— Pois eu não gostei! — Emburrou-se.
Ele se levantou, meio trôpego de álcool, afastando-se
de meu corpo, indo se apoiar no balcão de mármore que dividia a sala da
cozinha. Assim distante, a luz — pouquíssima, deveras — beijava-lhe o rosto,
tão mansa e calidamente, que eu a invejei por isso. Afastado, ficou-se, por
alguns minutos, encarando-me apenas.
— Por que não gostou, se é a verdade?! — Tentei
retrucar, com um arrastado ébrio na língua — A verdade é o que é, goste-se ou
não...
— É verdade, então?! É assim que você vê nossa
situação? — Proferiu novamente, meio emburrado — Não temos um futuro?
Levantei-me, tal como ele, aproximando-me lentamente
de seu corpo banhado por aquela luz, contemplando-o em cada segundo em que meus
passos se arrastaram até os dele. Eis novamente que a beleza minimalista se
mostrava naquele fluxo, de tempestuosa guerra entre luz e sombras. Entendera-me
mal, por certo, o que acabava de lhe confidenciar — a poesia dos ébrios é
sempre muito confusa de se escutar —, mas, se lhe compreendia os significantes,
a carência era de significados a qual sua língua denunciava. Mentiria se
dissesse que isso não me preocupava, esses tais desencontros da fala e dos
corpos, contudo, feito o desavisado que entra num labirinto sem pretensão de
sair, tornei a falar. Com as pontas dos dedos, fui caminhando sobre sua pele
quente, macia, sem pressa, embora com gana de lhe percorrer todo.
— Não, Cephas, não temos futuro. Nem mesmo o fogo ou o
gelo, os quais achei que pudessem nos abater, não existem. Quem garante que
iremos nos ver depois daqui?
— Eu garantirei! — Prosseguiu, de maneira quase
pueril, com os olhos grandes, escuros, ansiosos — Virei amanhã, ou depois, mas
eu garantirei que ainda nos veremos. Isso é futuro, não é?
— Não, não, meu pequeno, isso é presente! — Corrigi-o,
vendo-o se ajeitar novamente no balcão, incomodado com minhas palavras — Até o
momento em que te conheci, admito, também concordaria contigo, mas cá, vendo
nós dois, olhando para frente... Não sei se foi a visão dos teus olhos turvos,
que se fez presente em todo momento que buscava mirar o futuro, ou somente a
desesperança a qual fizera morada em meu peito... Mas o fato é que percebi,
contigo, que não, Cephas, como disse: não temos futuro.
Pausei-me em minhas palavras, dando um grave — e longo
— suspiro, enquanto meus vocábulos recaíam-lhe como um manto sobre a pele. Sem
olhar para mim, fitava agora o vazio, o escuro, que não era iluminado nem pelo
abajur, nem por ele. Por alguns momentos, fiquei-me questionando sobre o que
pensavas: concordava com minhas trovas, tremia e temia por elas, ou somente
encarava, com dificuldade, o piso de minha casa, o traçado do cimento, como
numa tela abstrata em que se finge algo ver em meio as linhas aleatórias? O
fato é, se ponderava ou o fingia tal feito, eu quebrei novamente o silêncio.
— Não existem verbos mais mentirosos que aqueles
conjugados no futuro: Garantirei... Virei... Veremos... O futuro não existe,
meu pequeno Cephas, por isso mesmo é que não temos um. Ninguém o tem. Nem os
amantes de longas datas, nem os apaixonados de recém-vista. Sei que pode
parecer loucura, mas saiba que as expectativas, os planos, os desejos... São
todos frutos do único tempo que existe: o presente. Somente esse é o tempo com
qual devemos contar e nos preocupar... Esse é o único tempo com qual podemos
nos deleitar. Veja: podemos falar do passado — que já existiu —, do presente —
que está acontecendo neste exato momento —, mas o futuro não passa de especulações,
não-ações! Então, não... Não caia na falácia de acreditar no vazio, como esse
que estás mirando. O futuro, nosso ou qualquer que seja, não existe.
Mordendo seus lábios, em nada retrucou, deixando-me
novamente sem saber se era a resignação dos convencidos ou a rebeldia dos
discordantes que lhe tomavam as palavras e o deixava mudo. Meus dedos, aqueles
pequeninos os quais desbravam a imensidão morna, agora, nadava em seus cachos
negros, emergindo, vez ou outra, até sua testa ou rosto. Sentindo-me, enfim,
aceito, não em passado nem em futuro, mas em presente, tomei-lhe pelo pulso e
puxei ao chão, a exata posição em que havíamos parado, de corpos aninhados,
confidentes, seguros. Cephas ainda me olhava com aqueles lagos imensos,
fazendo-me perceber que queria gritar em meio a abstinência de sons entre nós
dois, mas as suas palavras, ditas apenas em sussurros, foram:
— Se assim é: eu vejo você hoje, então...
— Sim, meu pequeno Cephas, agora, nós nos vemos.
E era só isso que importava.

