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sexta-feira, 4 de abril de 2014

Encantos



                Da primeira vez a viu como uma belíssima princesa. A pele delicadíssima cor de marfim, porte austero, lindas madeixas que se escorriam feito fios de ouro por seu corpo de curvas formosas, com grandes olhos amendoados, doces e ciganos. Sua fala?! Oh, sim, magnífica! Tecia belas poesias em tom meigo, mesmo se limitando ao reles falar. Era, deveras, a mais linda princesa dentre a história, e era, principalmente, a mulher de sua vida.
                Da segunda vez, ainda a via bela. A mesma pele delicada de marfim, olhos amendoados ― mas, só doces ―, de prosa realista e aprazível. Da terceira, via a mulher branca, olhos marrons, como os seus e de todas as suas famílias ― Marrom é uma cor comum! ―, e então, oh, que desastre! Cometia homéricos erros de gramática, mesmo havendo um vocabulário raso. Daí desandou! Da quarta a viu manca; da quinta, enrouquecida e zarolha; da sexta gaga. Era demais para ele! Sempre que a via novamente, achava um defeito que ali não residia em vezes atrás, e assim foi vendo e revendo, até que a tal princesa acabou por ser guilhotinada de sua vida.
              Sem mulheres ficou até que, em uma nova primeira vez, em um baile qualquer da vida, viu uma helenística rainha, de exímia sapiência, pele amorenada feito chocolate, com cabelos encaracolados e suntuosos. Seus olhos eram, deveras, as mais belas janelas para o paraíso. Perfumada, seu corpo exalava um perfume suave, evolvente, seu hálito doce lembrava a um campo de hortelãs. Ele sabia que todas as deusas morreriam e matariam para ter essa sublíme beleza... Sim, aquela mulher era, sem sobra de dúvidas, a mais linda rainha dentre a história e suas vidas ― estas e as passadas, se acreditares.  Veio, porém, a segunda vez parar reparar-lhe um novo defeito...

                Mas de quem seria a culpa, daqueles formosos corpos ou dos olhos que insistiam em se enfeitiçar?