maravilhoso se desenrolasse, ou quando estivéssemos naquela ocasião chata – onde só cinco provas de físicas quânticas juntamente com oito de físico-químicas se comparariam – ele nos diria : aguente e fique firme, vou bem mais veloz agora.
                Não, isto é algo o qual não acontece. Ele vai sozinho passar como bem entende, e no fim quando passa, resta a nós – reles mortais – a guardar o que passou na cabeça, pois é inteiramente ilógico comemorar no presente, algo que acontecera no passado, como se estivesse acabado de acontecer.
                Quer uma prova?  Quantas pessoas você vê por aí comemorando o gol de vitória do Brasil da copa de 58, como se houvesse acabado de ouvir pelo rádio? Isso mesmo meu amigo, nenhuma. Isso é porque já aconteceu, o que cabiam a todos aproveitar e comemorar já se lotou, passou tão rapidamente que só o tempo soube ao certo quantos segundos duraram aqueles quinze minutos de fama. E agora nos resta apenas a comentar sobre o ocorrido.
                - Então, sabe aquele título de 58? Espetacular não foi?
                - É, até que foi uma peladinha legal. Dava pra ter sido melhor.
                Creio que o bicho pega mesmo quando algo acontece e nós sentimos aquele gosto que não fizemos de tudo para melhorar, deixamos que o nervosismo, a vergonha, ou falsos moralismos, intervissem nas obras que nós, pintores do próprio destino, deveríamos ter dado aquela pincelada a mais, ter adicionado uma cor ou outra sem medo da estética, enfeitado, realizado um sonho.
                O tempo passa e as coisas mudam. Hoje o azul límpido pode se tornar mais apagado amanhã, e depois de amanhã você pode confundir com um cinza clarinho, ficando apenas na memória que ali, onde se apagara, já fora algo quase que fluorescente. Olhe bem, não estou inteiramente reclamando disso, pois conheço muito bem a necessidade do tempo passar, do equilíbrio do dia e da noite, da primavera e inverno, ou sendo mais dramático, das férias e das aulas. Apenas fico descontente da forma que ele passa, já que muitas vezes só se passa uma vez.
                Mas no fim – onde é o fim que sempre prevalece – entendendo que não há como mudar os fatos, o tempo ou qualquer outra coisa, continuo a apenas lembrar de fatos, sonhos, bem como algo do título de 58.
                - E que espetacular não foi?

O suposto acontecimento.

                Havia um circulo de crianças, e todas conversavam animadamente.
                - Então eu abracei o dragão assim! – dizia um deles levantando-se todo espevitado – E  quando vi que não havia mais jeito, com o coração inteiramente descompassado, eu fugi!
                - Nossa – alarmou-se outro – que coisa!
                - Corta essa Nico, dragões nem existem.
                - E como explica o que aconteceu? – disse Nico pretencioso e voltando a se sentar ao lado dos amigos – Tudo o que aconteceu é verdade meu amigo, e está na minha memória. Aconteceu mesmo.
                - Não deve ter acontecido nada, você está mentindo. Seu mentiroso!
                - Aí deixa ele João, continua vai.
                O garoto voltou então a trovar os acontecimentos, ora ou outra ainda pulava animado, dramatizava o que podia, até olhava para o chão e fazia cara de choro quando contava-lhe algo triste, procurando convencer a  todos  - até o Joãozinho, que era o mais cético – que tudo o qual acontecera era a mais pura verdade.
                - E como você sabia que era um dragão Niquinho?
                - Ora como eu sabia Margarida, uma lagartixa crescida e que não havia de ser, muito menos um moinho de vento, porque não sou tão pirado assim.  Era um dragão mesmo, e ele era enorme, de escama negra feita à noite mais sombria e soturna que já se ouviu falar, e tinha os olhos tão.. Tão, devoradores, que eu achei que me hipnotizaria apenas com um olhar. Ele era belo, ah se era, um baita de dragão! Mas eu fui mais forte, e resisti aquela hipnose. Certo que quase fraquejei, mas lutei contra aquilo que eu sabia muito bem que não havia chances de vencer. E foi bem assim que aconteceu.
                -Nossa, que incrível!
                - É, eu sei.
                Nico se recostou na árvore e deu um suspiro de alívio – que foi acompanhado por muito de seus amigos também – quando terminou de contar sua aventura, tão agoniante e perigosa. Nessa mesma hora Marcos, um de seus apenas amiguinhos se juntou a arruaça excitada que as crianças faziam.
                - Ainda não acredito – continuou João – Se houvesse pelo menos uma prova, uma testemunha...
                - E tem! O Marquinhos estava lá comigo, ele é testemunha!
                - Sou o que?
                - Testemunha! – disse Margarida maravilhada – É verdade que vocês enfrentaram algo parecido com um dragão, de escamas pretas e olhos penetrantes?
                - Como é que é?
                - Vocês não...
                - Não, claro que não. Eu nem sei do que ele está falando.
                - Como assim, você sabe muito bem o que aconteceu, só tem medo, é isso.
                - Claro que não, se tivesse acontecido...
                -Mas aconteceu! O dragão, ele...
                - Já tá na hora de crescer, não acha não? E parar de ficar inventando coisas onde não há! – Disse Marcos com um tom desdenhoso mas impossivelmente também manso e aveludado – Não aconteceu e ponto.
                João deu uma gargalhada que foi acompanhado pelos outros. Marquinhos, após dizer aquelas duras palavras para o seu amigo, levantou-se e saiu aborrecido da roda de amigos, que logo em seguida, fizeram o mesmo e o acompanhara.
                Mas Margaridazinha continuou ao lado de Nico, nem se quer riu do comentário, pelo o contrario, ficara com as feições tão emburrada, que mais parecia uma carranca a qual sua mãe esboçava quando ela quebrava algo de importante na cozinha. E isso despertara em Nico curiosidade. Por que ela não havia rido de sua cara, como os outros?
                - Porque eu sei que você não é do tipo de confundir lagartixas com dragões, ou moinhos de ventos. – respondeu a menina pomposamente quando seu amigo lhe fizera a pergunta – e se disse que era um dragão, há de ser um dragão! Um baita de dragão.
                Nico voltou a se calar, ficando rubro com o constrangimento lhe tingindo as faces, mas então, lembrou-se novamente do que havia acontecido e franziu o seu cenho aborrecidamente.
                - Mas então por que diabos ele disse aquilo? Que não havia acontecido nada, que não fazia ideia do que eu estava falando?
                Margaridazinha hesitou, procurando na cachola de menina, alguma coisa que pudesse lhe explicar, foi então que em meio de sua mente esperta, lhe veio tal resposta:
                - Olha Niquinho, existem ocasiões que, mesmo sendo passada com alguém de seu lado, mesmo sendo ela uma grande personagem de tal aventura, você vive isso sozinho, e não há como mudar ou fazê-la viver, se ela não quiser que isso aconteça... É como chutar a bola nos pés de alguém que não quer jogar futebol. Ela simplesmente não vai chutar de volta, mesmo que tenha a bola ao seus pés. Entende?
                Niquinho calou-se por um momento, mas logo depois assentiu e começando entender finalmente a razão do problema: unilateralidade de histórias, que assombrava até os adultos.
               No fim, já cansado com tudo, levantou-se também e logo após ajudar Margarida a fazer o mesmo, foi comer uma torta de amoras no jantar, pois era só isso que lhe cabia fazer.


domingo, 6 de novembro de 2011

Uma mensagem ao vento para ser entregue.

A embarcação finalmente se estabilizou e o capitão pode enfim sair de sua cabine, onde há muito que se refugiara, impedindo que qualquer coisa que não fosse o planos de suas rotas chegassem até ele.
                O capitão andou lentamente até onde podia ir perto da polpa, enquanto dava seus pequenos passos, pensava no que dizer e no que de fato estava prestes a fazer.
                Então sentou-se em um barril qualquer e se calou por alguns segundos, fitando o horizonte antes de começar o que viera ali fazer, o qual já deveria ter feito há tanto tempo.
                - Minha cara amiga – disse ele , como se houvesse uma outra pessoa em seu lado – Perdoe-me pela demora em lhe mandar notícias, apesar da tardança que suas palavras chegaste a mim, conheceste bem o meu problema de falta de fala as coisas que você me manda. Também sei que já é deveras tarde, contudo, não o suficiente, pois sei que me escutará, sempre, assim como, não existe hora – creio eu – de se dizer que sinto sua falta...
                Um relés marujo de repente se deu conta de que seu capitão fazia, e o julgando feito um desvairado – pois é essa a classificação mais fácil de se por, naqueles que não se entendem – o observou tendo aquela conversa.
                - Novamente, eu compreendo, de uma certa forma, como ficaste a minha ausência. Disseste também que isto fora no fim, algo que lhe proveu um bom fruto, contudo, tal coisa teria brotado de um sentimento de aflição, e é por ele que outra vez, peço mil perdões. Sim, como aquele nosso compositor favorito... Ah, temo que minha viagem dure mais do que as outras, pois esta é bem distinta, então, infelizmente tenho que lhe dar este aviso...
                Desconfiado e temeroso que algum dos outros homens visse seu capitão em tamanha loucura, correu para ir ter com ele.
                - Meu caro capitão! – disse ao se aproximar – Estás louco?
                O Capitão parou, sem entender o que seu marujo falava, e compreendendo o seu desentendimento, o marujo foi explicar o motivo de sua intervenção.
                - Estás falando sozinho capitão, será que ficaste louco com todas as tribulações dessa jornada perdida?
                - Quem disse que estou falando sozinho marujo?
                - Mas o senhor...
                - Não estava não – o capitão o interrompeu – As palavras são algo interessante não acha? Elas ficam ali, rodando, viajando, tocando corações distantes de corpos também distantes. Vai sozinha semear um sentimento, ao mesmo tempo que com a mesma solidão, pode acabar por em esfacela-los. Então,novamente o digo, não estou falando sozinho.
                - Mas não havia ninguém aqui!
                - Não ouviste o que acabei de dizer? É desnecessário que a quem você direciona as palavras, como eu estava fazendo, esteja do seu lado, principalmente se tratando dela. Nosso canal favorito sempre foi esse, as palavras ao léu, as quais sempre chegam até nós, trazidas pelo vento ou algo bem semelhante.
                O marujo então se calou, parecendo compreender, mas somente parecendo, pois não existia alguém que pudesse compreender de verdade o que o capitão acabara de dizer, se não o mesmo e a quem estava sendo direcionada a mensagem. Levantou-se e  deixou novamente o rapaz a falar para o vento.
                E assim a mensagem, tão singela, mas tão importante era entregue, para aqueles que sabiam de fato o quanto era preciso sempre navegar.