Translate

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Presentificação




— Pois eu não gostei! — Emburrou-se.


Ele se levantou, meio trôpego de álcool, afastando-se de meu corpo, indo se apoiar no balcão de mármore que dividia a sala da cozinha. Assim distante, a luz — pouquíssima, deveras — beijava-lhe o rosto, tão mansa e calidamente, que eu a invejei por isso. Afastado, ficou-se, por alguns minutos, encarando-me apenas.


— Por que não gostou, se é a verdade?! — Tentei retrucar, com um arrastado ébrio na língua — A verdade é o que é, goste-se ou não...

— É verdade, então?! É assim que você vê nossa situação? — Proferiu novamente, meio emburrado — Não temos um futuro?

Levantei-me, tal como ele, aproximando-me lentamente de seu corpo banhado por aquela luz, contemplando-o em cada segundo em que meus passos se arrastaram até os dele. Eis novamente que a beleza minimalista se mostrava naquele fluxo, de tempestuosa guerra entre luz e sombras. Entendera-me mal, por certo, o que acabava de lhe confidenciar — a poesia dos ébrios é sempre muito confusa de se escutar —, mas, se lhe compreendia os significantes, a carência era de significados a qual sua língua denunciava. Mentiria se dissesse que isso não me preocupava, esses tais desencontros da fala e dos corpos, contudo, feito o desavisado que entra num labirinto sem pretensão de sair, tornei a falar. Com as pontas dos dedos, fui caminhando sobre sua pele quente, macia, sem pressa, embora com gana de lhe percorrer todo.

— Não, Cephas, não temos futuro. Nem mesmo o fogo ou o gelo, os quais achei que pudessem nos abater, não existem. Quem garante que iremos nos ver depois daqui?

— Eu garantirei! — Prosseguiu, de maneira quase pueril, com os olhos grandes, escuros, ansiosos — Virei amanhã, ou depois, mas eu garantirei que ainda nos veremos. Isso é futuro, não é?

— Não, não, meu pequeno, isso é presente! — Corrigi-o, vendo-o se ajeitar novamente no balcão, incomodado com minhas palavras — Até o momento em que te conheci, admito, também concordaria contigo, mas cá, vendo nós dois, olhando para frente... Não sei se foi a visão dos teus olhos turvos, que se fez presente em todo momento que buscava mirar o futuro, ou somente a desesperança a qual fizera morada em meu peito... Mas o fato é que percebi, contigo, que não, Cephas, como disse: não temos futuro.

Pausei-me em minhas palavras, dando um grave — e longo — suspiro, enquanto meus vocábulos recaíam-lhe como um manto sobre a pele. Sem olhar para mim, fitava agora o vazio, o escuro, que não era iluminado nem pelo abajur, nem por ele. Por alguns momentos, fiquei-me questionando sobre o que pensavas: concordava com minhas trovas, tremia e temia por elas, ou somente encarava, com dificuldade, o piso de minha casa, o traçado do cimento, como numa tela abstrata em que se finge algo ver em meio as linhas aleatórias? O fato é, se ponderava ou o fingia tal feito, eu quebrei novamente o silêncio.


— Não existem verbos mais mentirosos que aqueles conjugados no futuro: Garantirei... Virei... Veremos... O futuro não existe, meu pequeno Cephas, por isso mesmo é que não temos um. Ninguém o tem. Nem os amantes de longas datas, nem os apaixonados de recém-vista. Sei que pode parecer loucura, mas saiba que as expectativas, os planos, os desejos... São todos frutos do único tempo que existe: o presente. Somente esse é o tempo com qual devemos contar e nos preocupar... Esse é o único tempo com qual podemos nos deleitar. Veja: podemos falar do passado — que já existiu —, do presente — que está acontecendo neste exato momento —, mas o futuro não passa de especulações, não-ações! Então, não... Não caia na falácia de acreditar no vazio, como esse que estás mirando. O futuro, nosso ou qualquer que seja, não existe.

Mordendo seus lábios, em nada retrucou, deixando-me novamente sem saber se era a resignação dos convencidos ou a rebeldia dos discordantes que lhe tomavam as palavras e o deixava mudo. Meus dedos, aqueles pequeninos os quais desbravam a imensidão morna, agora, nadava em seus cachos negros, emergindo, vez ou outra, até sua testa ou rosto. Sentindo-me, enfim, aceito, não em passado nem em futuro, mas em presente, tomei-lhe pelo pulso e puxei ao chão, a exata posição em que havíamos parado, de corpos aninhados, confidentes, seguros. Cephas ainda me olhava com aqueles lagos imensos, fazendo-me perceber que queria gritar em meio a abstinência de sons entre nós dois, mas as suas palavras, ditas apenas em sussurros, foram:

— Se assim é: eu vejo você hoje, então...

— Sim, meu pequeno Cephas, agora, nós nos vemos.

E era só isso que importava.



terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Helena e Capitu




Perguntaram-me recente sobre minha fixação por personagens literários. Não, especificamente, questionaram-me meu afã na trova de duas personagens de mesmo pai, embora vindas famílias distintas: Helena e Capitolina. Machadianas que sejam, as duas não poderiam se distinguir mais uma da outra, todavia, falemos disso depois.


Não sei, caros leitores, se vossos olhos se encantam com os rabiscos das musas tanto quanto eu. As artes, todas elas, parecem-me o brilho da vida — que existe, mas que não significa bela ou mesmo atrativa. É, então, a luz que lhe falta, o luzir no palco dando enfoque aos personagens da ópera. Tamanha paixão, é claro, acabam por me resultar em espasmos prazerosos a cada nova criatura criada que encontro por meu caminho. Desleixado ou descuidado — quem há de saber? —, enfeitiço-me por completo por tais figuras, amo-as como se me fossem caras de longa data, e, vez ou outra, vejo-me, não mais tão surpreso assim, a analisar a ópera e seus cantores, aos olhos desses personagens.

O mais claro, para qualquer um que me conhece: Bane. E ao senhor Bane dedico-me muito. Ao certo, nunca me vira tanto em nada ou ninguém, quanto nos lápis de olho e excentricidades de um imortal. Por essa razão, quiçá, muitos devem se surpreender ao saber que outras personas, cá eu, reservo cuidadosamente em que retomo ao prisma de seus olhos. É verdade, no entanto, do emaranhado de máscaras, as duas, a da romântica e a da realista, são as que vem por segundo em minha vida.

Ora, deves estar se perguntando, ansioso — ou deveras entediado — por que as duas? Por que não Aurélia Camargo — inocente demais para ser uma Merteuil — que com escárnio se vestiu e fez pouco dos homens que se jogaram aos seus pés, cultivando o amor, fantasiado de ódio, pelo único que a negara? Ou quem sabe Dorian Gray, demônio sedento, no qual a luxúria fizera morada, deturpando os santos e os pecadores?

Admito, muitos desses tons existem em minha pintura, mas são secundários. Detalhes de luz e sombras, cenários, minuncias que só são percebidas — e exercidas — quando cansados os olhos das demais três figuras, miram-se os demais ao fundo. Sim, além de Bane, definitivamente, sou Helena e Capitu.

  Primeiro, faz-se necessário explicar que as duas figuras em questão só, de fato, aparecem na presença do amor — ou de uma paixão intensa. Sim! Somente quando o brilho do interesse ilumina meus olhos, quando os significados parecem carecer de forma, é que as duas entram em cena para seus papéis na ópera.

Primeiro a romântica, e, em fim, a realista.

— Vivo como Helena, mas sempre me sobressaio como Capitu! — Já dissera várias vezes.

Vivo como Helena porque, jurar-te-ei amor eterno! Elogiarei os versos, devotarei a tua beleza, suspirarei com tua voz, afagarei os teus cachos! E que belos cachos! Escritor que sou, tecerei para ti, somente para ti, na ausência pungente de significantes, trovas sinceras — de um poeta fingidor —, darei mundos, fundos, símbolos e tons. Entregarei meus ouvidos capaz de ouvir e entender estrelas, e traduzirei, sussurrando em teu corpo, aninhado, o que elas dizem. Amarei-te como um bicho, simplesmente, e muito e a miúde, sei que poderei morrer de te amar mais do que pude. Sim, serei capaz de morrer sem ti. Definhar — de repente, não mais que de repente —, prostrado num canto, vertendo as lágrimas, sangue que jorra da alma, indo de encontro ao grupo que fora estudar a geologia dos campos sagrados...

...Até que você, meu caro... Encha-me o saco! Que não se atente ao aviso dado por Eros, faça pouco de minha fidelidade, do meu amor, ou simplesmente não o mereça! Eis, então, o momento de Capitu. 

— Queres ir para o seminário? Pois bem, serei o primeiro da filha, sentado com elegância na visão de todos. Ah, quer casar-me? Meu caro, sinto muito: não hei de esperar tanto para isso. Mas, não fiques triste, prometo-te dar meu primeiro filho para o batismo.

Ah, sim! Quanto mais tu te enamoras com Escobar — porque o sei que se enamoras—, mais paquerarei com o gajo de cavalo branco. Meus versos, admito, não serão os mais perversos, porque, para ser franco, não existirá mais verso algum. Teus quadros, ficarão pendurados feito uma natureza morta: por mais bela que seja, não irá se distinguir de uma pera — sem significados. No fogo ou no gelo, pegarei um navio para a Europa e só os deuses — isso é, se eles tiverem coragem de me espiar — irão saber de minhas peripécias por lá.

Em fim, enfim, fim.  

Porque não se não o disse antes, posso dizer-te agora: Se é para morrer, por favor, meu caro, que morra você.

sábado, 25 de novembro de 2017

Afoguei-me


Eu caminhava. Não com passos sóbrios, admito: sou devasso, libertino, escritor!  — Nunca existirá sobriedade em escritores — Então, não, não eram passos sóbrios, mas eu seguia, deveras. Um passo atrás do outro, desinteressado pelo percurso e vista que minhas tão fadigadas retinas alcançavam. Se cores haviam em tais cenários, para mim, eram cinzas — diversas variações de cinza: nenhum atrativo, todas iguais.

Até que naquela noite você entrou, passos incertos, cachos escuros e olhos profundos. O contraste do ordinário, exacerbaram suas cores únicas: azul, castanho, preto.  Como numa tela minimalista: não era preciso detalhes demasiados, técnica rebuscada, mas somente a beleza da simplicidade.

Belo, tropecei.

Sem avisos, sem alarmes ou mesmo recomendações, aproximei-me. Os deuses os sabem que não sou covarde, não há aventura que meu espírito ébrio e sedento não deseje, incessantemente, desbravar, contudo, fico-me questionando, se algum presságio me fosse dado, ouviria a trova do etéreo ou continuaria a navegar até você: se sabia o marujo de seu naufrágio, fraquejaria ou seguiria a remar?

Agora não há sentido em cultivar tais ideias, pois fui, sim, fui! Desprevenido, desarmado, desprecavido. Fui! E mesmo com tanta experiência, não notei o abismo que se abria perante a mim: sem fim aparente. Foi quando o canto começou, a melopeia que meu romantismo exagerado me impede chamar apenas de voz, e já não mais conseguir ouvir nada, apenas teu cântico, tuas palavras, teu som. Foi como se banhar num lago — Já o disse? —, calmo, profundo, demasiadamente escuro. Tolo, mergulhei com toda força, procurando chegar no fim, encontrar-te sob as águas. As primeiras horas se foram, as segundas também. Três, quatro, e ainda não sabia o que encontraria além da imensidão que restava. Como era belo o submerso... A cada segundo, algo de novo eu descobria, detalhes pequenos — aparentemente pequenos —, escondidos e velados, feito mosaicos daquele lago inefável, confortável, perigoso.

Desesperei-me — já era tarde demais.

Envolto de pensamentos turvos, banhado em tuas águas, não reparara até aquele momento que cada braçada que havia dado para perto de ti, em busca de tua essência, era o mesmo que precisaria fazer para voltar — e já estava tão longe! Afundara-me tão rapidamente em ti — sim, admito, fui afoito nesse mergulho —, que quando me pus a tornar, teus cachos negros já não mais me deixavam partir. Encrostara-se em meus pulsos, meus pés, em meu coração. Agarraram-me com tal voracidade, que já não era um nadador experiente, mas uma criança que mal sabia nadar.

As melopeias, as cantigas, os cachos, os olhos... Os teus olhos... Os desejos... Os meus desejos...

Afoguei-me, sem conseguir voltar. Afoguei-me, desejando ficar.

Afoguei-me, assim, de repente... Não mais que de repente.

Afoguei-me.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Texto de abertura da palestra "Arte e Psicanálise", 16/03/2017

Há quem diga que poeta é fingidor, e finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Que amor é fogo que arde sem se ver. Que Raimundo é apenas rima e não solução e que mais vasto que o mundo é o coração!
Muitas foram fontes deixadas pelos homens ao longo da nossa existência, como os mitos e as artes. Não por acaso, Freud bebia em demasia desses mitos, cheios de símbolos que mexiam — e ainda mexem — com os nossos desejos, para falar de sua metapsicologia. Muito menos é por acaso que estamos aqui agora, para falarmos sobre arte. Arte fala de desejos e de realidades. Mas de qual realidade? Desejo de quem? Frida Kahlo nunca se assumiu surrealista. “Pinto a minha realidade” — dizia ela. Frutos da sublimação, é impossível olharmos para a arte sem que nos questionemos: Até onde esses poetas fingem? Qual das cores de uma Coluna Partida é verdadeira?  Porque os versos, os acordes, as pinceladas de artistas tocam tanto nosso desejo ao ponto de estarmos aqui, nos debruçando para bebê-los, tal como fez Freud há mais de uma centena de anos?
Qual é o motivo do assombro, nos umbrais tais, ao ouvirmos o sofrer do corvo: “Nunca mais”? Porque o chiclete, que deveria ser eterno e cheio de prazer, logo perde o sabor insiste em cair das bocas? De quem é o coração que nos delata o crime? E por que infernos existe um Pássaro Azul preso no peito que insiste em querer sair? De quem é, afinal, o rosto perdido no retrato de Cecília Meireles? O dela, artista que escreve, ou o nosso, leitor que, tocado pelo desejo, sorve cada verso com avidez?
É por isso que eu lhes pergunto: De quem é que a arte está falando? De nós ou dela mesma?