Eu
caminhava. Não com passos sóbrios, admito: sou devasso, libertino,
escritor! — Nunca existirá sobriedade em
escritores — Então, não, não eram passos sóbrios, mas eu seguia, deveras. Um
passo atrás do outro, desinteressado pelo percurso e vista que minhas tão
fadigadas retinas alcançavam. Se cores haviam em tais cenários, para mim, eram
cinzas — diversas variações de cinza: nenhum atrativo, todas iguais.
Até
que naquela noite você entrou, passos incertos, cachos escuros e olhos
profundos. O contraste do ordinário, exacerbaram suas cores únicas: azul,
castanho, preto. Como numa tela
minimalista: não era preciso detalhes demasiados, técnica rebuscada, mas
somente a beleza da simplicidade.
Belo,
tropecei.
Sem
avisos, sem alarmes ou mesmo recomendações, aproximei-me. Os deuses os sabem
que não sou covarde, não há aventura que meu espírito ébrio e sedento não
deseje, incessantemente, desbravar, contudo, fico-me questionando, se algum
presságio me fosse dado, ouviria a trova do etéreo ou continuaria a navegar até
você: se sabia o marujo de seu naufrágio, fraquejaria ou seguiria a remar?
Agora
não há sentido em cultivar tais ideias, pois fui, sim, fui! Desprevenido,
desarmado, desprecavido. Fui! E mesmo com tanta experiência, não notei o abismo
que se abria perante a mim: sem fim aparente. Foi quando o canto começou, a
melopeia que meu romantismo exagerado me impede chamar apenas de voz, e já não
mais conseguir ouvir nada, apenas teu cântico, tuas palavras, teu som. Foi como
se banhar num lago — Já o disse? —, calmo, profundo, demasiadamente escuro.
Tolo, mergulhei com toda força, procurando chegar no fim, encontrar-te sob as
águas. As primeiras horas se foram, as segundas também. Três, quatro, e ainda
não sabia o que encontraria além da imensidão que restava. Como era belo o
submerso... A cada segundo, algo de novo eu descobria, detalhes pequenos —
aparentemente pequenos —, escondidos e velados, feito mosaicos daquele lago inefável, confortável, perigoso.
Desesperei-me
— já era tarde demais.
Envolto
de pensamentos turvos, banhado em tuas águas, não reparara até aquele momento
que cada braçada que havia dado para perto de ti, em busca de tua essência, era
o mesmo que precisaria fazer para voltar — e já estava tão longe! Afundara-me
tão rapidamente em ti — sim, admito, fui afoito nesse mergulho —, que quando me
pus a tornar, teus cachos negros já não mais me deixavam partir. Encrostara-se
em meus pulsos, meus pés, em meu coração. Agarraram-me com tal voracidade, que
já não era um nadador experiente, mas uma criança que mal sabia nadar.
Afoguei-me,
sem conseguir voltar. Afoguei-me, desejando ficar.
Afoguei-me,
assim, de repente... Não mais que de repente.
Afoguei-me.
Afoguei-me.
