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quinta-feira, 16 de março de 2017

Texto de abertura da palestra "Arte e Psicanálise", 16/03/2017

Há quem diga que poeta é fingidor, e finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Que amor é fogo que arde sem se ver. Que Raimundo é apenas rima e não solução e que mais vasto que o mundo é o coração!
Muitas foram fontes deixadas pelos homens ao longo da nossa existência, como os mitos e as artes. Não por acaso, Freud bebia em demasia desses mitos, cheios de símbolos que mexiam — e ainda mexem — com os nossos desejos, para falar de sua metapsicologia. Muito menos é por acaso que estamos aqui agora, para falarmos sobre arte. Arte fala de desejos e de realidades. Mas de qual realidade? Desejo de quem? Frida Kahlo nunca se assumiu surrealista. “Pinto a minha realidade” — dizia ela. Frutos da sublimação, é impossível olharmos para a arte sem que nos questionemos: Até onde esses poetas fingem? Qual das cores de uma Coluna Partida é verdadeira?  Porque os versos, os acordes, as pinceladas de artistas tocam tanto nosso desejo ao ponto de estarmos aqui, nos debruçando para bebê-los, tal como fez Freud há mais de uma centena de anos?
Qual é o motivo do assombro, nos umbrais tais, ao ouvirmos o sofrer do corvo: “Nunca mais”? Porque o chiclete, que deveria ser eterno e cheio de prazer, logo perde o sabor insiste em cair das bocas? De quem é o coração que nos delata o crime? E por que infernos existe um Pássaro Azul preso no peito que insiste em querer sair? De quem é, afinal, o rosto perdido no retrato de Cecília Meireles? O dela, artista que escreve, ou o nosso, leitor que, tocado pelo desejo, sorve cada verso com avidez?
É por isso que eu lhes pergunto: De quem é que a arte está falando? De nós ou dela mesma?