—
Para onde você está olhando?
Para
onde eu estava olhando?
Por
alguma razão, a primeira coisa que percebi ao vê-lo foi seu pomo de Adão, que subia
e descia garbosamente ao falar e sorrir. Não que fosse uma visão horrível, nada
naquele órgão parecia fora do normal, mas o movimento harmônico, calmo, era
interessante de se ver. Curioso, observava atentamente, como se fossem passos de
um ballet peculiar que ninguém mais se dava conta, apenas eu.
Como era lindo aquele rapaz! Sim, sua
beleza fazia-me, finalmente, compreender o significado da palavra lânguida — da
qual sempre soube usar, embora nunca tivesse encontrado oportunidade para tal.
Baixo, todo o corpo parecia ter sido talhado com tento e zelo imensurável, como
faria o mais exímio dos artistas — perfeitamente perfeccionista. Apesar dos
cabelos, cor de areia, combinassem muito mais se fossem encaracolados de forma
anelar, o tal escultor humanista escolhera para sua obra um corte curto e
desgrenhado, que suavizavam as linhas duras e acentuadas de seu maxilar —
coberto por uma barba rala de igual cor.
Pelo
tempo que o encarei veladamente, não consegui decifrar a idade que tinha. O tal
rapaz poderia muito bem gozar do fulgor de sua adolescência, assim como já
poderia carregar os fardos de uma vida adulta — quem saberia? Nem mesmo suas roupas — uma
camiseta rosa e uma bermuda cáqui — entregavam-lhe o segredo. Mesmo a olhos
atentos iguais aos que eu tinha, sempre que parecia ter a resposta em meus
lábios — muito novo, por certo! — algum novo traço em seu porte austero
retirava-me a certeza e colocava novamente em ponderações.
Foi,
ainda buscando a cronologia de suas feições, que nossos se encontraram e
trocaram seus primeiros sussurros.
A
curiosidade foi o primeiro tom que saltou de seus olhos amendoados. Mesmo longe
— estávamos em extremidades distintas da mesma praça — e de lábios selados, o
interesse com qual olhara para mim, perguntava voluptuosamente meu nome e quem
eu era. Sim, perguntara! Eu poderia ouvir seu sussurro, tão bem que mais
parecia sentir seu hálito roçando em meu ouvido e sua barba a minha nuca.
Sim,
meus caros, os olhos podem falar tão bem quanto as línguas — e na maioria das
vezes o fazem. As línguas mentem, utilizam-se de retórica para ludibriar, mas
os olhos jamais. Podem nos enfeitiçar, deveras, embora nunca contar quimeras.
Não foram os olhos que denunciaram Capitu? Nenhuma palavra, nenhum toque:
apenas um olhar. — E o olhar daquele garoto gritava para mim.
Urrava cheiro de curiosidade,
interesse. Quem eu era? O que estava fazendo ali? Por que eu estava o olhando?
Meu
rosto esquentou e por um momento o invejei.
Seu
olhar beirava o sedento, de uma forma peculiar, única, como se nada conhecesse
e tudo quisesse tragar. Era um desenho ingênuo, tal qual a de um cordeiro —
pensei — que facilmente poderia ser atraído para o covil de um lobo qualquer,
somente por aquela curiosidade pueril e inocente.
Então o invejei. Invejei como um antigo capitão mirava o marinheiro que tomava o barco para sua primeira
viagem ao mar. Nunca havia naufragado, muito menos se deixara se levar pelos
cantos inebriantes das sereias. As intemperes, filhas do mar bravo, nada mais
eram do que apenas histórias amedrontadoras, nada havia de real, lendas! Era jovem, aquele desgraçado.
Inocente: mal sabia do mal que poderia espreitar nas primeiras léguas marítimas,
pois todas as aventuras pareciam para o garoto como um litoral ameno, banhado
de sol. Não havia medo, nem o gosto de féu na boca. Apenas curiosidade e
esperança.
Invejei-o, sim, não minto. Há muito não sentia a leveza da juventude ingênua — se
é que minhas trovas amorosas me deixaram ser assim, algum dia. Mas a ingenuidade
também era um precipício, sabia bem, um imenso penhasco perigoso. Com minhas
retinas cansadas, e vendo o jovem marujo na eminência da queda, tive súbita vontade de
tomá-lo nos braços e aninhá-lo em meu peito seguro.
“Tudo
ficará bem”, era o que desejava dizê-lo. "Cuidarei de ti para que não caías nem naufrague. Serei teu corpo, teu porto. Em mim tu poderás atracar — e tragar. Tudo ficará bem."
Sim,
aquele garoto, de cabelos dourados e olhos amendoados, cujos olhos finalmente traziam minha
resposta: era apenas um jovem. Jovem como um cordeiro — repeti.
Ele
sorriu, esticando os lábios rosados, mostrando seus dentes brancos e alinhados.
As pequenas rugas ao redor de seus olhos, como um sussurro caloroso, anunciavam
a satisfação sincera de me conhecer.
—
A graça e a beleza da juventude — respondi por fim, deixando, também, um
sorriso iluminar meus lábios.
Sim, estávamos contentes em nos conhecer.