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terça-feira, 11 de novembro de 2014

A Última Dança



               Os dois se encontraram sob a lua cheia. A Dama estava ainda mais linda que todos os outros dias de suas eternas juras, e ele, como amante dedicado, não deixou de perceber enquanto a adorava silenciosamente. A cada passo dado, uma briga inefável se desenrolava dentro do si. Ele sabia que estava errado, sim, mesmo que ponderasse por mais mil anos, tinha certeza de que estava tomando a decisão errada, no entanto, tinha que fazê-la.
               ― Você está linda, Dama minha... ― disse o rapaz ao estar bem próximo. ― Como sempre, você está linda.
               ― Obrigada... ― Retrucou em tom impassível ― Por mais que eu adore ouvir teus elogios, sei muito bem porque me chamaste... Não há outro motivo para estarmos aqui, na completa escuridão... É chegada a hora, não é?
               O rapaz quis fraquejar. Seus sentimentos mandavam que fizesse o completo oposto do a que se propusera; queria beijá-la, levantá-la sob a luz da perversa lua, desejava sentir o toque suave de seus lábios, tragar seu cheiro doce como se fosse ópio... Mas nada fez. Censurou-se por completo e ficou estático, como uma estátua sem vida ― Aliás, não era assim que se sentia? Pois, apesar de seu coração continuar batendo forte ― como estava ―, nunca sentira bater tão fraco e mórbido.
               ― Eu sabia que você entenderia quando eu lhe chamasse aqui... Nada disse até então, pois em meu peito ainda residia pequena flama de esperança de desistir ao pôr meus olhos em você... Mas não posso... Não posso ficar, mas também não posso ir antes de um última dança... Nossa última dança.
               A Dama hesitou, sem saber o que responder. Será que eles poderiam ter uma última dança? Ela estava completamente frustrada, enraivecida. Como podia lhe pedir uma última dança? Não era justo que ele houvesse decidido pelos dois, ir embora, desistir do que tinham... Ia negar-lhe esse pequeno ― mas grandioso ― prazer... Ia embora. Daria as costas e nunca mais olharia para trás, mesmo que ele voltasse a se humilhar prostrado aos seus pés, recusaria categoricamente. Preferia mil vezes que ele encontrasse a morte ao caminho de volta para ela. Sim, tudo isso fora pensado naquele singelo momento, contudo, a dor que também sentia era ainda mais forte que seu orgulho de mulher... A Dama também precisava de sua última dança.
               Aceitou.
               Mesmo sem haver música, os dois começaram a bailar sob a lua. Passaram aqueles intensos segundos completamente imersos um dentro do outro, como se fossem um só. Seus olhares ternos, seus hálitos se encontravam no ar... Oh, era impossível para tais amantes não se deixarem ser tomados pelas lembranças de todas as noites que passaram juntos, de suas conversas, de seus beijos... Efêmeras quimeras que logo acabariam, e pior, esta noite seria lembrada para sempre, adicionada a seus pretéritos textos amorosos.
               Por mais que desejassem continuar eternamente naquele doce momento, a dança não poderia continuar, há muito que já tinham chegado ao máximo aonde seus passos poderiam levá-los: não havia mais para onde ir, restava apenas o fim.
               Assim fizeram.
               Cessados os passos, o fraco rapaz continuou fitando aqueles lindos olhos, procurando forças para dizer o que queria, mas sabia que estava fazendo da forma errada: olhá-la só dava motivos para que ele ficasse, e não partisse.
               Então ele se aproximou ainda mais, perto o suficiente para que sua boca pudesse dar um último beijo. Sua mão foi ao rosto da moça e segurou-o forte. Com os olhos fechados ele tinha as palavras na boca sozinha:
               ― Perdoe-me, mas eu tenho que ir. Obrigado por esta e todas as danças que tivemos. E...
               Ele parou de falar, esperando que ela entendesse o resto de suas palavras. Soltou o rosto da moça e deu as costas.
               ― És um mentiroso, sabias disso? Se me amas como dizes, por que estás fazendo isso?
               ― Porque sou um covarde...
               E assim, o rapaz saiu sem a companhia de Lua ou Estrela pala a escuridão, desejando que a Dama ficasse bem, mais até do que ele mesmo.


NOTA: 
Este texto antigo já está perdido pelo blog há alguns anos... No entanto, fiz alguns reparos necessários e trago como novidade... Acredito que este texto em particular seja importante, principalmente para fazer contraste com meus textos de 2010  início do blog. Trago-o simbolicamente para essa nova abertura do blog...  Então, espero que gostem :3
F. J. Júnior.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O Retrato

Há momentos em que o artista deve se diferir dos costumes de sua antiga persona, para que possa desbravar novos mares criativos. Dessa forma, o Demiurgo dentro de mim haverá de se resignar, porque hoje não criarei cenários ou pseudônimos para trovar os fulgores de minha paixão. Tentarei algo novo, uma vez acreditando que só assim te farei justiça. Pintar-te-ei como és, apenas; serás, nessa eternidade efêmera, o meu próprio Diego Rivera, pois me dedicarei com paixão a cada traço, mesclando e ignorando as diversas realidades que existem entre nós ― quem sabe assim meus anseios vanguardistas se sobressaiam e tenham valor.
Nunca imaginei o caminho que seguiríamos quando nos permitimos aquele primeiro olhar. Sim, ainda me recordo da impressão que tive... Cada um tem, em torno de si, uma canção que impregna o ambiente a sua volta, as primeiras impressões são isso: a sensação que temos da música de cada um; e a sua ― devo dizer ―, era apenas acordes seguidas de mais acordes, sem cessar, como uma canção pronta para ser ouvida, tal qual desesperada para ser cantada; e nisso residia um toque de mistério, o suficiente para enfeitiçar qualquer marujo sedento, e assim o fez: enfeitiçou-me. Daí, então, as Moiras exerceram seus papéis e teceram nossos caminhos, a minúcia com qual foi feito seu trabalho no tear é inegável para todo aquele que se pusesse a ponderar sobre o ocorrido. Diga-me, quantos marinheiros havia naquele porto? Quantas partidas e chegadas se fizeram antes e depois de nós? Percebe a sutileza dos fatos, o arranjo sútil de toda a ópera? A chance de nosso encontro era ínfima em meio a tantas variantes que poderiam nos arrastar para caminhos completamente opostos, entretanto, cá estou eu, forçando minhas memórias para te eternizar, como tantas outras paixões que tive! Desculpe minha digressão, mas juro necessidade, já que o Destino é uma tinta superestimada para a pintura perfeita, e nós, acredite, estivemos intensamente imersos nela...
Sei, no entanto, que, para uma obra completa, isso não basta. Além do quê, há ainda inúmeras belezas a serem destacadas, como o tom indeciso de tua pele, ora morena, ora branca, ou teus negros cabelos cultivados com vaidade e tento. Ah, sim, a vaidade... Não te iludas em pensar que me passa despercebido o teu anseio de se assemelhar a Narciso, uma vez que tudo o que fazes entrega-te: teus gestos, tua música, também não é outra a razão de premeditares tuas palavras tal qual faria um poeta fingidor. A vaidade... Sim, é a única roupa que não deixas de vestir, embora seja o que te torne humano e digno de ser pintado por mim, pois a perfeição ― desde que não seja aquela criada por meus olhos apaixonados ― não me agrada.
Não me esquecerei de pôr suas cicatrizes espalhadas pelo corpo nos devidos lugares em que as vi, e peço perdão se passo uma ideia distinta, mas não quero tirá-las nunca, porque entendo que faz parte de ti, são os teus troféus, não é mesmo?... E sobre teus olhos: negros. Escuríssimas janelas, tão profundas quanto tua canção, mares arredios e misteriosos, que ― já disse ― enfeitiçam os sedentos, encantam os mais ingênuo; os desatentos, os completamente atentos... quantos foram os tragados por estes olhos? Quem são aqueles que sabem ― ou pelo menos desconfiam ― dos segredos velados sob tua íris? Será que eu o sei? Oh, olhos feitos os teus, caro amigo, não foram criados para serem completamente verdadeiros, haverá, sempre, mais um segredo a ser desbravado. Essa é a única certeza em meio à imensidão de dúvidas... Mas não nos demoremos mais, pois ainda tenho muito trabalho a fazer!
Seu sorriso ficou propositalmente para o final, pois ainda me encontro indeciso de como o pintarei. Esta parte, devo dizer, requer minúcia, destreza, sensibilidade... Uma vez que a menor alteração pode levá-lo de sacro a profano. E como sei que te preocupa a forma com que te veem, questiono, então: como queres que te vejam? Qual seria a melhor forma de te eternizar em minha obra? Retrato-te da forma que veneram, divinamente imaculado, quiçá celibatário e completamente missionário? Pôr-te assim agradaria um público maior ― sem sombra de dúvidas! ―, embora seja mais uma imagem perfeita de ti, dessas, acredito que já haja tantas espalhadas por aí. Entenda, se eu cedesse ao completo agrado alheio ― bem como tu o fazes ―, minha obra não seria nova, apenas mais uma...  Por isso, os puritanos teus amigos que me perdoem, porque escolherei a forma profana, pois é a única na qual te vi liberto para sentir e demonstrar estampado nos lábios cada um de teus desejos. Sim, sim! Dessa forma! Eis como irei te pintar: sorrindo cheio de malícia como naquela manhã, despido de barreiras e teorias moralistas― e não te preocupes, tu ficas lindo de tom malicioso, principalmente quando levanta a sobrancelha! Porque é quando melhor te vejo e sei que és tu, não outro ser talhado de perfeição e santidade que poderá fugir a qualquer momento para longe. Não, não, eu quero ficar assim, pertinho... Aninhado... Entregue... Vendo-te por completo e deixando que me veja assim também, porque essa é  a nossa poesia e, por mim, deveríamos continuar a ser poetas para sempre!
Infelizmente, terminando meus últimos traços, percebo que certas limitações assolam até mesmo o mais exímio pintor. Nunca aqueles que vislumbrarem o teu retrato poderão ouvir o tom de tua bela voz; o tecido e a tinta enrijecida serão as únicas coisas que sentirão ao tocar esta tua falha projeção, jamais será tua pele quente e suave que tive eu a chance experimentar. Tua conversa aprazível, de conteúdo inteligente, assim como teus beijos e afagos, viverão apenas como vultos incertos nas mentes daqueles amantes sonhadores que porventura se deixarem levar em meio a tantos devaneios... Imperfeições de um artista imperfeito, talvez.  

Agora, terminado meu labor, posso enfim te colocar ao lado dos tantos que já pintei, e mesmo que fujas amanhã, guiado por tuas estrelas, o fruto de nossa efêmera poesia permanecerá eternamente nesta obra, servindo de lembrança para tudo o que vivemos... Que nos apaixonamos.

...

Sabe o que mais me tortura? É o tempo.
Sim, o tempo. Precisamente aquele que se arrasta quando estou longe de ti.
Por que ainda estamos tão longe, enquanto os segundos insistem em se jogar desse precipício? Não se iluda meu amor, eles nunca mais voltarão. Pois tempo perdido é vida invivida, como uma peça do quebra-cabeça que se perde nessa vastidão inefável que é o destino.
Então, porque não estamos ― de uma vez por todas ― juntos?
Se é por medo do futuro, eu te digo: não precisa temer o mar, amor meu, eu estou junto de ti. Dê-me a sua mão, e juntos, descobriremos todos os mistérios que os mares guardam. Enfrentaremos todas as tempestades e intempéries que o tempo nos reservar; atracaremos por amor em todas as maravilhosas ilhas. Tudo o que precisamos fazer é navegar, e juntos, deveras. Pois não há mal que eu não possa aguentar, que não seja ficar longe de ti.
Então, por que não estamos juntos?
Se meu corpo clama pelo teu, por todas as tuas curvas, teus olhos amendoados e serenos, tua boca vermelha que tantas vezes beijei... Na verdade, meu corpo e minha alma clamam em comunhão por tua vida, que insiste em se manter longe da minha.

E por que... Por que ainda não estamos juntos, meu amor?

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Tròis

― Você é um gatinho medroso ― sussurrava Fernando em meus ouvidos ― sabia disso?
                A medida que seu hálito quente roçava em meus pescoço, eriçando todos os pelos de minha nuca, mais meu coração parecia solavancar intensamente - era uma sensação estranhamente gostosa.
                ― E-E o que você quer?
               ― Eu? ― perguntou-me ele ainda em sussurros sem parar de me fitar com aqueles olhos azuis a poucos centímetros dos meus ― Eu quero você, meu amigo... Mas principalmente, quero que você se divirta...
                ― Isso! ― Camila veio e se sentou do meu lado, aproximou-se da minha orelha direita e a mordiscou levemente antes de entrar na conversa arfando fraco ― Ou se diverte... ― mordiscado ― Ou nada feito. É assim que o jogo funciona!
                Assim como fora com Fernando há pouco tempo, meu corpo simplesmente enlouqueceu logo que a boca de Camila se aproximou da minha orelha... Ah, era meu ponto fraco, e os dois já pareciam saber disto.
                Dei um longo suspiro procurando me acalmar, enquanto procurava em algum lugar das minhas memórias a explicação para como havia entrado nessa.
                Camila e Fernando eram namorados, e meus amigos; não tão próximos, embora no fim, amigos. A verdade é que eu sempre fora louco por Camila, então, era preciso somente uma brecha para que eu me aproveitasse e aproximasse dela, sem me importar com Fernando. Conversas por bate-papo, mensagens no celular, tudo para chegar mais perto dela... Mas foi somente quando estávamos bebendo todos juntos na casa de Fernando que tudo começou a acontecer.
                Antes de me perder no delírio dos fatos, permita-me explicar a razão de minha loucura por aquela mulher. Camila era incrivelmente linda! Sua pele era de tom moreno, seus lábios finos traçavam linhas bem desenhadas, que despertava o desejo eminente e incontrolável de beijá-la... Os cabelos eram castanhos escuros que escorriam-se pelo seus ombros e iam até os seus seios. Ah e que seios! Ela tinha um corpo que fazia qualquer um acreditar no paraíso, ou então o inferno... Pois um corpo daquele, meu caro, era tentação na certa!
                No entanto, como dito, Camila era de outro cara: Fernando. Sabe, ele não era tão mal assim... Ah, o que estou dizendo? O cara era incrível também. Era alto ― mais ou menos um metro e oitenta ― com ombros largos e músculos bem definidos por todos os lugares, principalmente na barriga. Tinha penetrantes olhos azuis, um queixo recoberto de barba recém-feita com uma covinha na ponta, e para completar o pacote, também possuía uma voz rouca e aveludada, do tipo o qual, até eu, que nunca havia prestado atenção em... Bom, em homens, fazia-me ficar todo eriçado ― E dessa vez, não me refiro somente aos pelos do corpo.
                E naquele momento, por mais insano que parecesse, eu possuía os dois, bem ali, a poucos centímetros do meu corpo ensandecido de tanta excitação. Contudo, eu ainda permanecia tão tenso e estático que minhas mãos pareciam ter virado pedra, não ousando desbravar nenhum centímetro dos corpos daqueles dois.
                Felizmente, foi Camila quem reverteu a situação.
                ― Vem ― disse ela se pondo de pé e me puxando pelo pulso ― Vamos dançar!
                ― Não, eu...
                Fui incapaz de terminar a frase, pois Camila houvera me puxado com muita força para perto de si, dando-me um beijo. E que beijo...

                Suas mãos seguraram as minhas e levemente foi guiando-as por seu corpo, passou por  seus quadris e foi repousar um pouco mais a baixo...
                Seu corpo começou a se remexer sensualmente  no ritmo da música, seus lábios também dançavam por minha pele beijando meu peito, pescoço e ouvido, de uma forma quente e bem molhada. Vez ou outra, meus olhos vacilavam para Fernando enquanto sua namorada fazia carinhos pelo meu corpo. Ele permanecia sentado no sofá com seu copo de uísque, nos fitando com um sucinto prazer naqueles olhos azuis, de certo, sua mente trabalha em desejos profanos, pois sempre que nossos olhares se cruzavam, Fernando exibia um sorriso ainda mais malicioso do que a forma que me encarava.
― Ele não vem? ― perguntei entre um beijo e outro para Camila.
― Agora não ― respondia-me ela, quase sem descolar os lábios dos meus ― Parece que ela sente tesão em me ver com você...
― Tesão... Em mim?
Camila assentiu e continuamos a dançar. Não durou muito para que Fernando terminasse o que restava de uísque em seu copo com um único gole, e levantou-se, vindo em nossa direção com aquele mesmo sorriso cravado na boca.
― Ei, gatinho medroso, você poderia pegar mais para nós? ― perguntou Fernando por cima dos meus ombros.
Ele me entregou o copo e fui até o barzinho que ficava num canto distante da sala, deixando-os mais reservados. Os dois começaram a dançar e cochichar alguma coisa sem que eu pudesse ouvir.
Mesmo curioso, dei de ombros e aproveitei essa pausa para me acalmar um pouco mais. Eu estava completamente excitado por causa da dança, e mesmo um pouco longe, ainda sentia a sensação daquele corpo grudado ao meu, o toque dos seus seios, a umidez de sua língua... Ah, sim,  minhas mãos tremiam com um misto de desejo e nervosismo, e por alguns segundos, deixei que Eros me arrastasse daquela pequena festa da qual só fui trazido de volta com o soar de uma voz galante:
― Ei, medroso, você está colocando gelo demais.  ― Fernando estava colado bem atrás de mim. Eu tinha me distraído de tal maneira que só o percebi quando seu corpo encaixou-se no meu.  ― Se ficar muito aguado, o gosto fica sem graça...
― Foi mal, cara, eu não sabia...
― Tudo bem, não precisa se desculpar ― Novamente sua boca pairava a milímetros de meu ouvido e todas as palavras ditas não passaram de leves sussurros. Lentamente, seus dedos quentes desceram por meu ombro até segurarem a mão que estava o copo ― Vem cá, deixa que eu te ensinar uma coisa.
Fernando virou meu corpo, sem retirar seus olhos dos meus, pegou o copo da minha mão e o colocou sobre o balcão de madeira.
― Como vou colocar o gelo sem o copo? ― arfei com uma voz atrapalhada de nervosismo.
― Gelo? Nunca disse que era sobre o gelo.
Então aconteceu, em um segundo, a boca vermelha de Fernando veio de encontro a minha num beijo. Inicialmente fiquei estático, sem saber o que fazer, afinal, era a primeira vez que um homem grudava seu corpo no meu e me beijava, e a sensação que meu corpo experimentou... Bom, as opções que me restavam eram claras: eu poderia retribuir aquele beijo, ou negá-lo, empurrando-o para longe... Meu caros amigos, o que é a vida se não um amontado de experiências? Logo, optei pela melhor opção: a primeira.
Meus braços se fecharam laçando seu corpo e intensificando pressão sobre o meu, pois se eu ia me amassar com um cara, iria degustar cada centímetro que me fosse oferecido. Dessa forma, uma de minhas mãos logo desceram até a sua bunda, enquanto a outra a outra ia até o seu cabelo, entrelaçando meus dedos nos fios castanhos e desgrenhados.
Foi pego de surpresa quando descobri que o seu beijo me dava tanto tesão quanto o de Camila. Não só o seu beijo, mas também seu corpo quente junto ao meu, fazendo-me sentir cada músculos sobre minha pele.  Nossas aventureiras mãos percorriam sem censura ou receio algum, tocando-o em regiões que nunca achei que um dia sentiria prazer em tocar. E para ser franco, Fernando era excitante pra caralho! Eu curtia cada centímetro, cada beijo, cada afago... Até mesmo da sua barba rala roçando em meu pescoço, e o volume dentro de sua calça me deixava ainda mais excitado.
― Não vão me deixar sozinha aqui, hein! ― Camila se pôs lentamente entre nós dois, afastando-nos e obrigando-nos a parar de beijar ― Eu também quero brincar!
Fernando sorriu embriagado de luxúria, e como estava de frente para ela, a beijou dividindo suas mãos, uma segurava seu rosto firmemente, enquanto a outra, puxava-me para perto do corpo daquela deusa.
Sim, mergulhei no jogo daqueles dois e  levei meus lábios à nuca de Camila, ora beijando-a e passando a língua, ora mordendo-a e dando chupões de leve que eram recebidos por suaves gemidos.
Dançávamos os três em perfeita sincronia com o prazer. Não importava mais naquela hora nossos sexos, e sim os beijos, e prazeres que desatavam em nós um excitante comichão generalizado em todo o corpo – Claro que no meu e no de Fernando, esses comichões fossem mais fortes em um lugar em particular.

Continuava nervoso, é claro. Meu coração ainda parecia um louco, martelando freneticamente em meu peito, minha respiração estava pesada, arfante; e embora em meus momentos de fetiches isso nunca tivesse passado por minha cabeça, não podia deixar de negar que à cada segundo, o quanto eu desejava que aquilo houvesse acontecido mais cedo... O quanto eu desejava queimar no fogo de nossos prazeres.
Em algum momento, Camila puxou-me para frente, fazendo-me tomar sua posição entre os dois. Eu e Fernando voltamos a nos beijar por alguns segundos antes que ele me fizesse virar, fazendo-me dar as costas, ficando de frente para sua namorada, a qual não tardou para grudar seus lábios nos meus.
― Olha só, o gatinho medroso... ― sussurrou ele, revezando as palavras entre um afago e outro com a boca em meus pescoço ― Deixou o medo de lado?
― Anham ― respondi adorando a sensação que sua língua me trazia ao zanzar por meu pescoço ― Troquei o medo pela luxúria, meu caro... Por quê? Ficou com medo de acabar de quatro?
― Medo?! Não, muito pelo contrário, fiquei ainda mais excitado!
Sorri e Fernando pegou uma de minhas mãos, colocando-a em sua calça somente para ratificar o que já houvera dito antes. Sim, estava tão excitado que seu pau mais parecia uma pedra. Tudo isso acontecia sem que Camila parasse de me beijar. É claro que os dois não pararam de trocar carícias, o que me deixava com mais tesão era quando seus rostos se encontravam na exploração do meu corpo. Não fiquei parado um único segundo sendo o recheio daquele sanduíche, também apalpava cada parte que conseguia alcançar; minhas mãos tocavam os fartos seios de Camila e desciam por sua barriga até aquele lugar em particular, enquanto a outra fazia movimentos para cima e para baixo, masturbando Fernando por cima da calça.
― Por que nunca fizemos isso antes?! ― perguntei quando demos uma pequena trégua para que Fernando pudesse pegar mais uísque no barzinho.
― Porque não sabíamos como você iria reagir - disse Camila, colando seu corpo no meu, fazendo-me sentir seus deliciosos seios em meu tórax.
― Ah... Mas... Bom, realmente, acho que se vocês houvessem chegado para mim e fizessem essa proposta, eu teria negado ― enquanto falava, lentamente retirava sua camiseta, deixando-a somente de sutiã.
― Você não está gostando? ― Perguntou F, do outro lado da sala.
― Estou adorando, por quê?
―Porque é difícil deixarmos o moralismo de lado, e isso acaba atrapalhando nossas experiências ― respondeu-me ele, caminhando em minha direção ― Ou seja, o moralismo é a pior de todas as censuras.
― E chega de censuras, certo? ― completou Camila.
― Certo!
― Então deixa comigo! ― disse Fernando com aquele sorriso malicioso.
Ele parou bem perto de mim, colocou as mãos quentes em minha nuca e foi descendo seu corpo lentamente. Seus lábios beijavam tudo o que encontrava... Meus peitos, minha barriga... Só parou quando chegou em meu sinto, o qual na mesma hora começou a desafivela-lo.

            ― Vem – sussurrou novamente ― vamos começar com essa festa logo de uma vez. 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Às vinte e duas horas.

Às vinte e duas horas da segunda, bateu o ponto de seu trabalho, pegou uma condução abarrotada até sua casa bagunçada, despiu-se, banhou-se e foi dormir, pois, pela manhã, teria de acordar cedo – Amanhã arrumo tudo!
Sonhou...
Acordou sem vontade, comeu algo sem gosto e foi trabalhar. As vinte e duas horas passaram a se repetir, dia após dia, cotidianamente... Despia-se, banhava-se e dormia, afinal, em todos os dias seguintes, ele teria de acordar cedo. Com o passar do tempo, já não mais sonhava.
Naquele dia, às vinte e duas horas, pegou seu cartão, bateu o ponto, encerrando seu trabalho. Dessa vez, não pegou uma condução abarrotada para casa. Resolveu ir caminhando envolto pela soturna escuridão da noite.
Passou, então, por um boteco que há muito deixara de frequentar, apesar de ser bem ali, pertinho de seu trabalho. Bebeu as três primeiras doses do uísque mais caro que lá havia – sem gelo, por favor! –, e parou um momento para pensar em seu projeto de vida.
Tudo estava tão morto... Tão escuro! Não havia uma única cor no luzir das estrelas lá fora. Era tudo assim, preto ou branco, como os fios de seus cabelos. Os brancos insistiam em aparecer tão incansavelmente, que deixavam ainda mais evidente o esvanecer da fugida juventude.
Para falar a verdade, ele não sabia ao certo se sua juventude houvera fugido entre seus dedos ou sido roubada abruptamente, e, embora buscasse incansavelmente respostas, de nada adiantaria, já que, em ambos os casos, o fato era o mesmo: ela já havia ido embora, e não retornaria.
Não era assim que me via aos trinta... – pensou.
― Mais uma dose, por favor!
Não era assim que queria viver aos trinta! 
Bêbado, temia e tremia, pois já era quase meia noite, e como sempre, teria de acordar cedo pela manhã. Mas não queria... Não era aquilo que havia programado quando jovem. Ah, que se dane!
Deixou as horas em cima da mesa, pediu mais uma dose, a conta, e saiu trôpego pelas ruas da cidade. Só então conseguiu andar livre por alguns quilômetros. Em sua caminhada, viu um pequeno campo de futebol e o reconheceu de outros tempos. Era lá que, quando criança, costumava brincar com seus amigos. Alegre, satisfeito... Não havia sequer uma única preocupação que não fosse aquele gol perdido... Outros tempos.
Passou também pela rua de um antigo e verdadeiro amor. Uma namorada de quando ainda tinha impecáveis cabelos negros. Oh! sim, como aquela lembrança o fazia sofrer! Era, deveras, um verdadeiro amor que fora deixado para trás, pois só podiam se encontrar às vinte e uma horas... E vinte e uma horas não cabiam em seu horário.
Ah... Foram tantos os fios negros que havia deixado para trás! Amigos, amores, sonhos... E para quê?! Para vinte e duas horas pegar o seu cartão e bater o ponto? Manter uma casa, somente para dormir, porque pela manhã teria de acordar cedo?
Naquele desesperador momento em que finalmente encontrou consigo mesmo, entendeu o verdadeiro valor da cor de seus cabelos, seu valor inefável perante todo o dinheiro que conseguira aos findares de tantas vinte e duas horas.
Quando enfim chegou a sua casa, viu que estava completamente desarrumada. Tudo estava uma bagunça! Havia livros que nunca tivera tempo de ler, garrafas pela metade que nunca pudera terminar, e tantas outras coisas que nunca conseguira concluir, afinal, em todas as manhãs, teria de acordar cedo.
Foi a gota d’água!
Arrumou tempo, arrumou a casa, terminou todas as garrafas que estavam pela metade, leu os três últimos sonetos, deu alguns laços e dormiu...
Mas já não mais teria de acordar cedo pelas manhãs.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Papéis avulsos.

                Era como uma imensa mansão, onde facilmente se poderia caber milhares de mundos, ou quem sabe, um universo inteiro. No entanto, lá estava eu, sozinho no mais deslumbrante salão em companhia ao absoluto nada  ― e isso em apavorava imensuravelmente. Como tal maldição poderia ser recaída sobre mim? Logo eu, que presenciei glamorosas festas naquele salão, que vi inúmeras damas e seus cavalheiros dançarem ao canto entoado pelas Musas, beijos sendo desfrutados por seus amentes, histórias e vidas entrelaçadas no tear do destino; para agora, ser me dado o castigo da mais absoluta reclusão?! Era a pior de todas as desgraças. Poderia ― preferiria ― mil vezes cair moribundo de tuberculose com os jorros de sangue me escapando dolorosamente pelos lábios, por milhares e outras milhares de anos; ansiava que houvessem me estripado cada centímetro do meu corpo frágil, arrancando-me todos os órgãos um por um ou me posto em chamas como as antigas bruxas, mas nunca, nunca estar sozinho naquela imensa mansão! Era assustador demais.
                Num ímpeto de pavor e desespero, corri para todos os lugares que me permitia ir. Entrei em cada porta que me cabia, vasculhei minunciosamente salas encontradas no meio do caminho, cheguei até mesmo a clamar por todos os sagrados deuses ― e profanos demônios ― para que os trouxessem de volta àquela mansão e a solidão não fosse minha eterna companheira. Queria puder vê-los novamente, senti-los, ouvi-los, pois sem eles, eu era como um cavalheiro que perdera sua honra, ou um super-herói sem seus poderes. Sim, precisava de cada um deles para ser quem era, ou quem desejava ser.

No entanto, depois de horas naquela busca desgraçada, finalmente cedi, uma vez que todos os meus esforços pareciam vãos. Caí no mármore frio, completamente tomado pelas sombras da solidão ― Eis o meu próprio inferno, oh, Dante! ―, e por mais que me doesse o espírito, eu tinha que admitir: não mais os encontraria lá, na imensa mansão dentro de mim, e ficaria sozinho para sempre.  E por estar assim, todas as folhas à minha frente ficaram avulsas, sem única gota de tinta para nos dar uma vida.

sábado, 10 de maio de 2014

O Acontecimento de Paris

                O casal fitava a maravilhosa vista da cidade luz enquanto se enamoravam na belíssima Torre Eiffel, algo que era ― sem sombra de dúvidas ― tão extraordinário quanto distinto.
                ― Não é lindo, amor? ― dizia Lucas a sua doce amada, beijando-lhe as faces e o pescoço – Paris... Ah Paris! Sabia que ela fica ainda mais linda com você aqui.
                Rebeca pareceu não gostar, mesmo com todo clima romântico a sua volta, conseguiu remexer os lábios e franzir o cenho em desacordo com o que seu namorado acabara de falar.
                ― O que foi? ― Perguntou ele, preocupado.
                ― Nada, amor, nada não.
                ― Rebeca! Fala sério, o que foi dessa vez? Pode falar!
                Rebeca virou-se e deu uma grande olhada
em toda cidade luz. Há quem diga que seu olhar era entediado, seco e extremamente insensível a toda aquela beleza. Por fim, virou-se para Lucas com o mesmo ar aborrecido.
                ― Você mal está prestando atenção em mim, Lucas, e cá entre nós, meu amor, Paris sempre será a mesma! Quer eu esteja aqui ou em Roma! ― disse ela em um tom nada doce ― Então, não me diga isso, por favor! Além do mais, Paris nem é tão linda assim, é só uma cidade boba.
                O pobre rapaz parou sem acreditar com que acabara de ouvir. Ele, que há meses trabalhava dobrado para conseguir mais dinheiro, perdia noites de sono somente para planejar a viagem perfeita, o momento perfeito com sua amada amada,  viu suas fantasias serem jogadas fora, sem o merecimento que deveria receber. Afinal, era ou não um grande presente?  Mas tudo bem, Lucas ainda fazia parte da escassa safra de homens românticos, gentlemens, dos quais que não importava a situação, sempre conseguiam manter o perfume de Eros no ar, então, resolveria esse contra tempo, só precisava respirar fundo antes de prosseguir mais calmamente.
                 ―Bom, excusez-moi mon amour ... Prometo que escolheremos outro destino da próxima vez.
                ― Da próxima vez, não é? ― Retrucou Rebeca.
                ― Claro! O que acha do... Caribe!
                ― Quente demais.
                ― Canadá?
                ― Frio demais.
                ― China?!
                ―Chinês demais.
                Lucas parou novamente, dessa vez, não houve código cavalheiresco que o impedisse de desejar empurrar sua amada torre a baixo.    
                ― New York?!
                - Aí amor, muita gente.
                O folego fugiu de seu peito, já não sabia mais o que fazer para animá-la ou para provar seu amor. De repente, lembrou-se do motivo de estarem ali, e como última arma, estalou os dedos. Violinistas apareceram do nada, como se houvessem ali brotado de alguma flor invisível! Ah sim, e que violinistas!
                A melodia então começou a soar inundando o ambiente,  Lucas aproveitando o espanto de sua bela amada, ajoelhou-se diante de seus pés e de dentro do bolso, retirou uma caixinha de veludo vermelha. Ah... Era um pedido de casamento! Não, não, mais do que isso! Era uma afirmação de seu incomensurável amor por aquela mulher.
                - Aí Lucas... – disse ela olhando toda a cena inteiramente estupefata – Que coisa mais...
                Tudo aconteceu em um único segundo. A respiração do rapaz ficou presa em algum lugar desconhecido, na mesma hora que viu o espanto de Rebeca, uma centelha de esperança brotou em seu peito. Não havia como ela não gostar – estava seguro disso –, não havia como! Tudo era perfeito! A cidade mais romântica do mundo, os violinos – órgão favorito de sua amada – tecendo volúpias melodias, ele, seu eterno namorado, ajoelhado na frente de todos, somente provar o quanto a amava! Tudo estava mais que perfeito! Então não, não havia nenhuma ínfima chance dela discordar agora... Certo? Errado. Pobre rapaz, ninguém o avisou sabia que a certeza é algo inteiramente variável e extremamente dependente de cada pessoa. Podia ele ter suas certezas inabaláveis, que para Rebeca, não passariam de infames caprichos ― Eis a tragédia de amantes dissonantes.
 ―Clichê ― Completou Rebeca totalmente desdenhosa.
                Foi o tiro certeiro no amante que desabou, deixando a caixinha cair na escuridão daquela cidade que só deveria existir luz. Os violinistas pararam de tocar, o silêncio constrangedor tomou de conta do ambiente. Todos ao redor os olhavam ― e se entreolhavam ― de forma completamente incrédula, e em certo ponto, até ofendidas. Recusar um pedido romântico na cidade mais romântica do mundo era um terrível sacrilégio! Se Lucas houvesse empurrado Rebeca da torre, teria recebido muito mais aprovações da sociedade parisiense do que aquilo ― e devo acrescentar que não precisaria passar por aquele embaraçoso episódio.  
                Rebeca pareceu ter percebido o ar abatido de seu namorado e começou a se aproximar tão delicadamente, que por um momento, o rapaz achou que ela fosse se desculpar com ocorrido. No entanto, ao invés de escolher palavras de redenção, optou por algo:
                ― Ah, vai ficar calado agora, é isso, só para estragar a nossa noite?! Não sei como ainda namoro um garoto tão birrento como você!
                Não deu outra. No dia seguinte, todos os jornais falavam sobre o jovem que havia pulado da Torre Eiffel na noite anterior.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Antes de me casar, sempre imaginei como seria acordar todos os dias ao lado de minha amada. Quando enfim nos casamos, nunca mais acordei sem que minha esposa estivesse ao meu lado - mesmo que hoje, já faça anos que ela morrera.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Encantos



                Da primeira vez a viu como uma belíssima princesa. A pele delicadíssima cor de marfim, porte austero, lindas madeixas que se escorriam feito fios de ouro por seu corpo de curvas formosas, com grandes olhos amendoados, doces e ciganos. Sua fala?! Oh, sim, magnífica! Tecia belas poesias em tom meigo, mesmo se limitando ao reles falar. Era, deveras, a mais linda princesa dentre a história, e era, principalmente, a mulher de sua vida.
                Da segunda vez, ainda a via bela. A mesma pele delicada de marfim, olhos amendoados ― mas, só doces ―, de prosa realista e aprazível. Da terceira, via a mulher branca, olhos marrons, como os seus e de todas as suas famílias ― Marrom é uma cor comum! ―, e então, oh, que desastre! Cometia homéricos erros de gramática, mesmo havendo um vocabulário raso. Daí desandou! Da quarta a viu manca; da quinta, enrouquecida e zarolha; da sexta gaga. Era demais para ele! Sempre que a via novamente, achava um defeito que ali não residia em vezes atrás, e assim foi vendo e revendo, até que a tal princesa acabou por ser guilhotinada de sua vida.
              Sem mulheres ficou até que, em uma nova primeira vez, em um baile qualquer da vida, viu uma helenística rainha, de exímia sapiência, pele amorenada feito chocolate, com cabelos encaracolados e suntuosos. Seus olhos eram, deveras, as mais belas janelas para o paraíso. Perfumada, seu corpo exalava um perfume suave, evolvente, seu hálito doce lembrava a um campo de hortelãs. Ele sabia que todas as deusas morreriam e matariam para ter essa sublíme beleza... Sim, aquela mulher era, sem sobra de dúvidas, a mais linda rainha dentre a história e suas vidas ― estas e as passadas, se acreditares.  Veio, porém, a segunda vez parar reparar-lhe um novo defeito...

                Mas de quem seria a culpa, daqueles formosos corpos ou dos olhos que insistiam em se enfeitiçar?

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ode a serva de Ártemis

   - Você não deveria estar aqui!
               A voz cortou o silêncio soturno em que a floresta se encontrava. Olhei para os lados procurando saber de onde havia vindo, mas nada conseguia ver. Era noite, e a luz prateada da Lua, parecia ser a única presente ali, banhando as árvores e a clareira em minha volta, tão majestosamente quanto perigosamente.
No entanto, nada mais parecia despertar receio o suficiente para me impedir.
               - Por que não? – berrei alto para que minha voz pudesse alcança-la.
               - Eu já lhe disse... – Ela tornou a responder por entre as sombras – Além do mais, minha senhora pode não gostar.
               - Pareço me importar?!
               -Não! Você parece ser um idiota teimoso que por mais que o rejeite... – Enquanto falava, a imagem de uma garota ia se formando lentamente na escuridão, sendo revelada pela luz pálida do luar - Sempre volta a me procurar.
               Meu coração pareceu rodopiar dentro do meu peito.  Ela permanecia parada, carregando nos ombros praticamente desnudos, um arco-e-flecha. A luz cálida da lua continuava a banhar seu corpo, fazendo seus cabelos louros brilharem de uma forma prateada. Ah, como eu inveja a grande majestosa da noite por poder beijar sua pele daquela forma! Enquanto a mim cabia-me unicamente a distância e o desejo...
               Eu já havia visto de tudo neste mundo, deusas e deuses, sátiros e dríades, no entanto, não existia nada que se comparasse àquela beleza que parecia ser capaz de me enfeitiçar, toda vez que meus olhos a encontrava.
               - Idiota e teimoso... – falei abrindo um sorriso acanhado –Bom,  esse sou eu!
               Por um segundo, seus lábios se abriram, mostrando aquele lindo sorriso. Contudo, não demorou muito, e sua feição tornou a ficar severa, como era de costume. E por alguns segundos, ficamos assim, apenas olhando um para o outro, com um grandíssimo espaço entre nós dois.
Já estava disposto a me aventurar para mais perto, quando de repente, um pequeno e delgado cervo se aproximou, e pairou aos pés dela.
               - Parece que você nunca está sozinha...
               - E por que você quer que eu fique sozinha?
               - Por que você não descobre? – retorqui num tom malicioso.
Ela tornou a abrir aquele sorriso singelo e mordeu os lábios balançando a cabeça. Eu gostava da ideia que podia diverti-la, mesmo que um pouco.
               - Você não deveria estar aqui, filho de Apolo.
               - Eu sei que não –  respondi, aproximando-me dela – Mas não resisti. Sou impulsivo demais.
               - É perigoso...
               - Alguns perigos, vale a pena correr.
               - É muito corajoso para um rapaz que trás flores presas ao cinto.
               - O quê?
               Sem dizer nada, ela apontou para um ramo de flores azuis que estavam presas em meu cinto. Agora, ela parecia não parecia se importar em demonstrar que segurava o riso, o que, em sua tez pálida e delicada, fez com que suas bochechas avermelhassem levemente.
               - Ah isto... É um presente de meu pai.
               - Hum ... – Ela acariciava o cervo aos seus pés sem tirar os olhos verdes de mim – São Jacintos, não são? Por que logo ele te daria esta flor?
               - Para que eu possa me lembrar da maldição que nosso sangue carrega – respondi, pegando o ramo de Jacintos, deixando-o bem na palma de minha mão.
               - E qual é esta maldição?
               - Viver sem amor.  Para nós, não há uma única história que de amor que não acabe mal. Apolo e Eros tem uma richa atinga e perigosa. E logo meu pai, que é conhecido por sua beleza, luz e poesia, não pode se quer amar um mortal sem que as Moiras o tirem de suas mãos. Eis a nossa sina amaldiçoada. Eis o súplicio de Apolo que nós, sangue de seu sangue, temos que carregar.
               Ela se calou, retirou os olhos de mim, e se limitou somente a acariciar o cervo que estava jogado aos seus pés.
               - Não parece ser uma boa vida – continuou, ainda sem me olhar.
               - Não é, embora você possa me salvar – falei, dando os passos findouros de nossa distância.
        Eu sabia muito bem que, em qualquer momento, poderia receber uma aljava inteira de flechas por chegar tão perto daquela nobre moça, contudo, por que me importaria? Sentir sua pele, seu cheiro de jasmin, não me fazia temer o Hades… Não, não, muito pelo contrário. Sua divina imagem, bela feito a própria Afrodite, fazia-me temer a vida, principalmente uma que esgotaria longe dela...
               - Mas você nem me conhece... – ela sussurrou, pois já estávamos tão próximos agora, que qualquer arfar singelo era o suficiente para me alcançar.
               - É justamente por isto que estou aqui... Vem comigo, dá-me uma chance de te conhecer melhor, serva de Ártemis.
               Ela balançou a cabeça e deixou seus cabelos loiros caírem por cima de seu rosto, formando, novamente, uma barreira entre nós dois.
               Lentamente levei minha mão ao seu rosto, acariciando-o de leve. Sua pele era suave e delicada,o que atiçava ainda mais o meu desejo de continuar tocando-o. Sua respiração era calma, e seu hálito era como ambrósia… Sim, eu podia ouvir sua respiração imperando sobre o silêncio constrangedor qual se formara.
               Naquele momento, o mundo ficava turvo em nossa volta. Pouco valia se estávamos sozinhos ou defronte para os deuses, a minha vontade era de pegá-la nos braços, suspendê-la e lhe dar um beijo ali mesmo. Se Ártemis descarregasse a sua fúria em mim, eu desejaria que fosse ao seu lado.
               - Não... – Ela sussurrou, afastando-se de mim abruptamente, como se acordasse de um horrível devaneio  – Desculpe-me.
               Fechei meus olhos e mordi os lábios, sentindo meu coração que antes martelava freneticamente em peito, agora tornar-se chumbo, pesado suficiente para qualquer homem ser incapaz de carregar.
               - Por favor, me desculpe.
               - Não – falei ainda de olhos fechados, esforçando para dar um sorriso – Tudo bem. Não precisa se desculpar.
               Ela voltou a se calar e acariciar o cervo e nada mais foi dito durante algum tempo. Quanto tempo? Quem vai saber? O fato é que por fim, ele terminou e fora ela a responsável de quebrar nossa abstinência de palavras.
               - Está na hora – disse aproximando-se de mim – Você deve ir.
               - Por hoje – sussurrei dando um pequeno beijo em seu rosto – Mas amanhã será um novo dia.
               Ela deixou escapulir um sorriso, e com a ponta dos dedos, ajeitou seu cabelo.
               - Você é realmente teimoso, não é?
               - Veremos isso amanhã.
               Assim, dei de ombros e tornei a voltar para a escuridão.