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sexta-feira, 5 de julho de 2019

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— Eu não acredito que você queimou minha barraca, Max! — murmurou o garoto sardento. Apesar de sua voz se abafar no pequeno espaço, percebia-se o tom de raiva genuína — Você precisa se controlar mais!
Max se remexeu desconfortavelmente. Os dois estavam espremidos numa barraca pequena, cheia de malas jogadas uma sobre as outras. Era a punição para Max, talvez. O grupo inteiro decidira, de maneira unanime demais, que, devido o incidente, Artur iria dormir com ele: mesmo que sua barraca mal o coubesse. Por isso espremiam-se, um contra o outro. Já tinham tentado formas de ficar confortáveis e nada conseguiram encontrar: quando um estava satisfeito, os dois entravam em atrito entre si, tinham que encontrar uma forma igual em conforto. Quando um estava bem, o outro reclamava por posições e posições seguidas. Até que enfim encontram: as pernas cruzadas, entrelaçadas entre si em que sempre que se mexiam, o corpo dos dois se aproximavam ou acochavam. Podia não ser o paraíso, mas era o mais próximo de Elísios que encontraram.
— Você sabe que mereceu. Você tem se comportado feito um babaca desde que...
— Desde que comecei a namorar Aline? — Artur também se remexeu, elevando sua voz — Qual seu problema com ela, afinal?
— Eu não tenho problema nenhum com ela, meu caro. Desde que ela não seja um problema para o grupo. Você atrasa treinos, deixa de estudar os pergaminhos...
— E desde quando você se tornou fiscal de produtividade? — Artur se remexeu com mais força, com o intuito de chutá-lo entre as pernas, parando, porém, muito perto do objetivo — Não temos um líder.
Max apertou a suas coxas contra a perna do rapaz, fazendo-o gemer levemente de dor. Artur o olhou com o máximo que conseguia se dirigir a imagem de uma penumbra muito perto de si. Definitivamente, não conseguia compreender o problema. Ele não era culpado por terem se afastado, ainda sim, de alguma maneira, via o outro falar ou se ressentir, pesaroso, como quem fora deixado.
— Não temos um líder e é por isso que temos que confiar em todos. Você está cuidando assim?!
— Ah, não, Max! — berrou em resposta. As outras pessoas, e não só a do seu grupo, reclamaram, chiando para que diminuíssem o tom. Ele obedeceu, ainda estava confuso sobre o que esperar de acampamentos. Sussurrou: — Você sabe o que eu tenho feito pelo grupo. Eu tenho me dedicado como todo mundo ali. Se você parasse de pegar no meu pé talvez percebesse! Então, sai fora!
— Eu não pego no seu pé! — bradou. Mais novos chiados. — Nem tudo gira em torno de ti, meu caro!
Artur revidou e, durante alguns ridículos segundos, os dois garotos travaram um projeto de luta, em que os participantes ficam presos um ao outro por suas pernas e braços. Pararam quando ambos começaram a soar e perceberam que aquele calor era algo pelo qual deveriam não passar. Assentiram tacitamente juntos, apesar de não terem se mexido para as posições iniciais.
Nesses momentos em que Artur não precisava trocar uma única palavra para que compreendessem qualquer coisa que tinha a dizer, era que sabia estar fazendo a coisa certa. Era fácil, natural. Até mesmo nestes raríssimos momentos em que ele e Max conseguiam compreender sobre qualquer coisa, parecia ser bom o suficiente para lutar. Não estavam tomando a decisão errada — pelo menos, em algum momento de um futuro, ainda permanecia incrédulo sobre o ritual dar certo.
— Você me vê de uma maneira tão ruim assim? — foi Max quem quebrou o silêncio, depois de suas respirações voltarem a ficar calmas. Ainda sussurrava, lembrando de seus vizinhos.
— Não te vejo de uma forma ruim... Te vejo de uma forma chata! Precisa aprender a relaxar!
— Eu sei relaxar!
— Não, Max, não sabe.
O garoto se calou, irresoluto. Preocupar-se com o grupo não era não saber relaxar. Assim como a maioria, ele também não se encaixava com os outros, por mais que popular um adolescente de 17 anos pudesse ser numa escola de Paranapiacaba. Não só isso: nutria, por cada um dos seis, um sentimento de proteção, de afeto. Sabia da sua força e não encarava protege-los como fardo, e sim como um prazer. Gostava de se sentir útil, para os seis, aquilo hexaplicava.
— Tudo bem, então — suspirou, forte, fazendo Artur sentir seu hálito quente — Você quer que eu aprenda a relaxar. Vamos continuar com o jogo! Prometo não fugir como da vez anterior. Eu faço uma pergunta na minha vez, respondo na próxima. “E você” não conta como pergunta válida e pode assumir algo no lugar. Simples, fácil. Não precisa ser muito inteligente para entender.
— Eu estava lá, Max. Eu sei das regras e mesmo assim... Não...
— Vamos! Os outros dizem que temos que melhorar a nossa relação. Nada melhor que o estúpido jogo da Verdade. Já disse, não vou fugir de nenhuma pergunta.
— Ok. Comece, então.
Artur apenas assentiu, exasperadamente. Max, no entanto, parou, não estava preparado para vencer aquela discussão tão cedo. Estruturara somente a primeira parte do plano, faltava a crucial: o que perguntaria para Basílio? Teria alguma coisa para saber a verdade? Foi quando, de fato, percebeu que não entendia muita coisa sobre o rapaz. Sim, tinha mantido um distanciamento seguro, pelo bem do grupo — foi o que pensara —, se todos estavam de amorzinho com o novato, ele deveria se manter imparcial. Distante. Agora, então, não sabia por onde começar.
— É por isso que você falou aquilo para o Igor mais cedo? — pronunciou as primeiras palavras que pularam para fora de sua língua. Ao fazer-se do silêncio, sentiu a necessidade de explicar. — Mais cedo quando falamos de mim. Você disse que não me pegaria nem em mil anos... É por isso, por não saber relaxar, porque sou chato? Porque eu pego no seu pé?
— Não, não acredito que é sobre o que isto se trata? Porque eu não inflei teu ego imenso? Nunca desconfiei que tu fazia o tipo com autoconfiança baixa, Max. Podemos parar por aqui.
— Estou fazendo isso pelo grupo, seu babaca! — remexeu-se, acertando a coxa contra a de seu amigo. — Você topou e não tenho pergunta melhor no momento, então responde ai!
Artur tensionou o maxilar, com o imenso ridículo, constrangedor!, que aquela cena se tornava: dois adolescentes, homens, bruxos, que tinham tido um histórico extremamente discutível de amizade, apesar de hoje não se suportarem, entrelaçados, com perguntas sobre preferências sexuais de um garoto extremamente narcisista? Não precisava dos poderes de pré-cognição de Miguel para saber que tudo só pioraria dali para frente, caso desse um passo a mais.
Contudo, tinha de entrar no jogo. Respirou fundo e abriu os olhos, encarando a imagem entregue a penumbra de Max, com pouco menos de um palmo de distância, em que pensaria estar numa das lições de mágica: era pelo grupo, o outro mesmo dissera.
— Não, não foi por isso que eu disse aquilo. Você pode se achar grandão e fortão, como uma coluna, mas foge antes que a gente perceba, não tem nada de verdadeiramente seguro nisso. Nem mesmo tem como saber o que esperar de ti. Por que estar com alguém assim?!
— Porque eu tenho tanquinho? — tentou.
— É, estou sentindo. Mas mesmo assim, não, obrigado. — Artur parou, pensando na pergunta. Sempre teve algo que queria saber, e, já que participava de toda aquela falta de senso, além de espaço, perguntaria de uma vez : — Por que você parou de falar comigo e se afastou daquela maneira? Quando éramos crianças...
Desta vez, quem deu o grande suspiro foi Max, porém, diferente de Artur, o peito permanecia num ritmo levemente descompassado. O acocho entre os dois aumentou, embora ninguém soubesse de quem, ou quê, era o sentimento que o impeliam a fazer aquilo, sem se importar com as resistências pelo meio do caminho. Era isso que sempre via quando tocava no assunto: o garoto sempre ficava tenso, pesaroso.
— Não adianta falar se não vou ser acreditado.
— Ah, não, você não pode mentir! Eu falei a verdade e me deve o mesmo.
— Tudo bem, a verdade é que fiquei com medo. — começou, francamente, sentindo seu peito descompassar ainda mais — Nós erámos como irmãos... Aí descobri a magia e você sabe, é quase um processo natural nos afastarmos. Antes que você fizesse isso, eu fiz. Não sabia como lidar, sei lá.
Max terminou suas últimas palavras numa bufada quente de quem  descarrega um peso enorme, após imensa labuta. Contrariando seu desejo de gritar, controlava-se num tom baixo, sussurrante. Costumava pensar que não se importava com o que Artur pensava, estava errado. Via isso agora. Ele sempre fora a opinião que mais importava.
— Isso não faz o menor sentido para mim!
— Eu tinha doze anos, desculpe se me faltava maturidade para discernir como me portar com pessoas não-mágicas. Minha vez: qual é a coisa mais embaraçosa que você faz escondido?
— De que revista da capricho tu retirou isso, Max?
— Cala a boca e responde. Ainda não tenho uma pergunta boa pra fazer.
— Eu gosto de me ver no espelho... Não é nada demais, mas não faço isso na frente dos outros.
— Tipo pelado?
 — Não, tipo provando roupas para minha promissora carreira de modelos de moletom! — novas remexidas. — Sim, é claro que é pelado. Qual tua música favorita?
Glory Box! É ótima para fazer sexo. — Max sentiu o olhar julgador de Artur em seu rosto — O que foi? Adora ficar de frente pro espelho fazendo só Deus sabe o quê, e me crítica por que eu gosto de transar com música?... Por falar nisso, tu gosta de se olhar no espelho por que tem tesão em ti? Tipo, no teu corpo ou no corpo de um cara?
O tom de Max era de uma curiosidade genuína. Os rumos daquela conversa poderiam não estar indo pelos rumos mais sério, no entanto, seguiam sinceramente em relação um ao outro. Era um grande avanço, pensando nos últimos meses, não poderia perder isso.
— Um pouco dos dois, talvez? — respondeu — Raramente eu fico com caras, então, pode ser que seja isso. E você?
— Essa pergunta não vale.
— Tudo bem: por que você tem que dormir de cueca?
— Ora, desculpe se não esperava receber visitas. Não trouxe muitos pijamas elaborados para usar esta noite. E como se esse seu short de moletom fosse melhor do que minha cueca.
Artur novamente tentou acertá-lo com a perna, mas apenas conseguiu fazer com que Max se mexesse, fazendo a maior parte do seu corpo de estofado. Temia se movimentar mais, principalmente, porque começava a achar estranhamente confortável. A madrugada começava a esfriar, a perna quente que recaía sobre si esquentava-o. Não, não eram só elas, percebeu, os braços do outro garoto também já se entrelaçara ao seu corpo, sua cabeça apoiava-se sobre um deles. Até mesmo as respirações de ambos emanavam calor.
 — O que foi a primeira coisa que você pensou quando percebeu que era bruxo?
Artur se surpreendeu. Aquela parecia uma pergunta sincera, íntima, não uma coisa pré-pronta de revista adolescente. Pela primeira vez em dias, pareciam estar entrando no ritmo certo.
— Que eu estava ficando louco... Louco como meu pai. Não foi nada bom, na verdade...
— Sinto muito...
— Não, espere! — Artur interviu. — Mas a primeira vez que descobri o grupo, essa foi a sensação realmente boa. Eu pensei que talvez... Talvez eu pudesse pertencer realmente a um lugar... Sim, bem clichê de adolescente.
Max poderia ter gargalhado, sabia bem, no entanto, o garoto louro apenas arfou num sorriso que estava longe de ser desdenhoso ou de zombaria. Era um riso confortável e quente. Era acolhedor. Sorrisos podiam fazer aquilo?
— Eu pensei que nunca mais iria lavar louça na mina vida! — cochichou gratuitamente, ainda exibindo aquele sorriso levemente abobalhado. — Já pensou?
— Max perfeito não gosta de lavar louça? Não, quem diria!
— Babaca!
Os garotos se cutucaram, animadamente, desta vez. O silêncio se aconchegou sobre os dois, em seguida, com as respirações se compassando entre si. Duraram algum tempo mais espaçados até a nova pergunta realizada por Artur, que não precisava ser lembrado de que era sua vez, mesmo depois de minutos sem falar nada. Fluiu, apenas:
— Por que você pirou lá no sítio? Desde que chegou lá, começou a se comportar de uma forma diferente, não falou a verdade quando jogamos. Tudo isto tem alguma coisa a ver?
Max não respondeu, tensionando seus músculos, fazendo Artur temer ter ido longe demais. Não podia enxergar muito bem, mas podia jurar quem o garoto fechara os olhos. Já estava pronto para intervir, quando o efêmero silêncio foi quebrado pelo outro:
— Como você sabe, eu acordei mais cedo do que a maioria. Desde cedo eu passei a treinar com meu pai e ele me ensinava todo os tipos de feitiços, alguns complicados e perigosos demais para uma criança. — Max parou, suas linhas do maxilar estavam mais fortes. — Numa manhã eu estava sozinho, tomando banho de piscina, quando as defesas da casa cederam, um grupo de quatro bruxos invadiram a casa. Por sorte não me viram, foram em direção a casa e começaram a vasculha-la, quebrando tudo. Uma cena de filme, sério.  
As imagens daquele dia inundaram sua mente.

O pânico o tomou. Seus músculos tremeram de uma forma que nunca mais fizeram depois daquele dia, e o garoto sabia que não era por estar com frio da piscina. Saiu, tentando não fazer barulho — era o único plano que tinha. Uma das figuras o viu antes que a criança pudesse pensar no que fazer depois. Dois dos bruxos vieram ao seu encontro, estavam descuidados, talvez pensassem que ainda não tinha acordado, se é que possuía algum poder. Definitivamente, não estavam preparados para o que aconteceria: suas mãos moveram-se mais rápido do que cabeça, o feitiço sendo proferidos por seus lábios e num segundo, o primeiro caía longe. O segundo entendeu o recado, pondo-se em defesa para os novos feixes de luzes que o atingia.
A balbúrdia vibrou pelo sítio inteiro, fazendo com que os restantes dos invasores revidassem contra o garoto que agora se escondia sob o balcão do deque. As palmas de sua mão ardiam, pequenos filetes de sangue escorriam pelo punho. A respiração ofegante fazia-o sentir como se estivesse afogado. Nunca soltara tantos feitiços de ataque de uma vez só. Não sabia se tinha sido atingido, mas algumas costelas doíam. Estava apavorado, pela primeira vez em sua breve vida experimentava o temor de uma batalha com outros bruxos, que não seu pai, o qual pararia antes que alguma acontecesse.
— Cutis! — bradou, pondo-se de pé, seus dedos empunhados feito uma lança.
O feixe de luz cortou o ar, acertando em cheio o bruxo que antes tentava se defender, fazendo-o cair para trás. Mas o número era maior do que poderia batalhar sozinho e, em poucos segundos, o grito de Max, sentindo alguns de seus ossos quebrarem, retumbava por todo o sítio.

— Eu não sei o que teria acontecido se meu pai não tivesse aparecido. — continuou a narrar o garoto, em tom de voz rouco. —  Ele abateu os três bruxos restantes bem mais rápido do que eu... O restante é muito confuso, devo ter desmaiado. Só volto a ter lembranças do dia seguinte, meu braço estava enfaixado e eu tinha curativos por várias outras partes do corpo.
— Vaso ruim nunca quebra! — cochichou Artur, cutucando a barriga de Max.
Ele se remexeu, retribuindo a brincadeira com um movimento de ombro. Não parecia estar tão mais tenso, no momento em que tornou a falar:
— Mesmo quebrado, eu ainda me senti culpado por não ter, sei lá, conseguido proteger a nossa casa... Foi quando meu pai disse que, enquanto estivesse no sítio, ele me protegeria e eu poderia... Relaxar. Por isso insisti para que passássemos alguns dias lá, só o grupo. Precisava baixar minha guarda para poder pensar direito... Te ver levar Aline lá, quebrando o nosso voto, me fez ficar puto, porra. Era um lugar em que eu não precisava me preocupar com nada e você trouxe uma das preocupações bem para o meio dele!
— Desculpe.
— Tudo bem, eu nunca contei isso a ninguém, não tinha como saber disso.
Artur deixou escapar algo próximo a um projeto de sorriso orgulhoso, com a ideia de ter ganhado a confiança de Max ao ponto de lhe confidenciar algo assim. Não tornaram mais a falar durante muito tempo e as únicas coisas que se podiam ouvir eram suas respirações, harmônicas, e o barulho lisos de pele. Os cabelos avermelhados subiam por entre dedos pálidos que dançavam suavemente. Não sabiam como, nem o por quê, mas perceberam de repente o quanto seus corpos estavam colados um ao outro. As pernas de um, emaranhava-se entre as do outro. Nenhum movimento, por menor que fosse, era passado despercebido, aliás, muito pelo contrário, ambos pareciam confortáveis para deixar suas coxas zanzarem sem um limite a vista.
— Olha só... — sussurrou em tom rouco, Max, tocando o peito de Artur com a ponta dos dedos, descendo até sua barriga — Pelo visto não sou o único a ter tanquinho aqui.
Ele o tocava, morno, percorrendo seus músculos. O mais surpreendente naquilo tudo era a naturalidade com que a ação se desenrolava, feito um complexo sistema de engrenagens que rodavam sem nenhum conflito. Artur cerrou os olhos, permitindo-se por a mão sobre as coxas do outro, afagando-as, sentindo os pelos ralos fazerem cócegas. Pouco importava por onde suas mãos deslizassem, fautosas, pois em cada centímetro eram recebidas com uma eletricidade ímpar.
Max se remexeu, ajeitando o seu corpo para que Artur se aconchegasse com a cabeça e as pernas sobre ele. Enlaçando-o com seus braços, trouxe o rosto sardento para perto do seu, pondo a mão em sua nuca. Fluíam, um ao outro, perdendo o fôlego por lábios úmidos. Sem que precisassem trocar uma única palavra, despiram-se, aproveitando a sensação das peles quentes, aconchegadas. Seguiam, em passos harmônico, o desbravamento pelos tracejados que se misturavam, embaralhado dos amassos.
O garoto sardento foi o primeiro a provar o gosto de Max, sentindo-o dentro de si, com a boca morna. Era preciso muito controle, e alguns travesseiros, para que o barulho não fosse suficiente para acordarem seus vizinhos. Aquela atração arrebatava-os de maneira única, peculiar. Artur raramente se sentia assim com outros rapazes. Na verdade, raramente se sentira assim com outras pessoas. Nada, em nenhum movimento, caminhava para o errado. Não que tivessem feito tudo com passos sincronizados, atrapalhados na barraca apertada, vez ou outra batiam a cabeça, colocavam-se em posições desconfortáveis, apenas resultavam em risos abafados.
Cochichavam, em arfadas, alguns insultos e provocações, numa tentativa demasiadamente falha de reproduzirem os repertórios das duas pessoas que nunca mais voltariam a ser. Em algum momento, Max percebeu, com excitante espanto, o quanto gostaria de que tivesse mais luz, ao fitar com dificuldade os contornos de Artur delimitando-se na penumbra, sobre ele. Desejava descobrir quais cores resultariam daquela mistura de vermelho e amarelo que surgia diante de si. Nunca o percebera, mesmo passando muito tempo ao seu lado, no entanto, agora que fazia, não vislumbrá-lo nos mínimos detalhes o qu.e suas mãos, pernas e bocas sentiam, soava-lhe um completo desperdício.
Inexistiu, também, um único momento em que se movimentaram no pequeno espaço, que a aura protetora de Max estivesse sumido — o outro notara, —, enquanto o abraçava ao beijar ou em que mordiscavam de leve seu pescoço. Algumas das vezes tiveram apenas que se conter para não deixar marcas, a maioria das tentativas, falhas. No fim, Artur tinha o corpo do garoto atrás de si, colado ao seu, com o hálito quente roçando em suas orelhas e o nariz colado em seus cabelos levemente molhados, rubros.
Quando, enfim, a extasia os tomou completamente, voltaram aquela mesma posição, cutucando-se de maneira marota e balbuciando algumas partidas de jogo da verdade sob o cobertor

A morte de Andrézinho, o desajeitado.



André, de fato, nunca fora um rapaz confortável com seu corpo. Entendo que essa possa ser uma declaração pitorescas para uns — como alguém não era confortável com o próprio corpo? —, no entanto, nada fazia mais sentido para ele do que essa declaração. Aquele corpo, simplesmente, não lhe cabia. Tal sentimento de desconforto se estampava em seu rosto magricela. Tudo, cada detalhe de seu corpo, como afirmara, parecia desajeitado — desajustado. Justamente por ser uma imagem incomum no meio de tantas personas padronizadas, que os problemas acostumavam-lhe acontecer, como uma balada repetitiva e cansativa — Naquele dia, em que, definitivamente, encontrou sua morte, por certo, não poderia ser diferente.
Era sábado pela manhã, dia de folga para os estudantes da Academia Mágica de Aurora, que era conhecida pelo mundo bruxo como a Grande Ordem. Ávidos pelo destaque entre o mar de feiticeiros, praticavam, todos, a nobre arte da magia pelo campus, mesmo nos sabádicos dias. André, por exemplo, voltava da biblioteca com o grosso volume do livro “Introdução à magia mental para iniciantes, v. I : O que eu estou pensando?”, quando uma forte massa de energia o atingira com violência no ombro, derrubando-o de cara no assoalho. O coro de risadas ecoou mais intensamente pelo corredor abarrotado de alunos, do que o próprio barulho do sujeito sendo estatelado ao chão.
— Tropeçou, Andrezinho-viadinho? — dissera uma voz, em suas costas.
Novas risadas retumbaram, servindo de pólvora para o calor que tomava o corpo de André, que nem mesmo precisou conferir quem falara. Desde sua primeira semana na Academia, um grupo de alunos não o deixava em paz, importunando-o das mais diversas formas possíveis — culpa de ser desajeitado, sabia —, eram comentários venenosos, apontadas malfazejas e mais risadas como uma maldita trilha sonora por onde passava, e que o incomodavam como incomodaria a um palhaço depressivo. Atacar-lhe pelas costas, no entanto, era um comportamento novo, sem sombra de dúvidas provindo dos anteriores. Estava claro, para Cristiano e os demais estudantes de graus mais elevados e que lideravam o assédio, que Andrezinho, o desajeitado, nunca se defendera por não ser capaz de tal ato — afinal, muitos alunos do primeiro grau não são capazes de entrar em embate direto com bruxos do terceiro, como eles. Embora o seu pensamento pudesse estar certo em partes, mais certo ainda, era que existiam outras coisas sobre Andrezinho, o tal desajeitado, que precisavam ficar muito mais claro a seu respeito.
Levantou-se, o desajeitado, lentamente, de forma paciente, fria, e quando se virou para encarar o grupo de bruxos os quais se gabavam numa posição aberta e esparramada, moveu-se rápido demais, preciso demais, sem dar tempo o suficiente para saberem o que acontecia, até que dois bruxos já voavam janela afora. Surpreso com o golpe de André, Cristiano não conseguiu se mover veloz o suficiente até também ser atingindo no peito e ser arremessado por muitos metros no corredor.
A plateia ensandecida, recém-formada pelos alunos presentes, urrou delirante com a reviravolta. Entretanto, recuperado do golpe surpresa do desajeitado, Cristiano também se pôs de pé já com as palmas da mão espalmadas para o ar, movendo seus lábios no rosto avermelhado com o misto de fúria e vergonha.
— Apek! — gritou, fazendo uma maça de fogo brilhante se espalhar de sua mão e voar em direção ao seu oponente.
Num movimento gracioso, André pulou a janela, pousando firmemente na grama do lado de fora do prédio e correu floresta a dentro, sendo acompanhados de novos aplausos e assomos da plateia atenta que começou a correr para o lado externo, não desejando perder nem um momento daquela batalha.
— Nós vamos te quebrar inteiro, seu viadinho do caralho! — Cristiano estava aos berros, ensandecido, enquanto perseguia Andrezinho, o desajeitado, até a pequena floresta — Não adianta se esconder, nós vamos te achar! Volta aqui!
André, quando ouviu os berros do grupo de bruxos, já estava devidamente escondido por entre as árvores. Silenciosamente, esperou, até que os passos que pareciam chiados ao longe, começaram a tomar forma e ficar mais audíveis. Seu coração martelava frenético de adrenalina, suas veias, as quais já pareciam começar a se costumar com a monotonia, pareciam enlouquecer de excitação pelo fogo de uma nova batalha. Mais uma batalha que era travada por ser quem era: um desajeitado.
Temendo se meter no meio do conflito e ser atingida por acaso, a plateia não adentrou a floresta, esforçando-se ao máximo para ver o que acontecia. Farfalhados e sons de corpos se chocando ecoavam entre as folhas, sendo iluminados, ocasionalmente, com flash de luzes azuis, róseas e brancas. Não se poderia saber quem ganhava aquele conflito, mas, por certo, não poderia ser Andrezinho! — Afinal, ele era somente um, não era?! — Tal pensamento, que habitava os espectadores começou a mudar, no entanto, quando o primeiro dos três fora arremessado com força contra os alunos que assistiam ansiosos, ao passo que, ao segundo bruxo, que saiu por livre vontade — berrando, com as roupas em chamas! —, uma torcida já se formava, vibrando para a vitória do desajeitado.
— Você brada virilidade demais — Gritava Andrezinho, escondido por entre as árvores, esperando o melhor momento para um novo ataque — para quem tem uma chama tão pequena!
Transtornado, Cristiano, mirava todos os lados, ainda em postura de batalha, esperando ver algum vislumbre do maldito a quem perseguia. Desde que a batalha começara, não havia conseguido causar nenhum dano além de cortes no rosto e braços de André.
— E você fala demais pra quem vive escondido — urrou em resposta, com seu tom de voz espalhando-se pelas folhas — Por que não se mostra, seu viadinho covarde?!
Por que eu não me mostro? — Pensou, sentindo ecoar a voz de Cristiano dentro de si. Mesmo que odiasse concordar com o outro, sabia que, nas palavras ensandecidas, habitava uma flâmula da verdade. Afinal, por mais forte que fosse, ou que se achava ser, estava escondido, não estava? E por que estava escondido? Por que não se mostrava para todos quem era de verdade?!... Ah, como odiava ser chamado de Andrezinho, o desajeitado! Já era hora de resolver essa situação, que lhe cansava! Sabia, há muito tempo quem era, e, definitivamente, não era um viadinho, esquisito, desajeitado!
Com as mãos tremendo, enfim, entendia que já tardava a hora de enfrentá-lo, de uma vez por todas, para mostrar as faces do seu verdadeiro eu.
Saindo, pela primeira vez, abertamente de seu refúgio, colocou-se de frente para o inimigo, encarando-se com fúria. Eles sempre me encaravam com fúria — pensou, novamente, sentido aquele calor do conflito reverberar em seu espírito — Basta. Como se um sinal houvesse sido ouvido, os dois se puseram um contra o outro, de mãos arqueadas:
— APEK! — Gritaram, uníssonos.
Novas labaredas surgiram, chocando-se com forte estrondo. Os corpos de ambos queimavam, em próprias chamas, que eram expelidas diretamente de suas próprias veias. Com habilidade e destreza, prosseguiram no combate mágico sem que ninguém conseguisse liderar de fato. Feitiços eram lançados uns contra os outros, e quando um, por desventura, era atingido, não se deixava abater, pondo-se de pé rapidamente e tentando contra-atacar com novos feitiços. De fato, sim, lutavam com fúria peculiar. Era certo, no entanto, naquela batalha intensa e calorosa, apenas um iria perecer — nunca fora surpresa, também, que haveria uma morte naquela batalha: a de André. E assim aconteceu.
Cristiano levantou o braço esquerdo, num formato de lança, enquanto os lábios conjuravam um novo feitiço. Num segundo, seus pés brilharam, as folhas voaram com a atração causada pela magia; no outro, um forte jato de luz avermelhado voou por entre as árvores, violento, voraz. O feitiço, que teria feito um enorme estrago se houvesse acertado em cheio o seu alvo, no entanto, zuniu raspando pelo braço do seu opoente trazendo um grande corte à tona, derramando seu sangue rubro. Todavia, aproveitando a única brecha que lhe aparecia, no ínfimo descuido de Cristiano, uma voz se fez ouvir em conjuração:
— Kágnse!
Como se um imenso peso tivesse feito em seus ombros, o bruxo pereceu de joelhos no chão, sentido seus ossos doerem intensamente. Nunca havia experimentado aquilo, aquele feitiço, aquela dor... Era profunda, como se punhais perfurassem suas pernas, raspando, dolorosamente, em seus ossos. Com a mesma velocidade que viera, contudo, a dor também partira, deixando claro quem vencera a acirrada disputa.
Derrotado, Cristiano saiu da floresta, de ombros baixos e a cara suja de terra, suor e sangue, sendo recebido por um imenso assomo de surpresa! Aqueles que haviam tomado partido ao seu favor deixavam pequenos xingamentos sair entredentes, enquanto os outros, vibravam com a vitória.
— Cristiano perdeu para o André! — Gritavam, eufóricos, tentando tornar o irreal mais palpável — Vocês viram? Cristiano perdeu para o André!
— Não, ele não perdeu para André! André está morto!
 Bradara uma voz. Silenciosos, o restante dos alunos procuraram, quem poderia ter sido capaz de falar tal atrocidade, até que perceberam uma figura que saía, lentamente, da penumbra das folhas, de corpo magricela e pele negra aquarelada com pequenas manchas brancas, feito alvas sardas. Os cabelos, banhados pela luz do sol, os quais estavam bagunçados devido à batalha, avolumavam-se com cachos castanhos e prateados. Era uma imagem segura, por certo, que pela primeira vez, estava completamente ajeitada em quem era, com quem se sentia. Podia ter o mesmo rosto de Andrezinho, o desajeitado, mas o brilho dos seus olhos deixava claro que pertencia a outra pessoa. Nos lábios, um sorriso malicioso estampava seu rosto.
 — Ele perdeu para Valentina!


Rachegötter.


Rachegötter.
Alice acordara com uma sensação esquisita aquela manhã. Não sabia descrever com exatidão, parecia ser como se os ossos estivessem imerso em algum mar gelado, a carne congelava-se mesmo que, lá fora, o sol estivesse forte. Pensou estar doente, embora desconfiasse demasiadamente que a enfermidade que sofria, tratava-se do corpo. Aquele momento em que ainda tratava de acordar, conferiu, como de costume, os amuletos da casa para conferir se ainda poderiam protege-la de azarações ou maldições. Tudo estava no mais perfeito possível. O que inferno seria então?
Antes que seu cérebro percebesse, que acordasse todas suas memórias, para encontrar naquele cenário pitoresco a razão daquilo, um grupo de seres encapuzadas a cercaram. Suas maos frias apertaram seu braços e pernas com tanta forma, que a dor excruiciante da qual fora tomada, que as únicas partes aquecidas eram por onde o sangue se espalhava. Teria gritado, ginchado, mas sua garganta, assim como as demais partes, estavam dilaceradas.
Rachegötter — retumbou uma reminscencia de seu inconsciente.
As cenas que inundavam seus olhos, afogavam com as memórias de muitos anos atrás, recalcadas por aquele feitiço inflexível. Alice estava perante ao grupo de vampiros que findara com o último folego de todos que amara, mas que agora não passavam de carcaças ressecadas, jazindo nos quartos de sua casa. Seu marido. Suas filhas, gêmeas, que ainda nem haviam aprendido a falar mamãe. Todos mortos, porque não conseguira pagar a “taxa de condomínio”, como aqueles vermes sugadores insistiam em falar, todos os meses, carregando um sorriso perverso.
Havia três meses que Alice não conseguia pagar a taxa da qual sua sobrevivência dependia. Desde que alguém resolvera acabar com o mundo dos bruxos, caçando-os um a um, colônias de sobrevivência passaram a ser criadas, refúgios protegidos por outros seres mágicos que poderiam lutar contra os demônios que empestavam as cidades. Quando tudo estourou, mal conseguira sair de Aurora com vida, pegou seu marido e fugira para o mais longe possível. Não tiveram a sorte de fugir com os Acadêmicos, embora tivessem tido maior do que aquelas centenas de outras pessoas que ficaram pela cidade em chamas. Nunca fora treinada para fazer outra coisa se não cuidar de assuntos mágicos. Tivera que viver feito uma mortal — pois os rumores diziam que qualquer feitiço, por menor que fosse, poderia ser detectado —, trabalhar e arrumar um emprego para conseguir pagar a maldita quantia.
Os vampiros sempre foram os piores, pois indefesos, os bruxos finalmente haviam perdido a sua tão imponente supremacia. O que restavam era apenas isso: um gado perfeito pois pagava para não ser usado como alimento. Sangue bruxo era doce, perdendo apenas para o das fadas — é o que se dizia em tom de ameaça, quando passava pela rua. Enfim, eles podiam provar a teoria para Alice.
Por sorte não presenciara o momento em que eles pegaram suas filhas. O que lhe restava de insanidade não merecia ser sufocado pelos detalhes que a assombraria para sempre. O marido já lhe bastava. O sentimento que queimava excruciante em seu peito, tão pungente que não passa de uma fantasia para muitas pessoas, pareceram guiar os seus lábios, proferindo palavras tão antigas e profundas que seriam impossíveis de se reproduzir duas vezes. Era um feitiço que não precisava ser aprendido em livro algum, habitava um lugar inato no espírito. Inflexível. Avassalador. Caro. Vingança. Eram as poucas coisas que conseguia compreender em lapsos de racionalidade,
Rachegötter —  badalou mais uma vez.
 As sombras que banhavam a todos, foram tomando forma, corpofiricando-se de seres inomináveis. Vultos horrendos. Como numa fragrância pútrida, o horror se espalhava por todos — bruxa e vampiros. No meio delas, uma criatura esguia e esbranquiçada feito a lua deum um passo a frente, mas Alice não ousou olhá-la mais do que isso. O tom de sua voz a teria feito tremer sempre que lembrasse — e que só agora, conseguia lembrar —, avisava-lhe do contrato, o preço a ser pago por sua convocação. A partir daquele momento não teria mais volta: sangue haveria de ser pagado com sangue.
Rapidamente, os vultos atacaram os corpos pálidos, embriagados de sangue, ransangodo-lhe a pele que já deveria estar morta. Era como se a própria escuridão os devorassem para dentro do esquecimento, os confins da existência. Assim como Alice, não tiveram a chance de gritar.
Poderia demorar meses ou anos, mas eles retornariam. Os deuses da vingança sempre cobram suas pendências. Os deuses são justos. Alice, embora não lembrasse — pois isto também fazia parte do feitiço, já nenhum humano seria capaz de suportar aquela experiência —, carregava em seu peito aquele aviso que badalava como um lembrete evanescente.
Rachegötter.
Cinco anos, foi o que durou até que eles cobrassem Alice naquela manhã. De igual maneira, quando a criatura esbranquiçada se aproximou, e seu espírito não aguentara vislumbrá-la, seus olhos prostraram-se ao chão, rememorando — enquanto ela falava — os termos finais de seu contrato.
Rachegötter — os deuses da Vingança sempre cobram seus suas pendências.