No
palco do teatro dos absurdos que é a vida humana, as cortinas se abrem
mostrando uma casual reunião ao ar livre. O dia? Pouco importa. Mais um dos
tantos que já passaram e que ainda estão por vir.
Contudo,
não falemos dela agora. Guardai esta reunião, pois já chegaremos nela,
voltemos, então, para uma noite anterior, de céu escuro e carregado, como
tantas que já passaram e que ainda estão por vir.
― Boa noite, Maria! ― disse para
minha amada, evitando que fosse por entre beijos.
― Fica! Não precisas ir, pode ficar.
― É tarde, é tarde! Não posso me dar o luxo de ficar... Amanhã,
você verá seu amado!
Abotoando
seus botões, Maria não pareceu se convencer, mas deixara-me livre para tomar
meu rumo e seguir para onde iria. Deu-me um beijo, nem tão singelo como de uma
despedida, muito menos quente como para quem fica. Deu-me um único e solitário
beijo, apenas. Afinal, amanhã nos veríamos, não é?
A lua
batia em cheio em todas as janelas, dando um aspecto sombrio a todas as ruas
inóspitas. Ah... Era assim que eu gostava de caminhar! Sozinho... Completamente
enamorando com toda solidão e silêncio que não fosse o som de meus sapatos nas
pequenas poças de água.
Afinal,
era assim, na companhia da lua e de meus botões, que me sentia vivo e verdadeiramente
livre. Metodicamente, eu seguia meu itinerário. As mesmas ruas que tantas vezes
que passei, já poderia andar de olhos vendados sem nenhum problema. Era,
deveras, um dia como tantos que já passaram. A mesma loja de conveniência na
qual eu sempre comprava alguma pastilha, desejando camuflar o odor do cigarro.
Nesse dia, porém, resolvi comprar algo a mais do costumeiro gosto de menta já
não mais me apetecia. Mas, o quê?
Meus
olhos vasculharam toda a pequena loja, passei por comidas, chicletes, refrigerantes,
bebidas... Há quanto tempo não bebia uma cerveja? O tempo ponderou por mim e
decidiu minha escolha. Fumando e bebendo, segui o caminho como tantas outras
noites que passaram.
Foi
atravessando a rua, cantarolando Baioque de Chico Buarque, que algo além,
alterou todo meu itinerário. Primeiro, havia luzes e um barulho de pneus...
Depois o céu, o vento, e em seguida, aquele asfalto duro e úmido... No fim, a
funesta e eterna escuridão de um encerramento de espetáculo, decidido por
alguns segundos de ação.
Então,
chegamos até o dia daquela reunião, como tantos que já passaram e que ainda
estão por vir. Não na minha vida, claro. Nunca pensamos em como morreremos, ou
se nos damos a esse auguro pensamento, quem será que seria capaz de acertar o
findar de seus suspiros? A vida humana é tão frágil quanto um fio a espera de
uma tesoura... Não morremos sendo heróis, salvando a vida de quem amamos... Ah,
não mesmo... Morremos assim, num dia como tantos outros que já passaram e que
ainda estão por vir.
E lá
estavam todos! Ah Maria... Por ironia do destino, ela me viu sim naquele dia
seguinte. Mas eu já não podia beijar-me da mesma forma... O que realmente me matara? Talvez, se eu
tivesse ficado como ela pedira... Ou talvez, se eu não tivesse demorado tanto
para escolher alguma coisa, ou não houvesse escolhido nada! Mudado os rumos
daquela noite, algumas ruas a menos... Quem sabe, Maria, quem sabe?
Meus
lábios velados já não mais poderiam responder.
E mais
um dia se escorria para seu fim. Mais um como tantos que já passaram, e que,
deveras, como tantos que ainda estão por vir.



