Enviaram-me
um vídeo, certa noite. Na cena, entregue a penumbra, de início, pouco se
distinguia em meio as sombras e as luzes que piscava num ritmo singular. Deitado na cama, o luzir mostrava um corpo
magro, com tracejados suaves, que, com dedos finos, parecia brincar com óculos
de aros arredondados, descontraidamente. Era uma daqueles frames que de tão
natural e comum, parecia conseguir captar uma beleza da qual nunca seria
possível ensaiar.
—
O que você tá fazendo?! — perguntou, no momento em que percebeu estar sendo
filmado, entre risos — Para com isso!
A
câmera, então, aproximou-se, mostrando os detalhes antes apagados, revelando,
também o outro protagonista. A mão daquele que filmava se esticou, tocando
suavemente seu rosto, num gesto que não se poderia dizer ao certo de qual
natureza se tratava: sim, poderia muito bem ser um afago trocado entre amigos,
embora, naquela circunstância... Naquele cenário íntimo... Parecia significar
algo muito maior do que apenas um sentimento fraternal.
Ah,
sim, sim... Acreditem no que eu digo: os carinhos trocados ali,
indubitavelmente, era muito mais do que apenas um sentimento fraternal.
—
Estamos trabalhando numa cena! — respondeu o outro, que filmava, com a voz
rouca e também risonha.
Ele
não retrucou, sorriu mais uma vez, repousou-se apoiando o cotovelo na cama,
deixando-se filmar em silêncio, por fim. Nos olhos claros, a luz que ainda piscava
na parede oposta, refletia em sua íris, dando a impressão que seu olhar era o que
verdadeiramente luzia na tal cena. E talvez assim o fosse, na verdade — pelo
menos para o outro, esta era a explicação que fazia mais sentido, em meio as
loucuras de sua vida. Sim, a beleza não estava em nenhum outro lugar que senão
aquele em que se mantinha dedicado e firme para filmar.
No
entanto, como explicar isto agora? Como explicar para o outro que o enlace
entre os dois, o qual começara entre brincadeiras inocentes, apertava-se
infinitamente mais a cada segundo que se escorriam por entre os dedos
apaixonados. Ora, de certo faltavam-lhe palavras nas línguas dos homens para
descrever, com exatidão, tudo aquilo que se passava entre os dois, olhando-se
em silêncio, deixando-se sorrir e acariciar. Era uma espécie de descoberta que
ambos tentavam seguir como podiam, faziam o que achavam o certo a se fazer.
E,
como que se decidisse de que não adiantava mais toda aquela distância mantida —
ou será que realmente não conseguia se manter mais um segundo sequer longe? —,
aproximou-se um pouco mais daquele ínfimo, porém imenso espaço, sentindo suas
peles febris se tocarem; a sensação dos corpos, dos músculos, e até o som
arfante das respirações que pareciam se encontrar, enquanto suas bocas ainda
percorriam o trajeto restante de uma para a outra, acompanhavam-nos num
espetáculo que ambos desfrutavam.
E
assim, pouco antes de desligar, porém, antes que o beijo, enfim, pudesse se
concretizar, aquele que filmava sussurrou, esperando que as poucas palavras
pudessem fazer o inteiro sentido do que acontecia ali:
—
Isso é cinema
E
a cena acabou.
