Translate

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Trem de volta

         A estação estava abarrotada, não de pessoas, pois os dois sempre tiveram — ou precisaram de — mais privacidade possível quando estavam juntos. Contudo, sim, ela estava totalmente abarrotada. Lembranças marcadas na parede — e nos órgãos — , presentes, juras — Todos espólios de uma vida que não poderiam ser jogados fora antes de uma profunda ponderação.
         Mas mesmo que desejassem — agora mais levemente — estar juntos, um vidro separava o dois. Ela estava dentro de um vagão de trem, pronto para voltar de onde viera um dia. Ele permanecia do lado de fora, o rosto estava lívido e totalmente impassível. Poderia estar se despedindo de um conhecido — pensou ela.
         — Faça-me parar — começou, como sempre, a falar — Não me deixe voltar.
         Ele balançou a cabeça com um sorriso no canto dos lábios.
         — Você não entrou aí obrigada... Além do mais, isso é um trem, é forte, não tenho a menor chance de pará-lo.
         — Teria se quisesse. Um dia, você o fez parar — dizia ela, soluçando desesperada — e então desci da minha louca viagem sem rumo... Faça-o parar novamente, um único movimento que não seja forçado bastaria...
         Sua garganta fechou e o trem deu um grande solavanco anunciando que a partida não tardaria. Completamente tomada pelo desespero, os tremores lentamente começavam a retornar, assim como os batimentos descontrolados. Já era quase a hora.
         Por um segundo pensou em continuar a insistir, mas se deu conta de algo que não foi surpresa para ela.
         — Um bilhete — disse fracamente — Isso na sua mão é um bilhete?
         Envergonhado ele tentou esconder atrás do corpo, mas já era tarde, para ambos.
         — Bom, então adeus.
         — Adeus.

         E assim, o trem partiu novamente para escuridão.

Pandemonium

— Bem-vindo ao Pandemonium! — foi só o que o rapaz dissera, antes de dar as costas e sumir entre os mares de pessoas que dançavam sob a luz negra.
Ele não sabia ao certo o que esperar, de fato, nunca haviam trocado mais do que cumprimentos em festas anteriores. Mas lá estava, escorado no canto da parede, com uma garrafa de cerveja quase seca na mão, embora o coração transbordasse de frustração.
Nem se quer acertara seu nome! — Pensou, sentindo as faces enrubescerem.
— Você é o garoto estrangeiro, não é? — Disse o tal rapaz, em tom descontraído, mexendo as mãos — Hélio...?
— Herondale. — corrigiu, pigarreando, sentindo mais vergonha do que nunca na vida.
— Isso, verdade! — respondeu-lhe, abrindo um sorriso malicioso nos lábios — Herondale, garoto Herondale.
Como o rapaz poderia não saber — ou não lembrar — do seu nome, enquanto ele sabia de cor o seu? Havia, inclusive, treinado a pronuncia correta inúmeras vezes defronte ao espelho, só para não fazer feio na frente dele! Sentia-se um completo ridículo por ter ouvido seus desejos, ter deixado que nele fizesse solo fértil de expectativas para encontra-lo novamente. Frustração. Ainda por cima, tinha que ouvir ser chamado de garoto!
... Garoto Herondale ...
Ele não era nenhum garoto! Não deveria ser chamado assim... Não era um garoto, mas um homem! É certo que não sabia a idade do rapaz, que não parecia ser velho suficiente para chamar-lhe de garoto! Aliás, qual era sua idade?
Tomando o último gole de sua cerveja, ele se pôs à analisa-lo. De longe, ele não parecia ser tão mais alto, talvez fossem do mesmo tamanho. Falava de forma descontraída, com trejeitos leves — tudo como alguém de sua idade faria. Mas seus olhos... Existia alguma coisa em seus olhos que denunciavam o muito que percorrera em sua jornada, havia profundidade. Sim, seus olhos... As primeiras palavras que trocaram, foram sussurradas por seus olhares.
Aproximara-se daquele soturno mar por curiosidade de um marujo sedento, e, sem perceber, ilhava-se, debruçado sobre os segredos daquelas águas, e, ainda sim, após tempos e tempos de pesquisa, não sabia por certo a sua idade.
Maldita curiosidade! Maldito desejo! Onde eles haviam o levado? A uma parede de festa, acompanhado de uma garota que pouco importava ou desejava.
— Vamos dançar? — Perguntou a tal garota — Preciso te apresentar meus amigos!
Ele a olhou de lado e tentou, da forma mais suave que conseguia, convencê-la de que preferiria ficar sozinho.
— Não sou tão bom em conhecer novas pessoas — mentiu.
Desapontada, a garota ajeitou seus óculos no rosto e saiu, deixando-o, enfim as sós com sua frustração. Já terminava sua quarta ou quinta garrafa no bar, porém, quando uma voz rouca soou atrás de si.
— Perdido no Pandemonium, Garoto Herondale?
Ele se virou de pronto, já meio trôpego do álcool, para ver o rapaz parado atrás de si, com um sorriso malicioso cravado na boca vermelha de vinho — lá estavam aqueles mares novamente...
— A little... — Começou, percebendo rapidamente qual era a língua certa naquele momento — Um pouco. Você sabe, gente desconhecida, país estranho...
O rapaz sorriu e se aprumou ao seu lado, escorando no balcão do bar. Ainda de sorriso estampado, algo em sua postura — talvez a forma com qual se apoiava no cotovelo e o olhava — exalava uma áurea felina, com pompa, embora relaxado e até fluído — era esquisito descrever alguém dessa maneira, pensou, mas era exatamente o que sentia daquele rapaz.
— Não acredito que seja isso — disse o rapaz, ainda daquela forma felina, sem tirar os olhos dos dele — Veja, o Pandemonium, a festa que te convidei, é um local onde os desejos tomam forma...  Acontecem. Aqui, pessoas tomam coragem para fazer coisas que em outros dias se reprimem. Somos livres, sedentos... Você, por outro lado, parece... — Parou, olhando-o de uma forma que fez seu rosto esquentar. Parecia que buscava olhar para dentro dele, atento a voz que seus lábios não ousavam dizer — Barrado. Frustrado. O que houve com seus desejos, garoto Herondale? Catarina o deixou na mão esta noite?
Sentindo o rosto corar ainda mais, ele, rapidamente respondeu, sem jeito:
— Não, não, eu que pedi para ficar sozinho. Além disso — Suas palavras se interromperam em meio a sua boca. Talvez fosse o atraso comum entre as línguas ou o álcool começara a fazer efeito, mas, lentamente, as palavras ditas pelo rapaz pareciam tomar forma em seu peito. — Que você me convidou? Você não lembra nem meu nome!
O tal rapaz deu de ombros, esticando um sorriso malicioso nos lábios, levantando suas mãos enquanto se afastava.
— Será mesmo, garoto Herondale? — E, mais uma vez, sumiu entre os corpos dançantes, luz e gelo seco.
Seu coração martelou, como um forte sino dentro do peito. Tal qual outra vez, águas perigosas pareciam invadir o espírito, avassaladoras.
Sabia de mim? — Repetia, de coração louco e rosto incandescente — Era verdade que aqueles olhos que incansavelmente mirava — e desejava! —, enxergava-o também?
“É  aqui que os desejos tomam forma”, falara, “Acontecem”.
Precisava descobrir se era verdade, precisava perguntar-lhe do motivo de se sentir assim — e milhões de outras coisas que não caberia em uma língua apenas.
Tomando mais alguns goles de sua cerveja, pôs-se a desbravar o mar de dançantes em busca de águas sombrias. Era difícil encontra-lo em meio daquela imensidão, sempre que tinha a impressão de vislumbrá-lo, sumia antes que fosse capaz de alcançar. Pensou em desistir, mas sabia que era impossível. A ressaca com que aquelas águas o puxavam, a atração daquele mistério, sugava-o como uma gravidade própria. Foi, depois de uma epopeia única, que por fim o encontrara num lugar afastado de todos, silencioso, sob a luz cálida do luar. Escorado no canto de uma parede escura, seus olhos — aqueles olhos profundos e de idade indecifrável — estavam fixos nele, analisando-o novamente. Mais uma vez, como sinos em seu peito, o coração enlouqueceu e retumbou. O jeito felino que antes exalava, agora fora substituído por austera áurea, embora, de alguma forma, absurdamente acolhedora — tal qual uma catedral.
— Você me seguiu, garoto He...
— Herondale — Corrigiu de súbito, como um reflexo.
O rapaz sorriu, balançando a cabeça.
— Eu sei o seu nome, Max Herondale.
O solavanco de seu peito fora tão alto, ao ouvir as palavras do rapaz, que podia ter certeza que ele estava delatando a todos o que sentia naquele exato momento — e todos os outros que tentara esconder.
— Então você realmente sabe meu nome? ... Como?
O rapaz deu de ombros, passando a mão pelos cabelos desgrenhados. Novamente, a incógnita de sua idade, esse pedaço de mistério deixado pela lacuna da ignorância, começava a incomodar. Quantos anos, afinal, aquele rapaz tinha? Por que parecia ser assim, tão bem com tudo que acontecia, enquanto o próprio garoto não sabia o que fazer, o que dizer? De perto, finalmente, conseguia olhar o rapaz como nunca havia conseguido: sem medo de fazê-lo, sem maiores temores de que pudessem descobrir o que passava em seu coração desafinado.  Errara em seu tamanho, o tal rapaz era um pouco mais alto que ele, e embora as linhas de seu rosto, maxilar, fossem duras, havia algo de flexível e juvenil. Suas roupas, uma camisa quadriculada preta e vermelha e uma calça preta que lembrava couro, caiam tão bem que ratificavam a ideia de não dever ser tão mais velho que o garoto — se é que o era. Todavia, pensava, ao olhá-lo assim, largado em uma parede com uma gravidade austera, a imensidão escura de seus olhos... Era como uma disputa crônica constante entre o jovem e o velho, o novo e o antigo.
— Onde está Catarina? — Perguntou, ignorando por completo a pergunta anterior — Vir por alguém a uma festa e não conseguir encontra-la, isso é... Ruim. Muito ruim, me compadeço de você.
Com uma pontada de culpa, lembrou-se da garota de cabelos negros e óculos grandes com quem havia vindo. Quando desconfiara de que a tal menina era amiga do rapaz, aproximou-se dela esperando por esse encontro. Sabia que eles não eram próximos, mas tinha que se agarrar a única ponta que os ligava. Perguntava incansavelmente sobre festas que aconteciam no ambiente em que conhecera o rapaz, demonstrava interesse, apelou, inclusive, para a persona de estrangeiro que necessitava de companhia, tudo somente para ter a chance de estar no mesmo lugar junto daquele homem com quem trocara poucas palavras.
Então, finalmente, o convite aparecera, junto com o sémen em seu peito. Encontraria-o novamente! Sim, quiçá, dessa vez, pudessem conversar e se conhecer melhor.
Era terrível utilizar a garota como ele o fizera, sabia muito bem disso, mas como Fausto, de tudo faria — e daria! — para apetecer esse desejo tão incomum que encrostara-se em sua alma de forma intensa, voraz.
— Não vim por ela... — Falou, cheio de sotaque em uma voz rouca — E você não me respondeu.
— E nem vou! — Respondeu o rapaz, sorrindo daquela forma felina que há momentos atrás se encontrara — Mas saiba, garoto Herondale, que essa é a primeira festa minha que Catarina recebe um convite diretamente meu.
— Você tem que ser cheio de segredos? — Retrucou o garoto, quase sem pensar, enquanto sentia suas faces inflamarem — Por quê?
— Por ser charmoso, talvez... — Deu de ombros — O mistério atrai os curiosos. Eis o verdadeiro precipício de nós, os sedentos...  Veja você: me seguiu... Responda-me, garoto Herondale, por que me seguiu?
Por um segundo, o garoto pensou em responder e contar-lhe tudo, toda a curiosidade e  atração que sentia. Por alguma razão, e ele não entedia qual, desde que o vira e trocara aquelas palavras em olhares... Quisera conhecer o mar. Desejara de forma inefável mergulhar mais afundo em seus olhos, encontrar o que residia nas profundezas de sua íris. Mas temera. Sim. Talvez por nunca ter se sentindo assim com ninguém ou principalmente por ser outro homem! Temeu e tremeu, antes de se deixar levar pelas águas violentas de seu desejo.
Lembrou-se, de repente, em meio de seus devaneios, que alguém poderia estar espiando. Pensou na garota que enganara para ter esse momento, os reles segundos de uma conversa com alguém que não parecia responder uma única pergunta sua! Preocupado, conferiu por trás de seus ombros a festa que não parecia notar sua ausência — nem a sua, nem a do anfitrião.
— Está preocupado que alguém nos veja juntos? — Perguntou o tal rapaz, com rosto impassível.
— Eu não sei... — Respondeu, com sinceridade, olhando para as mãos pálidas — Alguma coisa me diz que deveria ser mais cuidadoso, mas já não sei mais o que fazer. Eu só sabia que precisava... Precisava...— interrompeu-se em meio as palavras. O que diria para o tal rapaz? O que precisava? Nem ele sabia por certo a resposta de seu questionamento. Sabia que queria vê-lo, isso era tudo. Mas a razão? Essa continuava velada em algum lugar de seu espírito.
— Precisava...?
O garoto não respondeu, cruzando os braços enquanto se acomodava na parede gelada. Por algum momento encararam-se, apenas. Sim, era curioso como aqueles dois conseguiam conversar apenas olhando um para o outro. O que diziam? Algo que ninguém mais era capaz de compreender, uma vez que não se tratavam de reles palavras de retóricas baratas. Era um sentimento, algo que não cabia em nenhuma língua que ambos pudessem conhecer, mas que sentiam, deveras, tal qual um murmúrio em seus ouvidos. Quente. Afável. Conversavam, como na primeira vez que os viram.
— Eu sei que você não demora mais para ir — Falou o rapaz, com voz rouca, embora absolutamente sedosa, depois de longo “silêncio”. Agora, nada do tom sério e austero de antes, ou mesmo a sagacidade felina, parecia emanar de si. Pelo contrário, falava como alguém frágil, despido de tudo que não fossem suas palavras — Por isso a festa. Eu precisava te encontrar.
— Você fez tudo isso por mim? — Espantou-se — Como você sabia que viria? Como sabe tudo isso sobre mim?
— Importa?
 Disse o rapaz, pondo-se ereto ao caminhar para o garoto que continuava escorado na parede de pedra. De perto, bem mais de perto que um dia imaginaria que conseguiria ficar dele, o garoto conseguia sentir seu perfume que antes não dera conta. Era uma essência forte, de fato, embora não de uma forma que o incomodasse. Pelo contrário, cada vez que tragava sua fragrância, mais parecia não ser o suficiente para senti-lo por completo, precisando, então, respirar ainda profundamente. E sim, o rapaz era um pouco mais alto que o garoto — o qual precisava inclinar levemente a cabeça para poder olhá-lo nos olhos, e quando o fazia, seu coração enlouquecia. De respiração pesada, sentia seu peito subir e descer descompassadamente. As línguas se embaralhavam em seu espírito, sendo incapaz de formar uma única frase concreta. Por essa razão, balançou a cabeça, apenas.
Os dedos do rapaz foram até seu rosto, passando por cada traço de seu rosto como um pintor atento o faria com seu modelo. Analisava cada traço, desbravava cada centímetro de sua face com atenção inefável. A maçã de seu rosto, firme. Seu maxilar quadriculado, a barba rala cor de areia... Tudo seus olhos pareciam sorver, embora com uma intensidade como nunca ninguém fizera em sua vida.
— Nunca vi olhos como os teus... — Falou o rapaz, continuando a afaga-lo suavemente — São tão jovens como de um garoto! Atentos. Sedentos... Por isso te chamo de garoto, por causa de teus olhos... Garoto Herondale. Desde a primeira vez que os vi, em uma freguesia portuguesa qualquer, nada mais me apetecia do que vê-los de perto, assim. — Lentamente, aproximou-se do rosto do garoto, como numa dança vagarosa, cessou sem o passo final.
Com ínfima distância entre os dois, apenas o que precisavam fazer para continuar a conversa era sussurrar.
— Também são verdes — Arfou o garoto, percebendo completamente pela primeira vez a cor dos olhos do Rapaz — Não são apenas castanhos, como pensei quee fossem, há verdes neles.
Não se contendo, o rapaz deixou-se sorrir largamente.
— Sim, há verde neles — Falou ainda sorrindo e acariciando seu rosto — Viu como todas as perguntas serão respondidas? “É só mistério, não tem segredo” — Completou, cantarolando.
Apesar de estar em completo júbilo por aquele momento, alguma coisa dentro de si se remexeu, incomodando-o.  Não se afastou, porém, e não queria fazê-lo, pois deleitavam-se em sussurros como uma canção própria.
— É tão injusto! — Arfou novamente, percebendo, por fim, a razão de tamanho incomodo.
— O que é injusto, Garoto Herondale?
— Termos tão pouco tempo para respondermos essas perguntas! — Disse, retirando os olhos do rapaz, mirando o chão por sua vez — Se tivéssemos nos encontrado antes...
— Não adianta lutar contra o tempo, Max. — Respondeu tranquilamente o tal Rapaz. Sua voz rouca e sedosa trazia conforto ao desespero do garoto — Falar do que poderíamos ter sido há algumas semanas? Esqueça. Aqui estamos e aqui devemos ficar: nem martirizando pelo passado inexistente, nem pelo auspício de um futuro por vir, mas aqui, juntos. Esqueça-os, então, concentre-se em nós dois. No presente! Aliás, temos ainda todos os segundos, não é?
Um fraco sorriso iluminou-se na boca vermelha do garoto. Lentamente, como se retomassem os passos daquela dança vagarosa, extinguiram o restante da distância que os separava de estarem definitivamente juntos.
Por quanto tempo deleitaram-se na íntima dança? Pouco importava. Os lábios, os afagos, os suspiros... Todos passos de uma dança que se realizava com tento de perfeccionistas e que pouco davam contar do tempo e espaço.
— Então, está pronto para ir? — Perguntou o rapaz, entre sussurros e beijos.
— Para onde?
— Ora, meu caro Herondale, aproveitar enquanto ainda temos tempo... — Falou, tomando-lhe a mão, arrastando-o para longe dali, onde poderiam, finalmente, se conhecer — Para o mar!
— Para o mar — Repetiu o garoto, deixando-se levar, enfim, para as profundezas desconhecidas — Para o mar...

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Garoto Herondale


— Para onde você está olhando?

Para onde eu estava olhando?

Por alguma razão, a primeira coisa que percebi ao vê-lo foi seu pomo de Adão, que subia e descia garbosamente ao falar e sorrir. Não que fosse uma visão horrível, nada naquele órgão parecia fora do normal, mas o movimento harmônico, calmo, era interessante de se ver. Curioso, observava atentamente, como se fossem passos de um ballet peculiar que ninguém mais se dava conta, apenas eu.

Como era lindo aquele rapaz! Sim, sua beleza fazia-me, finalmente, compreender o significado da palavra lânguida — da qual sempre soube usar, embora nunca tivesse encontrado oportunidade para tal. Baixo, todo o corpo parecia ter sido talhado com tento e zelo imensurável, como faria o mais exímio dos artistas — perfeitamente perfeccionista. Apesar dos cabelos, cor de areia, combinassem muito mais se fossem encaracolados de forma anelar, o tal escultor humanista escolhera para sua obra um corte curto e desgrenhado, que suavizavam as linhas duras e acentuadas de seu maxilar — coberto por uma barba rala de igual cor.

Pelo tempo que o encarei veladamente, não consegui decifrar a idade que tinha. O tal rapaz poderia muito bem gozar do fulgor de sua adolescência, assim como já poderia carregar os fardos de uma vida adulta — quem saberia? Nem mesmo suas roupas — uma camiseta rosa e uma bermuda cáqui — entregavam-lhe o segredo. Mesmo a olhos atentos iguais aos que eu tinha, sempre que parecia ter a resposta em meus lábios — muito novo, por certo! — algum novo traço em seu porte austero retirava-me a certeza e colocava novamente em ponderações.

Foi, ainda buscando a cronologia de suas feições, que nossos se encontraram e trocaram seus primeiros sussurros.

A curiosidade foi o primeiro tom que saltou de seus olhos amendoados. Mesmo longe — estávamos em extremidades distintas da mesma praça — e de lábios selados, o interesse com qual olhara para mim, perguntava voluptuosamente meu nome e quem eu era. Sim, perguntara! Eu poderia ouvir seu sussurro, tão bem que mais parecia sentir seu hálito roçando em meu ouvido e sua barba a minha nuca.

Sim, meus caros, os olhos podem falar tão bem quanto as línguas — e na maioria das vezes o fazem. As línguas mentem, utilizam-se de retórica para ludibriar, mas os olhos jamais. Podem nos enfeitiçar, deveras, embora nunca contar quimeras. Não foram os olhos que denunciaram Capitu? Nenhuma palavra, nenhum toque: apenas um olhar. — E o olhar daquele garoto gritava para mim.

Urrava cheiro de curiosidade, interesse. Quem eu era? O que estava fazendo ali? Por que eu estava o olhando?

Meu rosto esquentou e por um momento o invejei.

Seu olhar beirava o sedento, de uma forma peculiar, única, como se nada conhecesse e tudo quisesse tragar. Era um desenho ingênuo, tal qual a de um cordeiro — pensei — que facilmente poderia ser atraído para o covil de um lobo qualquer, somente por aquela curiosidade pueril e inocente.

Então o invejei. Invejei como um antigo capitão mirava o marinheiro que tomava o barco para sua primeira viagem ao mar. Nunca havia naufragado, muito menos se deixara se levar pelos cantos inebriantes das sereias. As intemperes, filhas do mar bravo, nada mais eram do que apenas histórias amedrontadoras, nada havia de real, lendas! Era jovem, aquele desgraçado. Inocente: mal sabia do mal que poderia espreitar nas primeiras léguas marítimas, pois todas as aventuras pareciam para o garoto como um litoral ameno, banhado de sol. Não havia medo, nem o gosto de féu na boca. Apenas curiosidade e esperança.

Invejei-o, sim, não minto. Há muito não sentia a leveza da juventude ingênua — se é que minhas trovas amorosas me deixaram ser assim, algum dia. Mas a ingenuidade também era um precipício, sabia bem, um imenso penhasco perigoso. Com minhas retinas cansadas, e vendo o jovem marujo na eminência da queda, tive súbita vontade de tomá-lo nos braços e aninhá-lo em meu peito seguro.

“Tudo ficará bem”, era o que desejava dizê-lo. "Cuidarei de ti para que não caías nem naufrague. Serei teu corpo, teu porto. Em mim tu poderás atracar — e tragar. Tudo ficará bem."

Sim, aquele garoto, de cabelos dourados e olhos amendoados, cujos olhos finalmente traziam minha resposta: era apenas um jovem. Jovem como um cordeiro — repeti.

Ele sorriu, esticando os lábios rosados, mostrando seus dentes brancos e alinhados. As pequenas rugas ao redor de seus olhos, como um sussurro caloroso, anunciavam a satisfação sincera de me conhecer.

— A graça e a beleza da juventude — respondi por fim, deixando, também, um sorriso iluminar meus lábios.
Sim, estávamos contentes em nos conhecer.