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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Esquerda, direita.

                - Ei, aí é a esquerda.
                César parou, olhou para mim e abriu um sorriso de quem se diz “Ah é, essa é a esquerda.”, e continuou a andar.
                Claro que eu – de uma certa forma – poderia dar as costas e seguir o meu caminho, mas resolvi por segui-lo.
                Caminhamos assim ainda algum tempo antes que eu explodisse.
                - Aí é a esquerda! Esquerda é diferente da direita!
                - Eu sei – disse ele aveludadamente – Eu sei que aqui é a esquerda.
                - Se sabe que aí é a esquerda, por que me disse então que adora ir pela direita?
                - Ah é, eu adoro ir pela direita.
                Calou-se e continuou a andar.
                Como sempre fazia, fiz um gesto de segurar uma arma na mão e lhe dar um tiro, desejando que houvesse uma bala verdadeira.
                - Ei, ei já chega! Já chega! Isso é esquerda, e você disse que o caminho era pela direita...
                - E eu adoro a direita. – Completou.
                - Mas então, me diz de uma vez por todas, por que ainda fica indo pela esquerda? Agindo como se o caminho realmente fosse esse?
                César se calou retorceu a boca com um ar pensativo.
                - É, o caminho é pela direita... E eu adoro a direita, já te disse? Já né?
                - Já... Disse.
                - É, adoro a direita.
                Falou com um largo sorriso no rosto,  virou-se e continuou a andar pela esquerda.


domingo, 10 de julho de 2011

Certificado

                              - Estou aqui para pegar meu certificado.
                A balconista parou. Ajeitou os óculos, mexeu no computador, e em alguns papéis antes de voltar a atenção para o moço da fila.
                - Pois não?
                - Eu vim aqui pegar meu certificado.
                - Tudo bem ... – disse ela – Qual seu nome por favor?
                - Ah, é João Eduardo.
                - Okay então, você poderia resolver este pequeno questionário e retornar aqui para confirmarmos o seu cadastro?
                - Claro, claro.
                João recebeu seu papelzinho e logo se dispôs a resolver todas as perguntas. Marcava com X em muitas perguntas, sem nem se quer pensar – não que ele estivesse mentindo na hora, e sim porque há coisas que nem precisa se pensar para responder –; terminada a tarefa, João Eduardo retornou ao balcão.
                - Aqui está.
                A Balconista parou olhando suas respostas criticamente.
                - Hum... Amante de carros esportivos, um grande membro de fila... Aqui também diz que está participando secretamente de uma quadrilha, não parece ter muito futuro... Maravilhoso! Espere só um momento.
                Novamente a balconista voltou a fuçar em seu computador, seus dedos mais pareciam brincar de ondinha sobre o teclado, e em mais alguns segundos de trac-trac’s, voilà! Lá estava João Eduardo, o mais novo membro daquele imenso clube, prontinho para receber seu certificado.
                - Parabéns Sr. João Eduardo, o senhor recebeu um certificado de vitalício! Aproveite as vantagens, se é que possuí alguma, e o senhor vai querer levar uma plaquinha, ou um adesivo para colar à testa?
                - Não, não obrigado, assim já está bom. Um bom dia.
                - Bom dia, e volte sempre.
                A balconista então entregou um enorme envelope de papel, ao senhor João Eduardo, o seu mais que merecido certificado, e logo em seguida voltou a fuçar no computador feito uma pianista maluca.
                Não tanto satisfeito, João Eduardo resolveu tentar seguir com sua vida. Colocou o enorme envelope debaixo do braço e caminhou até a saída. Mas antes que pudesse sair, um curioso bisbilhoteiro – pois sempre há um onde quer que você vá – parou-lhe no meio do corredor.
                - Desculpe... Senhor João Eduardo não é? – Começou ele – De que certificado é esse?
                - É um certificado de idiota.
                 E saiu ele, esquecendo-se de completar que era vitalício.



sábado, 9 de julho de 2011

Fome por querer.

                Um dia, certo garoto – sozinho, como ele preferia pensar – chorava desesperadamente de fome. Seu choro era o mais escandaloso e silencioso possível, a cara se contorcia, o lábio franzia, os berros eram extravasados de outra forma, e as lágrimas , ao que parecia, só saia quando estava deveras sozinho.
                Mas uma vez, logo após o estrondo de uma bomba, alguém o pegara chorando. Não, alguém o fora carregado por ele, para vê-lo chorando.
                - Ei filho, por que está chorando? – perguntou o homem.
                - Estou com fome. Muita fome. Desesperado pela agonizante e intensa fome!
                O Homem parou fitando confuso tudo ao redor do garoto.  Onde estavam, existia uma completa fartura de alimentos dos quais ele precisava, de todos os gostos, tamanhos, e calores. Então, por que ele chorava de fome?
                Sem haver completas respostas, o homem – agora – apenas se limitava a observar os berros do garoto.
                - Faça alguma coisa! Faça alguma coisa, me dê o que comer.
                - Claro, claro, só um momento...
                O Homem nem precisou correr para conseguir o alimento, de dentro do seu bolso mesmo, retirou algo quente, e quem sabe suculento, e entregou para o garoto.
                - Não quero isso! – reclamou o garoto dando um tabefe nas mãos do Homem.
                - Por que não? Você não está com fome?
                - Mas não quero isso! – dizia aos berros – Estou com fome! Com fome!
                -E o que você está fazendo para se alimentar?
                - Claro que nada – respondeu.
                Irritado com o que o Garoto acabara de fazer, o homem recolheu o alimento, e colocou de volta de onde retirara.
                - Certo, se não quer isso, por que não vai atrás de comer sozinho?
                - Por que não há nada aqui para se alimentar. Nada. E estou com fome!
                - Como não tem? Ficou maluco, ou acabou por ficar cego? Olhe em volta, só o que tem é fonte de alimentos para essa sua fome, vá atrás.
                - Não, eu não vou atrás, a comida, tem que vir até mim, e estou com fome.
                O sangue borbulhou pelo corpo daquele Homem, há quem diga que, até o castanho de seus olhos também pareciam ferver de raiva quando ele deu finalmente as costas para o garoto e se afastou. Contudo, ainda havia algo – pelas lembranças passadas creio eu – que o fazia a ficar por perto, juntinho com as outras fontes de alimentos.
                - Olha, mais um. – Disse uma delas quando o homem se aproximou.
                - Mais um o que?
                - Para o estoque do moleque.
                - Mas eu não sou não.
                - Ah não? – E se calou.
                E ficaram assim, ainda por terminar. Porque tem gente que leva demais a serio a expressão : “ Se Maomé não vai a montanha, a montanha vai a Maomé.” E ainda querem discutir provérbios.







NOTA: Dedico esse texto ao meu mais recente velho amigo. De um Leão, para um adorador de cobras que acabou por confundir jubas com escamas.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Passos regrados.

Fecho o olho. Abro o olho. Fecho novamente, e torno a abrir. Respiro. Começo a andar. Travo. Volto corado. Respiro bem forte. Fecho o olho e tapo minha cara com as mãos.
Abro em seguida e reparo em todos os lados. Envergonhado, retorno a andar. Vou falar, penso. Chego bem perto. Desisto. Fico sem ar, e com as pernas bambas. Fecho os olhos, e faço um autocafuné.  Vai ficar tudo bem, me consolo.
Abro os olhos, e retorno para onde não deveria ter saído. Respiro fundo. Bato em mim mesmo de leve. Retorno a respirar e pensar que vou falar.
E então, lá vou eu de novo.


domingo, 3 de julho de 2011

Birra

                - Que feio, um rapagão desse tamanho, fazendo birra feito uma criança!
                Thiago se emburrou ainda mais interiormente, no entanto, sua cara permanecia tão impassível quanto a de uma comissário de bordo.
                - Mas é meu não é? Por ventura é errado querer algo que é seu-você de volta? O governo vive fazendo isso com as poucas terras dos outros, e ninguém o chama de criançona.
                - É diferente.
                -Tem razão, eu não roubo nada.
                - Isso.
                E novamente Thiago voltou a se calar feito um túmulo sarcástico, os dedos parados – pois esses também poderiam falar ainda mais -, e os olhos longe, muito longe.
                - Por que está me repreendendo? – perguntou ele em sua mesma fleuma.
                - Porque sim! Você está agindo feito uma criança Thiago. Uma criança.
                - E o que tem de errado nisso? Eu não acho que tenha alguma coisa errada nisso, pra falar a verdade, é até bom, vez ou outra, agir feito uma criança, fazer birras, colocar a língua para fora, e mostrar os dedos para os outros partirem, porque antes os dedos do que o coração.
                - É... Olhando por esse lado.
                - E olhe que eu nem estava olhando nada...
                Silêncio.