— Bem-vindo ao
Pandemonium! — foi só o que o rapaz dissera, antes de dar as costas e sumir
entre os mares de pessoas que dançavam sob a luz negra.
Ele não sabia ao certo o
que esperar, de fato, nunca haviam trocado mais do que cumprimentos em festas anteriores.
Mas lá estava, escorado no canto da parede, com uma garrafa de cerveja quase
seca na mão, embora o coração transbordasse de frustração.
Nem se quer acertara seu
nome! — Pensou, sentindo as faces enrubescerem.
— Você é o garoto
estrangeiro, não é? — Disse o tal rapaz, em tom descontraído, mexendo as mãos —
Hélio...?
— Herondale. — corrigiu,
pigarreando, sentindo mais vergonha do que nunca na vida.
— Isso, verdade! —
respondeu-lhe, abrindo um sorriso malicioso nos lábios — Herondale, garoto
Herondale.
Como o rapaz poderia não
saber — ou não lembrar — do seu nome, enquanto ele sabia de cor o seu? Havia,
inclusive, treinado a pronuncia correta inúmeras vezes defronte ao espelho, só
para não fazer feio na frente dele! Sentia-se um completo ridículo por ter
ouvido seus desejos, ter deixado que nele fizesse solo fértil de expectativas
para encontra-lo novamente. Frustração. Ainda por cima, tinha que ouvir ser
chamado de garoto!
... Garoto Herondale ...
Ele não era nenhum
garoto! Não deveria ser chamado assim... Não era um garoto, mas um homem! É
certo que não sabia a idade do rapaz, que não parecia ser velho suficiente para
chamar-lhe de garoto! Aliás, qual era sua idade?
Tomando o último gole de
sua cerveja, ele se pôs à analisa-lo. De longe, ele não parecia ser tão mais alto,
talvez fossem do mesmo tamanho. Falava de forma descontraída, com trejeitos
leves — tudo como alguém de sua idade faria. Mas seus olhos... Existia alguma
coisa em seus olhos que denunciavam o muito que percorrera em sua jornada,
havia profundidade. Sim, seus olhos...
As primeiras palavras que trocaram, foram sussurradas por seus olhares.
Aproximara-se daquele
soturno mar por curiosidade de um marujo sedento, e, sem perceber, ilhava-se,
debruçado sobre os segredos daquelas águas, e, ainda sim, após tempos e tempos
de pesquisa, não sabia por certo a sua idade.
Maldita curiosidade!
Maldito desejo! Onde eles haviam o levado? A uma parede de festa, acompanhado
de uma garota que pouco importava ou desejava.
— Vamos dançar? —
Perguntou a tal garota — Preciso te apresentar meus amigos!
Ele a olhou de lado e
tentou, da forma mais suave que conseguia, convencê-la de que preferiria ficar
sozinho.
— Não sou tão bom em
conhecer novas pessoas — mentiu.
Desapontada, a garota
ajeitou seus óculos no rosto e saiu, deixando-o, enfim as sós com sua
frustração. Já terminava sua quarta ou quinta garrafa no bar, porém, quando uma
voz rouca soou atrás de si.
— Perdido no Pandemonium,
Garoto Herondale?
Ele se virou de pronto,
já meio trôpego do álcool, para ver o rapaz parado atrás de si, com um sorriso
malicioso cravado na boca vermelha de vinho — lá estavam aqueles mares
novamente...
— A little... — Começou,
percebendo rapidamente qual era a língua certa naquele momento — Um pouco. Você
sabe, gente desconhecida, país estranho...
O rapaz sorriu e se
aprumou ao seu lado, escorando no balcão do bar. Ainda de sorriso estampado,
algo em sua postura — talvez a forma com qual se apoiava no cotovelo e o olhava
— exalava uma áurea felina, com pompa, embora relaxado e até fluído — era
esquisito descrever alguém dessa maneira, pensou, mas era exatamente o que
sentia daquele rapaz.
— Não acredito que seja
isso — disse o rapaz, ainda daquela forma felina, sem tirar os olhos dos dele —
Veja, o Pandemonium, a festa que te convidei, é um local onde os desejos tomam
forma... Acontecem. Aqui, pessoas tomam
coragem para fazer coisas que em outros dias se reprimem. Somos livres,
sedentos... Você, por outro lado, parece... — Parou, olhando-o de uma forma que
fez seu rosto esquentar. Parecia que buscava olhar para dentro dele, atento a
voz que seus lábios não ousavam dizer — Barrado. Frustrado. O que houve com
seus desejos, garoto Herondale? Catarina o deixou na mão esta noite?
Sentindo o rosto corar
ainda mais, ele, rapidamente respondeu, sem jeito:
— Não, não, eu que pedi
para ficar sozinho. Além disso — Suas palavras se interromperam em meio a sua
boca. Talvez fosse o atraso comum entre as línguas ou o álcool começara a fazer
efeito, mas, lentamente, as palavras ditas pelo rapaz pareciam tomar forma em
seu peito. — Que você me convidou? Você não lembra nem meu nome!
O tal rapaz deu de
ombros, esticando um sorriso malicioso nos lábios,
levantando suas mãos enquanto se afastava.
— Será mesmo, garoto
Herondale? — E, mais uma vez, sumiu entre os corpos dançantes, luz e gelo seco.
Seu coração martelou,
como um forte sino dentro do peito. Tal qual outra vez, águas perigosas
pareciam invadir o espírito, avassaladoras.
Sabia de mim? — Repetia,
de coração louco e rosto incandescente — Era verdade que aqueles olhos que
incansavelmente mirava — e desejava! —, enxergava-o também?
“É aqui que os desejos tomam forma”, falara,
“Acontecem”.
Precisava descobrir se
era verdade, precisava perguntar-lhe do motivo de se sentir assim — e milhões
de outras coisas que não caberia em uma língua apenas.
Tomando mais alguns goles
de sua cerveja, pôs-se a desbravar o mar de dançantes em busca de águas
sombrias. Era difícil encontra-lo em meio daquela imensidão, sempre que tinha a
impressão de vislumbrá-lo, sumia antes que fosse capaz de alcançar. Pensou em
desistir, mas sabia que era impossível. A ressaca com que aquelas águas o
puxavam, a atração daquele mistério, sugava-o como uma gravidade própria. Foi,
depois de uma epopeia única, que por fim o encontrara num lugar afastado de
todos, silencioso, sob a luz cálida do luar. Escorado no canto de uma parede
escura, seus olhos — aqueles olhos profundos e de idade indecifrável — estavam
fixos nele, analisando-o novamente. Mais uma vez, como sinos em seu peito, o
coração enlouqueceu e retumbou. O jeito felino que antes exalava, agora fora
substituído por austera áurea, embora, de alguma forma, absurdamente acolhedora
— tal qual uma catedral.
— Você me seguiu, garoto
He...
— Herondale — Corrigiu de
súbito, como um reflexo.
O rapaz sorriu,
balançando a cabeça.
— Eu sei o seu nome, Max
Herondale.
O solavanco de seu peito
fora tão alto, ao ouvir as palavras do rapaz, que podia ter certeza que ele
estava delatando a todos o que sentia naquele exato momento — e todos os outros
que tentara esconder.
— Então você realmente
sabe meu nome? ... Como?
O rapaz deu de ombros,
passando a mão pelos cabelos desgrenhados. Novamente, a incógnita de sua idade,
esse pedaço de mistério deixado pela lacuna da ignorância, começava a
incomodar. Quantos anos, afinal, aquele rapaz tinha? Por que parecia ser assim,
tão bem com tudo que acontecia, enquanto o próprio garoto não sabia o que
fazer, o que dizer? De perto, finalmente, conseguia olhar o rapaz como nunca
havia conseguido: sem medo de fazê-lo, sem maiores temores de que pudessem
descobrir o que passava em seu coração desafinado. Errara em seu tamanho, o tal rapaz era um
pouco mais alto que ele, e embora as linhas de seu rosto, maxilar, fossem
duras, havia algo de flexível e juvenil. Suas roupas, uma camisa quadriculada
preta e vermelha e uma calça preta que lembrava couro, caiam tão bem que
ratificavam a ideia de não dever ser tão mais velho que o garoto — se é que o
era. Todavia, pensava, ao olhá-lo assim, largado em uma parede com uma
gravidade austera, a imensidão escura de seus olhos... Era como uma disputa crônica
constante entre o jovem e o velho, o novo e o antigo.
— Onde está Catarina? —
Perguntou, ignorando por completo a pergunta anterior — Vir por alguém a uma
festa e não conseguir encontra-la, isso é... Ruim. Muito ruim, me compadeço de você.
Com uma pontada de culpa,
lembrou-se da garota de cabelos negros e óculos grandes com quem havia vindo.
Quando desconfiara de que a tal menina era amiga do rapaz, aproximou-se dela
esperando por esse encontro. Sabia que eles não eram próximos, mas tinha que se
agarrar a única ponta que os ligava. Perguntava incansavelmente sobre festas
que aconteciam no ambiente em que conhecera o rapaz, demonstrava interesse,
apelou, inclusive, para a persona de estrangeiro que necessitava de companhia,
tudo somente para ter a chance de estar no mesmo lugar junto daquele homem com
quem trocara poucas palavras.
Então, finalmente, o
convite aparecera, junto com o sémen em seu peito. Encontraria-o novamente! Sim, quiçá, dessa vez, pudessem conversar e se conhecer melhor.
Era terrível utilizar a
garota como ele o fizera, sabia muito bem disso, mas como Fausto, de tudo faria
— e daria! — para apetecer esse desejo tão incomum que encrostara-se em sua
alma de forma intensa, voraz.
— Não vim por ela... —
Falou, cheio de sotaque em uma voz rouca — E você não me respondeu.
— E nem vou! — Respondeu
o rapaz, sorrindo daquela forma felina que há momentos atrás se encontrara —
Mas saiba, garoto Herondale, que essa é a primeira festa minha que Catarina
recebe um convite diretamente meu.
— Você tem que ser cheio
de segredos? — Retrucou o garoto, quase sem pensar, enquanto sentia suas faces
inflamarem — Por quê?
— Por ser charmoso, talvez... — Deu de ombros — O mistério
atrai os curiosos. Eis o verdadeiro precipício de nós, os sedentos... Veja você: me seguiu... Responda-me, garoto
Herondale, por que me seguiu?
Por um segundo, o garoto pensou em responder e contar-lhe
tudo, toda a curiosidade e atração que
sentia. Por alguma razão, e ele não entedia qual, desde que o vira e trocara
aquelas palavras em olhares... Quisera conhecer o mar. Desejara de forma
inefável mergulhar mais afundo em seus olhos, encontrar o que residia nas
profundezas de sua íris. Mas temera. Sim. Talvez por nunca ter se sentindo
assim com ninguém ou principalmente por ser outro homem! Temeu e tremeu, antes
de se deixar levar pelas águas violentas de seu desejo.
Lembrou-se, de repente, em meio de seus devaneios, que
alguém poderia estar espiando. Pensou na garota que enganara para ter esse
momento, os reles segundos de uma conversa com alguém que não parecia responder
uma única pergunta sua! Preocupado, conferiu por trás de seus ombros a festa
que não parecia notar sua ausência — nem a sua, nem a do anfitrião.
— Está preocupado que alguém nos veja juntos? — Perguntou o
tal rapaz, com rosto impassível.
— Eu não sei... — Respondeu, com sinceridade, olhando para
as mãos pálidas — Alguma coisa me diz que deveria ser mais cuidadoso, mas já
não sei mais o que fazer. Eu só sabia que precisava... Precisava...—
interrompeu-se em meio as palavras. O que diria para o tal rapaz? O que
precisava? Nem ele sabia por certo a resposta de seu questionamento. Sabia que
queria vê-lo, isso era tudo. Mas a razão? Essa continuava velada em algum lugar
de seu espírito.
— Precisava...?
O garoto não respondeu, cruzando os braços enquanto se
acomodava na parede gelada. Por algum momento encararam-se, apenas. Sim, era
curioso como aqueles dois conseguiam conversar apenas olhando um para o outro.
O que diziam? Algo que ninguém mais era capaz de compreender, uma vez que não
se tratavam de reles palavras de retóricas baratas. Era um sentimento, algo que
não cabia em nenhuma língua que ambos pudessem conhecer, mas que sentiam,
deveras, tal qual um murmúrio em seus ouvidos. Quente. Afável. Conversavam,
como na primeira vez que os viram.
— Eu sei que você não demora mais para ir — Falou o rapaz,
com voz rouca, embora absolutamente sedosa, depois de longo “silêncio”. Agora,
nada do tom sério e austero de antes, ou mesmo a sagacidade felina, parecia
emanar de si. Pelo contrário, falava como alguém frágil, despido de tudo que
não fossem suas palavras — Por isso a festa. Eu precisava te encontrar.
— Você fez tudo isso por mim? — Espantou-se — Como você
sabia que viria? Como sabe tudo isso sobre mim?
— Importa?
Disse o rapaz,
pondo-se ereto ao caminhar para o garoto que continuava escorado na parede de
pedra. De perto, bem mais de perto que um dia imaginaria que conseguiria ficar
dele, o garoto conseguia sentir seu perfume que antes não dera conta. Era uma
essência forte, de fato, embora não de uma forma que o incomodasse. Pelo
contrário, cada vez que tragava sua fragrância, mais parecia não ser o suficiente
para senti-lo por completo, precisando, então, respirar ainda profundamente. E
sim, o rapaz era um pouco mais alto que o garoto — o qual precisava inclinar
levemente a cabeça para poder olhá-lo nos olhos, e quando o fazia, seu coração
enlouquecia. De respiração pesada, sentia seu peito subir e descer descompassadamente.
As línguas se embaralhavam em seu espírito, sendo incapaz de formar uma única
frase concreta. Por essa razão, balançou a cabeça, apenas.
Os dedos do rapaz foram até seu rosto, passando por cada
traço de seu rosto como um pintor atento o faria com seu modelo. Analisava cada
traço, desbravava cada centímetro de sua face com atenção inefável. A maçã de
seu rosto, firme. Seu maxilar quadriculado, a barba rala cor de areia... Tudo
seus olhos pareciam sorver, embora com uma intensidade como nunca ninguém
fizera em sua vida.
— Nunca vi olhos como os teus... — Falou o rapaz,
continuando a afaga-lo suavemente — São tão jovens como de um garoto! Atentos.
Sedentos... Por isso te chamo de garoto, por causa de teus olhos... Garoto
Herondale. Desde a primeira vez que os vi, em uma freguesia portuguesa qualquer,
nada mais me apetecia do que vê-los de perto, assim. — Lentamente, aproximou-se
do rosto do garoto, como numa dança vagarosa, cessou sem o passo final.
Com ínfima distância entre os dois, apenas o que precisavam
fazer para continuar a conversa era sussurrar.
— Também são verdes — Arfou o garoto, percebendo
completamente pela primeira vez a cor dos olhos do Rapaz — Não são apenas
castanhos, como pensei quee fossem, há verdes neles.
Não se contendo, o rapaz deixou-se sorrir largamente.
— Sim, há verde neles — Falou ainda sorrindo e acariciando
seu rosto — Viu como todas as perguntas serão respondidas? “É só mistério, não
tem segredo” — Completou, cantarolando.
Apesar de estar em completo júbilo por aquele momento, alguma
coisa dentro de si se remexeu, incomodando-o. Não se afastou, porém, e não queria fazê-lo,
pois deleitavam-se em sussurros como uma canção própria.
— É tão injusto! — Arfou novamente, percebendo, por fim, a
razão de tamanho incomodo.
— O que é injusto, Garoto Herondale?
— Termos tão pouco tempo para respondermos essas perguntas! —
Disse, retirando os olhos do rapaz, mirando o chão por sua vez — Se tivéssemos nos
encontrado antes...
— Não adianta lutar contra o tempo, Max. — Respondeu tranquilamente
o tal Rapaz. Sua voz rouca e sedosa trazia conforto ao desespero do garoto — Falar
do que poderíamos ter sido há algumas semanas? Esqueça. Aqui estamos e aqui
devemos ficar: nem martirizando pelo passado inexistente, nem pelo auspício de
um futuro por vir, mas aqui, juntos. Esqueça-os, então, concentre-se em nós
dois. No presente! Aliás, temos ainda todos os segundos, não é?
Um fraco sorriso iluminou-se na boca vermelha do garoto. Lentamente,
como se retomassem os passos daquela dança vagarosa, extinguiram o restante da
distância que os separava de estarem definitivamente juntos.
Por quanto tempo deleitaram-se na íntima dança? Pouco
importava. Os lábios, os afagos, os suspiros... Todos passos de uma dança que
se realizava com tento de perfeccionistas e que pouco davam contar do tempo e
espaço.
— Então, está pronto para ir? — Perguntou o rapaz, entre
sussurros e beijos.
— Para onde?
— Ora, meu caro Herondale, aproveitar enquanto ainda temos
tempo... — Falou, tomando-lhe a mão, arrastando-o para longe dali, onde poderiam,
finalmente, se conhecer — Para o mar!
— Para o mar — Repetiu o garoto, deixando-se levar, enfim,
para as profundezas desconhecidas — Para o mar...