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terça-feira, 26 de julho de 2022

Figurante

 O cenário estava abarrotado. Em meio aos dramas e prazeres daquelas duas narrativas, o movimento era geral, o contra regra nunca pareceu tão ocupado, empenhado naquela entrada e saída de personagens. As cenas memoráveis eram sendo construídas.

Animado, o ator enfentiou-se em seu camarim. Cortara cabelo, fizera a barba, perfumara-se com a su melhor fragrância. Passara noites em claro fantasiando o seu momento da cena, a sua entrada na narrativa.

Toc-toc - que mais pareceu um alarme de ameaça nuclear. Era chegado o momento.

No envelope o tão esperado roteiro.

Ele o pegou com mãos e olhos ávidos, tragou as primeiras linhas em busca do seu nome. As linhas tornaram-se parágrafos, parágrafos viraram páginas, que logo vieram a ser capítulos e mais capítulos. Cenas após cena, seu personagem era apenas mencionado, de passagem. Uma aparição ali, aqui.

Foi só então, que entendeu: ele era um figurante. 

Desapego

 Eu cansei de ser apegado a memórias

Aos sentimentos que me assolam

As luxúrias que vivi

Aos anseios que pensei vir


Cansei de pedir carinho

Fui-me ao ar marinho

Sendo minha vela

E meu cais


Desapeguei do nome pra ser quem sou

Desapeguei do futuro para estar presente

Eu quero é andar rente

De mãos dadas comigo mesmo

E nada mais