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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Obediência

Um dia eu estava meio cabisbaixo sabe? Eu achava que não servia para muita coisa, que não era um bom filho, sempre desobedecendo demais a minha mãe, e isso começava a me chatear. Então eu resolvi obedecê-la em tudo, como uma forma de desculpa, e foi aí onde tudo começou...
                O dia amanheceu um pouco antes que eu acordasse – lá pelas doze horas – e logo fui me desculpar com ela.
                -Mamãe – comecei ao me aproximar –me desculpe por desobedece-la, assim tipo, quase sempre...
                - Sempre – ela me corrigiu.
                -Está bem, está bem, sempre... – hesitei com a ideia que brotava em minha mente – Por isso, vou obedecê-la  hoje o dia inteiro! Sem contestar!
                - Ah vai?! – ela me deu um sorriso diabólico que só faltava aparecer os chifres, antes de voltar a falar – Pois que bom meu filho, eu estava precisando mesmo de ajuda. Que tal ir comprar umas verduras para a mamãe?
                E assim eu fiz, comprei as verduras e retornei para casa, e ela quis me testar mais uma centena de vezes, e eu a obedeci... Estava indo tudo tão bem sabe? Mas eu prometi que a obedeceria, por isso não tenho culpa se ela deixou de levar a sério, então quando voltei com produtos de limpeza, me deparei com uma cena curiosa.
                - Ah!!! – Mamãe estava aos berros, pulando de frente ao aparelho de som – Eu não acredito! Meu Deus que alegria! Aí alguém me belisca, por favor!
                Ela mandou, eu obedeci.
Mamãe deu um berro ainda maior do que antes – nada animado ou feliz se você quer saber – e então me encarou com uma carranca no lugar da cara... Sabe os chifres que faltaram naquela hora? Bom, eles apareceram nessa hora.
- Você ficou maluco de vez foi?!  Se atreva a besta de fazer de novo para você ver!
Eu não queria ter de fazer aquilo – mesmo – mas promessa é divida e com mãe então... Porém ela foi mais esperta, e reparou no que tinha me dito, parando-me antes que eu a beliscasse.
- Pare já aí! Espertinho você né... Eu sei o que você está tentando fazer!
- Obedecer à senhora mamãe.
- Obedecer? Já que é assim, vá obedecer a sua irmã agora!
Essa aí é que eu não tive descanso mesmo – pelo menos os beliscões eu dava com mais gosto e força -, mas o problema apareceu quando ela se irritou de vez.
- Aí garoto que inferno! – ralhou ela aos gritos – Vai atentar o cão com reza e me deixa em paz!
            - Bom, então foi por isso que cheguei até aqui, atentando-lhe com pai nossos... - disse envergonhado procurando me desculpar - Não é nada pessoal sabe, é que eu prometi que ia obedecer não é, aí já viu. Mas não se preocupe, prometo não prometer nada tão cedo!
                Agora só sei que da próxima vez, fico chateado mesmo.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

E Clarice - como tantas outras vezes - estava certa quando escrevera aquilo. Eu só não sabia que isso esperaria por mim.

domingo, 20 de novembro de 2011

Tempo ao seu tempo.


                 “Tudo em seu tempo ao seu tempo.
                  É uma bela frase, deveras, pois o tempo corre sozinho e se realiza com a mesma solidão, sem se quer nos perguntar a preferência.
                 “Devo correr mais devagar agora?” Deveria ele nos questionar quando algo de maravilhoso se desenrolasse, ou quando estivéssemos naquela ocasião chata – onde só cinco provas de físicas quânticas juntamente com oito de físico-químicas se comparariam – ele nos diria : aguente e fique firme, vou bem mais veloz agora.
                Não, isto é algo o qual não acontece. Ele vai sozinho passar como bem entende, e no fim quando passa, resta a nós – reles mortais – a guardar o que passou na cabeça, pois é inteiramente ilógico comemorar no presente, algo que acontecera no passado, como se estivesse acabado de acontecer.
                Quer uma prova?  Quantas pessoas você vê por aí comemorando o gol de vitória do Brasil da copa de 58, como se houvesse acabado de ouvir pelo rádio? Isso mesmo meu amigo, nenhuma. Isso é porque já aconteceu, o que cabiam a todos aproveitar e comemorar já se lotou, passou tão rapidamente que só o tempo soube ao certo quantos segundos duraram aqueles quinze minutos de fama. E agora nos resta apenas a comentar sobre o ocorrido.
                - Então, sabe aquele título de 58? Espetacular não foi?
                - É, até que foi uma peladinha legal. Dava pra ter sido melhor.
                Creio que o bicho pega mesmo quando algo acontece e nós sentimos aquele gosto que não fizemos de tudo para melhorar, deixamos que o nervosismo, a vergonha, ou falsos moralismos, intervissem nas obras que nós, pintores do próprio destino, deveríamos ter dado aquela pincelada a mais, ter adicionado uma cor ou outra sem medo da estética, enfeitado, realizado um sonho.
                O tempo passa e as coisas mudam. Hoje o azul límpido pode se tornar mais apagado amanhã, e depois de amanhã você pode confundir com um cinza clarinho, ficando apenas na memória que ali, onde se apagara, já fora algo quase que fluorescente. Olhe bem, não estou inteiramente reclamando disso, pois conheço muito bem a necessidade do tempo passar, do equilíbrio do dia e da noite, da primavera e inverno, ou sendo mais dramático, das férias e das aulas. Apenas fico descontente da forma que ele passa, já que muitas vezes só se passa uma vez.
                Mas no fim – onde é o fim que sempre prevalece – entendendo que não há como mudar os fatos, o tempo ou qualquer outra coisa, continuo a apenas lembrar de fatos, sonhos, bem como algo do título de 58.
                - E que espetacular não foi?

O suposto acontecimento.

                Havia um circulo de crianças, e todas conversavam animadamente.
                - Então eu abracei o dragão assim! – dizia um deles levantando-se todo espevitado – E  quando vi que não havia mais jeito, com o coração inteiramente descompassado, eu fugi!
                - Nossa – alarmou-se outro – que coisa!
                - Corta essa Nico, dragões nem existem.
                - E como explica o que aconteceu? – disse Nico pretencioso e voltando a se sentar ao lado dos amigos – Tudo o que aconteceu é verdade meu amigo, e está na minha memória. Aconteceu mesmo.
                - Não deve ter acontecido nada, você está mentindo. Seu mentiroso!
                - Aí deixa ele João, continua vai.
                O garoto voltou então a trovar os acontecimentos, ora ou outra ainda pulava animado, dramatizava o que podia, até olhava para o chão e fazia cara de choro quando contava-lhe algo triste, procurando convencer a  todos  - até o Joãozinho, que era o mais cético – que tudo o qual acontecera era a mais pura verdade.
                - E como você sabia que era um dragão Niquinho?
                - Ora como eu sabia Margarida, uma lagartixa crescida e que não havia de ser, muito menos um moinho de vento, porque não sou tão pirado assim.  Era um dragão mesmo, e ele era enorme, de escama negra feita à noite mais sombria e soturna que já se ouviu falar, e tinha os olhos tão.. Tão, devoradores, que eu achei que me hipnotizaria apenas com um olhar. Ele era belo, ah se era, um baita de dragão! Mas eu fui mais forte, e resisti aquela hipnose. Certo que quase fraquejei, mas lutei contra aquilo que eu sabia muito bem que não havia chances de vencer. E foi bem assim que aconteceu.
                -Nossa, que incrível!
                - É, eu sei.
                Nico se recostou na árvore e deu um suspiro de alívio – que foi acompanhado por muito de seus amigos também – quando terminou de contar sua aventura, tão agoniante e perigosa. Nessa mesma hora Marcos, um de seus apenas amiguinhos se juntou a arruaça excitada que as crianças faziam.
                - Ainda não acredito – continuou João – Se houvesse pelo menos uma prova, uma testemunha...
                - E tem! O Marquinhos estava lá comigo, ele é testemunha!
                - Sou o que?
                - Testemunha! – disse Margarida maravilhada – É verdade que vocês enfrentaram algo parecido com um dragão, de escamas pretas e olhos penetrantes?
                - Como é que é?
                - Vocês não...
                - Não, claro que não. Eu nem sei do que ele está falando.
                - Como assim, você sabe muito bem o que aconteceu, só tem medo, é isso.
                - Claro que não, se tivesse acontecido...
                -Mas aconteceu! O dragão, ele...
                - Já tá na hora de crescer, não acha não? E parar de ficar inventando coisas onde não há! – Disse Marcos com um tom desdenhoso mas impossivelmente também manso e aveludado – Não aconteceu e ponto.
                João deu uma gargalhada que foi acompanhado pelos outros. Marquinhos, após dizer aquelas duras palavras para o seu amigo, levantou-se e saiu aborrecido da roda de amigos, que logo em seguida, fizeram o mesmo e o acompanhara.
                Mas Margaridazinha continuou ao lado de Nico, nem se quer riu do comentário, pelo o contrario, ficara com as feições tão emburrada, que mais parecia uma carranca a qual sua mãe esboçava quando ela quebrava algo de importante na cozinha. E isso despertara em Nico curiosidade. Por que ela não havia rido de sua cara, como os outros?
                - Porque eu sei que você não é do tipo de confundir lagartixas com dragões, ou moinhos de ventos. – respondeu a menina pomposamente quando seu amigo lhe fizera a pergunta – e se disse que era um dragão, há de ser um dragão! Um baita de dragão.
                Nico voltou a se calar, ficando rubro com o constrangimento lhe tingindo as faces, mas então, lembrou-se novamente do que havia acontecido e franziu o seu cenho aborrecidamente.
                - Mas então por que diabos ele disse aquilo? Que não havia acontecido nada, que não fazia ideia do que eu estava falando?
                Margaridazinha hesitou, procurando na cachola de menina, alguma coisa que pudesse lhe explicar, foi então que em meio de sua mente esperta, lhe veio tal resposta:
                - Olha Niquinho, existem ocasiões que, mesmo sendo passada com alguém de seu lado, mesmo sendo ela uma grande personagem de tal aventura, você vive isso sozinho, e não há como mudar ou fazê-la viver, se ela não quiser que isso aconteça... É como chutar a bola nos pés de alguém que não quer jogar futebol. Ela simplesmente não vai chutar de volta, mesmo que tenha a bola ao seus pés. Entende?
                Niquinho calou-se por um momento, mas logo depois assentiu e começando entender finalmente a razão do problema: unilateralidade de histórias, que assombrava até os adultos.
               No fim, já cansado com tudo, levantou-se também e logo após ajudar Margarida a fazer o mesmo, foi comer uma torta de amoras no jantar, pois era só isso que lhe cabia fazer.


domingo, 6 de novembro de 2011

Uma mensagem ao vento para ser entregue.

A embarcação finalmente se estabilizou e o capitão pode enfim sair de sua cabine, onde há muito que se refugiara, impedindo que qualquer coisa que não fosse o planos de suas rotas chegassem até ele.
                O capitão andou lentamente até onde podia ir perto da polpa, enquanto dava seus pequenos passos, pensava no que dizer e no que de fato estava prestes a fazer.
                Então sentou-se em um barril qualquer e se calou por alguns segundos, fitando o horizonte antes de começar o que viera ali fazer, o qual já deveria ter feito há tanto tempo.
                - Minha cara amiga – disse ele , como se houvesse uma outra pessoa em seu lado – Perdoe-me pela demora em lhe mandar notícias, apesar da tardança que suas palavras chegaste a mim, conheceste bem o meu problema de falta de fala as coisas que você me manda. Também sei que já é deveras tarde, contudo, não o suficiente, pois sei que me escutará, sempre, assim como, não existe hora – creio eu – de se dizer que sinto sua falta...
                Um relés marujo de repente se deu conta de que seu capitão fazia, e o julgando feito um desvairado – pois é essa a classificação mais fácil de se por, naqueles que não se entendem – o observou tendo aquela conversa.
                - Novamente, eu compreendo, de uma certa forma, como ficaste a minha ausência. Disseste também que isto fora no fim, algo que lhe proveu um bom fruto, contudo, tal coisa teria brotado de um sentimento de aflição, e é por ele que outra vez, peço mil perdões. Sim, como aquele nosso compositor favorito... Ah, temo que minha viagem dure mais do que as outras, pois esta é bem distinta, então, infelizmente tenho que lhe dar este aviso...
                Desconfiado e temeroso que algum dos outros homens visse seu capitão em tamanha loucura, correu para ir ter com ele.
                - Meu caro capitão! – disse ao se aproximar – Estás louco?
                O Capitão parou, sem entender o que seu marujo falava, e compreendendo o seu desentendimento, o marujo foi explicar o motivo de sua intervenção.
                - Estás falando sozinho capitão, será que ficaste louco com todas as tribulações dessa jornada perdida?
                - Quem disse que estou falando sozinho marujo?
                - Mas o senhor...
                - Não estava não – o capitão o interrompeu – As palavras são algo interessante não acha? Elas ficam ali, rodando, viajando, tocando corações distantes de corpos também distantes. Vai sozinha semear um sentimento, ao mesmo tempo que com a mesma solidão, pode acabar por em esfacela-los. Então,novamente o digo, não estou falando sozinho.
                - Mas não havia ninguém aqui!
                - Não ouviste o que acabei de dizer? É desnecessário que a quem você direciona as palavras, como eu estava fazendo, esteja do seu lado, principalmente se tratando dela. Nosso canal favorito sempre foi esse, as palavras ao léu, as quais sempre chegam até nós, trazidas pelo vento ou algo bem semelhante.
                O marujo então se calou, parecendo compreender, mas somente parecendo, pois não existia alguém que pudesse compreender de verdade o que o capitão acabara de dizer, se não o mesmo e a quem estava sendo direcionada a mensagem. Levantou-se e  deixou novamente o rapaz a falar para o vento.
                E assim a mensagem, tão singela, mas tão importante era entregue, para aqueles que sabiam de fato o quanto era preciso sempre navegar.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A ultima dança.


Os dois se encontraram sob a lua cheia. Ela estava linda como sempre, e ele percebeu isso, enquanto andavam um para o outro, ele repensou se estava fazendo a coisa certa, sabia que não, não estava certo, nem em mil anos, porém, era o que tinha de fazer.
                - Você está linda – disse o rapaz – como sempre, você está linda.
                - Obrigada... Mas eu já sei porque estamos aqui, na escuridão, e não é para me elogiar.
                O rapaz se aproximou, ele queria beijá-la, queria sentir seus lábios, seu cheiro, mas não fez nada mais do que se aproximar, e mesmo que seu coração continuasse batendo forte - como estava - ele nunca batera tão fraco.
                - Eu sabia que você entenderia quando eu lhe chamasse aqui, mas antes, poderíamos ter uma ultima dança? Nossa ultima dança?
                A moça hesitou na hora de responder. Será que eles poderiam ter uma ultima dança? Ela estava com raiva, sua vontade era de ir embora, já que ele tinha desistido de ficar perto um do outro, contudo, não fez, e aceitou a dança.
                Os dois começaram a dançar sob a lua, mesmo sem haver música alguma. Eles continuaram, imersos em seus olhares, seus hálitos se encontravam no ar, estavam tomados pelas lembranças de todas as noites, de suas conversas, de seus beijos... E com o maior receio do mundo, eles teriam que adicionar essa noite, em meio a todas doces passadas.
                Mas a dança não poderia continuar, já tinham chegado o máximo onde seus passos poderiam levá-los. O fraco rapaz continuou parado, fitando aqueles lindos olhos, procurando forças para dizer o que queria, mas sabia que estava fazendo da forma errada, olhá-la, só dava motivos para que ele ficasse, e não partisse.
                Então ele se aproximou ainda mais, perto o suficiente para que sua boca pudesse dar um ultimo beijo. Sua mão foi ao rosto da moça, e segurou forte. Com os olhos fechados ele tinha as palavras na boca sozinha.
                - Me perdoe, mas eu tenho que ir. Obrigado pela dança. E...
                Ele parou de falar, esperando que ela soubesse o resto. Soltou o rosto da moça e deu as costas.
                - Você é um mentiroso, se gosta de mim, por que está fazendo isso?
                -É por justamente eu gostar demais de você que preciso fazer isso... Me desculpe.
                E assim, o rapaz saiu sem a companhia de Lua ou Estrela pala a escuridão, desejando que a moça ficasse bem, mais até do que ele mesmo.

 
NOTA: Esse texto é antigo, não assiciem fatos do presente à ele. :D

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

...

                - Desculpe, mas você perderá sua vida.
                Ele pensou novamente nas palavras que seu médico houvera lhe dito enquanto caminhava sozinho pelas ruas, com a respiração tremula e o coração vacilante. Ele iria perder a sua vida, e não havia jeito, seu destino estava escrito em pedras que não poderiam ser alteradas, fadado à objetividade e certeza que tudo possuía.
                Mas como havia chegado até aquele ponto?
                Tentou lembrar-se do primeiro indício da doença em seu organismo. Então lhe veio àquela terceira manhã, quando fora hipnotizado por algo que o pegara de surpresa, e mudara seu destino. Sim, naquele momento, a doença instalara-se em seu corpo, mas sem dar sinal de vida, continuando em silêncio.
                Ela o fez ter sonhos, maldita doença, não bastava apenas matar, tinha de fazê-lo sofrer antes disso. Arrancar-lhe cada fantasia, desejo, devaneio... Tudo que ele havia sonhado para viver, agora escapava de si, feitas folhas caídas e esfacelas de outono, um que não via o sol brincar, e logo, sem sorrisos. Sim, pois a maldita também lhe arrancara os dentes, apenas os de sorrir, porque fazia questão que comesse, e ficasse forte para fazê-lo sucumbir mais lentamente.
                Com o cigarro pesando dez quilos em seu bolso, ele sentou-se ao chão para ponderar sobre a vida, algo que nunca parecera ter tempo, até aquele momento.
Aonde fora parar o sentido de amanhã? Retornou a pensar. Tudo já estava tão premeditado, que não lhe sobrava nada para criatividade. Que sentido havia nisso?
A resposta continuara escondida entre o silêncio.
                Ainda sentado, viu uma menina correr feito uma criança sadia, cair, e berrar desesperadamente, e pela primeira vez sentiu inveja.
Sim, ele sabia que a queda deveria doer, mas ela podia correr, teve a oportunidade de sentir-se livre, a sensação do vento beijando seus lábios e a pele; de cair, sujar o vestido, arranhar os braços para deixar como uma lembrança que caíra de verdade. Por isso a invejou, pois estava viva, enquanto ele morria com uma doença silenciosa.
Comparou então o correr da garota, com o viver dos homens.
Quando nascemos, o colo é nosso único mundo. Não nos dávamos ao luxo de correr, pois somos indefesos demais para aquilo, faltava-nos ousadia; Até que deleitados pelo desejo o qual todos que andavam a nossa volta nos passavam, resolvíamos dar os primeiros passos. Caímos, chorámos, mas aprendíamos que, se quiséssemos andar novamente, cair seria um risco eminente, pois o chão, esse nunca deixaria de estar de braços estendidos para nos receber as faces.
Mas andar era algo belo demais para ficarmos parados, e então, abandonávamos o colo de nossos pais, não que deixassem de ser maravilhosamente acolhedores, tínhamos que procurar os nossos próprios colos, nos braços de pessoas outras, que às vezes, eram de outras pessoas.
E nessa busca, aprendemos a correr, e andar fica chato. Desejamos correr até a esquina, ou até o fim do mundo. Ansiamos correr a todo instante, como se nunca houvéssemos corrido antes, e como se nunca pudéssemos correr novamente. Corríamos com outras pessoas, corríamos com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, corríamos até secretamente, pois o que mais importava era correr.
Logo em seguida, o tempo de correr passa, e nos limitamos novamente a caminhar, as vezes com as pernas rijas, adquiridas com as correrias passadas. Agora, desejávamos apenas caminhar tranquilamente, de mãos dadas de preferencia, pois nós no fundo sabemos que caminhadas até o fim da vida, podem durar muito para uma única pessoa.
Então paramos de andar, e logo deixamos de viver, nos limitando apenas a existir.
                E naquele momento, no fim de sua reflexão – ainda envolto pelos prantos da menina – deu-se conta de uma coisa: Sim, a vida era realmente bela, mas só para aqueles que tinham a oportunidade de viver, e não tão somente existir.
               

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Meu secreto pássaro azul.

                - Cala-te!
                Meu urro nem se quer conseguiu se igualar com aquele que cantarolava alto de fúria por estar cá dentro.
                Eu entendia seu desespero, mas o que podia fazer? Não podia soltá-lo para cantarolar para que todos ouvissem, não podia nem se quer imaginá-lo estragando todo meu trabalho, toda aproximação que custara tempo e penar. Não, ele iria ter de continuar cá dentro, e preso deveras.
                - Não está de noite ainda... – tentei consolá-lo – Por que não esperas um pouco mais?
                Não adiantou, ele – assim como eu – sabia que tardaria para anoitecer, procrastinaria da mesma forma para que todos os olhares dormissem, e para aquela cabeça abrisse; para que aquela vida chegasse. Sim, ele ainda tinha que ficar cá dentro.
                Mas de tanto estar cá dentro, e de querer se rebelar, as grades a qual o mantinha feito um prisioneiro invisível, já começava a se desgastar; rangiam feito dentes de um desesperado, como prantos desvairados e angustiantes de um órfão, pois tamanha era a força dele de querer sair de cá dentro.
                Uma vez também já ameaçara de morrer, e sua existência ficar restrita apenas à versos antigos, aqueles os quais o tempo escreve aos mandos do amor. Mas feito um milagre, e à custa de algo de repente – não mais que de repente –, voltou a cantarolar; de inicio fora um cântico singelo, que nem eu poderia escutar – mesmo que outros digam que nunca deixaram de escuta-lo –, e com o passar do tempo, ficou grave, ganhou ainda mais voracidade e intensidade ao parecer de uma romaria, já que agora, eu tinha espaço para ouvi-lo. Contudo, ele ainda continua cá dentro.
                Vez ou outra me dava ainda mais liberdade de escutar as suas canções jurosas que me cegava. Vê agora o quanto és perigoso? Um único momento de descuido a sós, e toda a prisão a qual o mantivera cárcere por tanto tempo, pereceria, e por minhas mãos.  Tinha medo até de afoga-lo, pois por mais que ansiasse parar de ouvi-lo, isso poderia levar uma fuga imprudente, a qual não poderia acontecer, já que é preciso que ele continue cá dentro.
                E assim, continuo meu cotidiano, ora feliz, ora confuso, mas com a ausência do entendimento de terceiros-primeiros, e sem chorar – pois eu também conseguia –, tendo em mente, juntamente com seu canto quase que ensurdecedor, dois questionamentos a perdurar. Voarás tu, sozinho por esse imenso país? E até quando ficarás preso cá dentro, meu pássaro azul, até quando? 

domingo, 18 de setembro de 2011

Caro leitor.

Caro leitor, o texto abaixo não é aconselhado a você, que se entedia fácil, ou possuí algum tipo de tolerância aos derivados do Edilson - ou seja, açucares, e é diabético. Por isso, pule para o próximo post, ou vá ler algum verso de twitter. Este texto é dedicado a todos aqueles tolos, digo, apaixonados.
           Carpe Diem. ~ Somnium quo leo.

...


                - Que foi que houve?
                Ela me perguntou com a cara um tanto preocupada, os olhos cerrados, o ouvido sobre meu peito, e seus braços em volta do meu corpo. Não importava os problemas que houvesse lá fora, apostava que se o mundo desabasse fora daquelas quatro paredes, nada sentiríamos, pois tudo era tão bom quando estávamos juntos, que não sobrava espaço para o mundo exterior. Mas não estavamos livres dos problemas do nosso mundo.
                Eu afagava seus cabelos sem querer responder o que me afligia, pois a única coisa que precisava naquele momento era ela, em meus braços. Contudo, ela não parou um segundo se quer de me fitar, e pior, agora me fazia um biquinho... Ela sabia que eu não resistia a isto.
                - Não é nada – sussurrei dando um abraço forte.
                - Você sempre diz que não é nada, mas sempre é alguma coisa.
                Um pequeno sorriso se fez no canto dos meus lábios, enquanto ajeitava meu corpo para que o dela ficasse sob o meu. Eu segurava firme em seu rosto, afundava nos castanhos serenos de seus olhos, tudo como eu sempre adorava fazer.
                  - Não é nada, porque tudo que não seja você, é exatamente isso, nada. – Eu sussurrava bem ao seu ouvido – Nada é mais lindo do que o teu rosto, mais doce do que teus olhos, e nem me faz tão bem quanto você aqui comigo... Por isso, não é nada. Nada, nada, nada.
                Ela sorriu, mordiscando aqueles lábios vermelhos, e logo depois, suas mãos se entrelaçaram em meus cabelos, enquanto me beijava de leve. Antes que eu terminasse, ela me puxou pelos cabelos fracamente para trás.
                - Você é esperto – disse ela com um sorriso malicioso nos lábios – mas sua lábia não vai funcionar comigo, está certo?.
                Arfei derrotado, voltando a me deixar do seu lado na cama.
                - E então? – ela voltou a se animar em meu corpo, colocando seu queixo em meu peito – O que será, que será, que anda na sua cabeça, espertão?
                Abri a boca sem ter certeza do que iria falar, porém, antes que eu dissesse alguma coisa, ela me mostrou o punho e disse – quase que aveludadamente, é claro – “a verdade”.
                Dei um grande suspiro, arfando as sobrancelhas enquanto procurava as palavras para me virem a boca.
                - Medo... – meu tom era hesitante, e minha voz era a única coisa que se ouvia, excetp a sua respiração – Medo de que você houvesse sumido de vez... Não sei.
                Parei de falar tirando a mão dos olhos para olhá-la.
                -Mas que... Besteira!
                Ela começou a abafar o riso, sem muito sucesso, me deixando ainda mais envergonhado.
                -Ah é? É besteira não é?
                Fiz menção em me levantar da cama, mas antes que conseguisse, ela subiu em cima de mim, segurando meus pulsos contra a cama.
                - Eu quis dizer que é besteira você achar que eu iria te abandonar... Eu simplesmente não consigo acreditar que era isso que o afligia.
                - Claro que era isso! Olha, eu sei o que é um dia perdido para mim, e imaginar que dias assim se repetissem cada dia mais...
                - Logo você, que já disse que me desejava perder de vista...
                - Claro! – a interrompi – Até o sal é doce quando não se prova do que é verdadeiramente é salgado.
                -Mas você parecia fugir de mim! Sempre andava por aí quando me via!
                - Ora... – hesitei alguns segundos, deixando que um velho verso que havia feito me viesse a boca – Entrego meus passos ao destino, esperando que ele me leve a você.
                Ela hesitou sem jeito, mesmo que o quarto estivesse escuro, podia ver um leve tom rubro em seu lindo rosto.
                - Como sabia que iria me encontrar?
                - Não sabia. – sussurrava baixo – Por isso andava feito um louco, andava mais para ter mais chances.
                - Você é realmente um louco...
                - Sim, e é exatamente por isso que estamos aqui... Eu não me importo de ser um louco desvairado, desde que seja por você.
                Um sorriso acanhado brotou em seu rosto. Lentamente ela desceu sua boca até a minha, e me deu um beijo tão quente que só ela poderia me dar. Quando terminou, levantou-se da cama.
                No quarto quase escuro, ela se esbarrou numa mesinha de cabeceira, derrubando seu óculos.
                -Ei, me promete uma coisa?
                Ela parou apanhando o óculos, e confirmando com a cabeça se dirigiu ao banheiro.
                - Eu sei que irá chegar um dia em que você desejará partir – comecei confuso quanto as palavras que usaria – Mas caso isso aconteça, e se seu coração ainda estiver comigo, promete que me deixa ir atrás de você?
                A luz do banheiro se apagou e ela novamente voltou para sua cama, repuxando as cobertas até o queixo, voltando a me fitar com aqueles olhos que eu tanto amava.
                - Por que acha que eu faria isso? – perguntou entre um bocejo – Ou melhor, por que você iria atrás de mim?
                - Mais uma vez lhe digo, já passei por isto, e é por isso que falo. E faria porque o coração é uma excelente razão para se entrar numa batalha, mesmo que se feri-lo, ele irá doer como se houvesse sido mil derrotas. E mais importante ainda, você, é o melhor de todos os motivos para se lutar...
                Ela permaneceu em silêncio, o mesmo olhar terno e penetrante sobre mim. Mesmo eu estando sem cobertas, me sentia quente só em fitar aqueles olhos, que me proporcionava mais do que calor, o qual também me pesou em pensar que não o teria mais.
                - Eu só não quero te perder – conclui mansamente.
                Com um sorriso de lábios vermelhos, e sem falar nada, ela me envolveu com seus cobertores e se aproximou, dando-me um abraço.
Sua respiração quente em minha cara, era como a brisa do mar de seus olhos, os quais eu me afogava lentamente. Meu coração descompassava a medida que os segundos se arrastavam eu silêncio.
- Eu não vou te abandonar – sussurrou ela aveludadamente, com uma voz doce – Não tão cedo.
- Sabes que a eternidade ainda seria cedo demais não é? E é aí onde me preocupa, muitas vezes aquilo que é eterno, dura apenas um segundo.
- É eu sei... Mas não esse.

Um ao outro.

                - Para onde vamos? – ela perguntou.
                Ele lhe abriu um sorriso sem nada dizer, segurava-a pela mão para que juntos fossem dali.
                Os dois estavam ofegantes, o coração da garota estava mais pesado do que nunca, seus batimentos tão fortes que passou por sua cabeça, que se se descontrolassem um pouco mais, voaria de seu peito. Contudo, tudo ali era bom, e ela não tinha vontade – mesmo que antes nunca houvesse dado liberdade de pensar tal coisa – pará-lo.
                Vez ou outra se olhavam desconfiados, e os sorrisos reapareciam. Eram fugitivos, não só dos outros, mas também deles mesmos, e traziam consigo somente os beijos e outros inteiros afagos – agora de namorados.
                Até que pararam no único canto que os importavam, um ao outro.
                - Tem certeza que ficaremos seguro aqui? – perguntou ela tensa – Longe de tudo?
                - Claro que sim, se ficaste comigo, o único perigo que encontrará será eu mesmo. O que já é muito.
                - É um perigo que estou disposta a correr - disse ela com um sorriso de boca vermelha nos lábios - Mas porque não me disseste nada este tempo todo?
                - Eu lhe disse, disse-lhe tudo, em cada olhar, em cada sorriso, em cada afago, em cada trova... Só você que não entendeu o que estava escrito.
                Ela gargalhou maravilhosamente, com uma voz tão doce e bela, que mais parecia um couro de rouxinóis contentes e livres.
- E por que não viestes à mim antes?
                -Porque estávamos ocupados... – disse ele aveludadamente, entre um beijo e outro – Mas não importa o que aconteceu, ou o que deixou de acontecer. O importante é quem somos agora.
                - E o que somos agora?
                - Um do outro.
                  Então escondidos, finalmente entregaram-se novamente aos beijos, à algo que já havia sido premeditado por todas as estrelas, esbarrões e encontros, só não por eles.


Em um lugar secreto.


                (Em um lugar secreto).
- Por que você está tampando os olhos? Olha para mim.
                -Não.
                - E por que não?
                - Porque não consigo mais te ver, assim perto, assim longe.
                - Mas nós dois sabemos que você me via antes... De onde inventou isso agora?
                - Do desespero, do presente, do que me resta da vida.
                ( Pausa )
                - Olha, hoje é um dia frio e triste, e já como se não bastasse, teus sinais, me confundem da cabeças aos pés...
                - E o que isso tem?
                - Não posso mais me dar o luxo da confusão, por isso tento apagar a sua imagem da cabeça sabe? Mas é difícil.
                - Por que?
                - Porque mesmo de olhos fechados, sua face me aparece, seu sorriso ainda me deixa quente... Minha vida se aconchega na sua.
                - Então abra os olhos e me olhe, larga de covardia.
                (Abrem-se os olhos)
- Você está aí?