- Que foi que houve?
Ela me perguntou com a cara um tanto preocupada, os olhos cerrados, o ouvido sobre meu peito, e seus braços em volta do meu corpo. Não importava os problemas que houvesse lá fora, apostava que se o mundo desabasse fora daquelas quatro paredes, nada sentiríamos, pois tudo era tão bom quando estávamos juntos, que não sobrava espaço para o mundo exterior. Mas não estavamos livres dos problemas do nosso mundo.
Eu afagava seus cabelos sem querer responder o que me afligia, pois a única coisa que precisava naquele momento era ela, em meus braços. Contudo, ela não parou um segundo se quer de me fitar, e pior, agora me fazia um biquinho... Ela sabia que eu não resistia a isto.
- Não é nada – sussurrei dando um abraço forte.
- Você sempre diz que não é nada, mas sempre é alguma coisa.
Um pequeno sorriso se fez no canto dos meus lábios, enquanto ajeitava meu corpo para que o dela ficasse sob o meu. Eu segurava firme em seu rosto, afundava nos castanhos serenos de seus olhos, tudo como eu sempre adorava fazer.
- Não é nada, porque tudo que não seja você, é exatamente isso, nada. – Eu sussurrava bem ao seu ouvido – Nada é mais lindo do que o teu rosto, mais doce do que teus olhos, e nem me faz tão bem quanto você aqui comigo... Por isso, não é nada. Nada, nada, nada.
Ela sorriu, mordiscando aqueles lábios vermelhos, e logo depois, suas mãos se entrelaçaram em meus cabelos, enquanto me beijava de leve. Antes que eu terminasse, ela me puxou pelos cabelos fracamente para trás.
- Você é esperto – disse ela com um sorriso malicioso nos lábios – mas sua lábia não vai funcionar comigo, está certo?.
Arfei derrotado, voltando a me deixar do seu lado na cama.
- E então? – ela voltou a se animar em meu corpo, colocando seu queixo em meu peito – O que será, que será, que anda na sua cabeça, espertão?
Abri a boca sem ter certeza do que iria falar, porém, antes que eu dissesse alguma coisa, ela me mostrou o punho e disse – quase que aveludadamente, é claro – “a verdade”.
Dei um grande suspiro, arfando as sobrancelhas enquanto procurava as palavras para me virem a boca.
- Medo... – meu tom era hesitante, e minha voz era a única coisa que se ouvia, excetp a sua respiração – Medo de que você houvesse sumido de vez... Não sei.
Parei de falar tirando a mão dos olhos para olhá-la.
-Mas que... Besteira!
Ela começou a abafar o riso, sem muito sucesso, me deixando ainda mais envergonhado.
-Ah é? É besteira não é?
Fiz menção em me levantar da cama, mas antes que conseguisse, ela subiu em cima de mim, segurando meus pulsos contra a cama.
- Eu quis dizer que é besteira você achar que eu iria te abandonar... Eu simplesmente não consigo acreditar que era isso que o afligia.
- Claro que era isso! Olha, eu sei o que é um dia perdido para mim, e imaginar que dias assim se repetissem cada dia mais...
- Logo você, que já disse que me desejava perder de vista...
- Claro! – a interrompi – Até o sal é doce quando não se prova do que é verdadeiramente é salgado.
-Mas você parecia fugir de mim! Sempre andava por aí quando me via!
- Ora... – hesitei alguns segundos, deixando que um velho verso que havia feito me viesse a boca – Entrego meus passos ao destino, esperando que ele me leve a você.
Ela hesitou sem jeito, mesmo que o quarto estivesse escuro, podia ver um leve tom rubro em seu lindo rosto.
- Como sabia que iria me encontrar?
- Não sabia. – sussurrava baixo – Por isso andava feito um louco, andava mais para ter mais chances.
- Você é realmente um louco...
- Sim, e é exatamente por isso que estamos aqui... Eu não me importo de ser um louco desvairado, desde que seja por você.
Um sorriso acanhado brotou em seu rosto. Lentamente ela desceu sua boca até a minha, e me deu um beijo tão quente que só ela poderia me dar. Quando terminou, levantou-se da cama.
No quarto quase escuro, ela se esbarrou numa mesinha de cabeceira, derrubando seu óculos.
-Ei, me promete uma coisa?
Ela parou apanhando o óculos, e confirmando com a cabeça se dirigiu ao banheiro.
- Eu sei que irá chegar um dia em que você desejará partir – comecei confuso quanto as palavras que usaria – Mas caso isso aconteça, e se seu coração ainda estiver comigo, promete que me deixa ir atrás de você?
A luz do banheiro se apagou e ela novamente voltou para sua cama, repuxando as cobertas até o queixo, voltando a me fitar com aqueles olhos que eu tanto amava.
- Por que acha que eu faria isso? – perguntou entre um bocejo – Ou melhor, por que você iria atrás de mim?
- Mais uma vez lhe digo, já passei por isto, e é por isso que falo. E faria porque o coração é uma excelente razão para se entrar numa batalha, mesmo que se feri-lo, ele irá doer como se houvesse sido mil derrotas. E mais importante ainda, você, é o melhor de todos os motivos para se lutar...
Ela permaneceu em silêncio, o mesmo olhar terno e penetrante sobre mim. Mesmo eu estando sem cobertas, me sentia quente só em fitar aqueles olhos, que me proporcionava mais do que calor, o qual também me pesou em pensar que não o teria mais.
- Eu só não quero te perder – conclui mansamente.
Com um sorriso de lábios vermelhos, e sem falar nada, ela me envolveu com seus cobertores e se aproximou, dando-me um abraço.
Sua respiração quente em minha cara, era como a brisa do mar de seus olhos, os quais eu me afogava lentamente. Meu coração descompassava a medida que os segundos se arrastavam eu silêncio.
- Eu não vou te abandonar – sussurrou ela aveludadamente, com uma voz doce – Não tão cedo.
- Sabes que a eternidade ainda seria cedo demais não é? E é aí onde me preocupa, muitas vezes aquilo que é eterno, dura apenas um segundo.
- É eu sei... Mas não esse.