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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Nunca mais - Capítulo Apagado



“Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o corvo disse: "Nunca mais!"  
— O Corvo, Edgar Allan Poe

Lucas
— Lucas, querido, acorde! — disse uma voz, que naquele momento soava amável, retirando-me do sono, acompanhada de um suave toque, que pertencia a minha mãe.
Acordei atordoado, não só por ser acordado no meio da noite por minha mãe, mas pela forma com qual me tratava... Havia anos, para mim milênios, desde que Catarina me chamara por “querido”. Anos, desde... Douglas e Amanda.
A luminária ascendeu, inundando meu quarto com uma luz que fez doer meus olhos. Sentada na cama, Catarina, a mãe, ainda me tocava o braço, entretanto, suas feições estavam diferentes, algo em seus olhos castanhos, ou mesmo a maneira que me encarava, denunciava certa apreensão... Medo.
Catarina temia alguma coisa?
— Vamos lá, Bela Adormecida! Não está esperando um beijo, está ?! — Dessa vez, a voz que se fez soar foi a de meu pai, escorado do outro lado do meu quarto, com um sorriso malicioso estampado nos lábios.
— A nossa família não pode ser normal uma vez na vida? — Perguntei, endireitando-me na cama, ainda grogue.
— Falou o homem que tem dois namorados!
— Alexandre, pare de gracinhas! — O tom de minha mãe saiu sério, embora, eu pudesse jurar que ela segurava um riso no canto da boca — Lucas, querido, preciso que você nos acompanhe um momento. Vamos, vamos! É importante!
Os dois saíram do quarto e me deixaram sozinho por alguns minutos enquanto me vestia de forma mais decente. Na sala, meus pais me esperavam tensos, de mãos dadas na altura do queixo, enquanto conversavam compenetradamente — se algum dia houvéssemos ido a igreja, arriscaria que estavam rezando, orando, juntos para alguma coisa.  Como se não bastasse o ar pitoresco da noite, os dois ainda se vestiam de formas esquisitas, como eu nunca os vira antes fazer.
Alexandre, meu pai, embora estivesse de roupas sociais, vestia um sobretudo cor de gelo, o qual se destacava em sua pele negra, e, em uma das mangas longas, o símbolo preto de um leão estampado enfeitava a roupa, numa espécie de brasão. Nos dedos, entrelaçados aos de Catarina, carregava inúmeros anéis de todos os tipos e tamanhos.
Minha mãe não usava seu terninho como de costume, mas uma longa camiseta preta com a gola recaindo sobre os seios, com um corpete de couro apertando seu quadril, que em nada parecia pertencer à ela.  Assim como meu pai, também trajava um casaco sobretudo com tons gelo, embora o símbolo, diferentemente de Alexandre, tratava-se de um enorme corvo o qual se empoleirava nos ombros. Instantaneamente, um verso se fez soar em minha cabeça, lúgubre, macabro — “Nervermore!”
— Tudo bem, não sabia que íamos dar uma festa temática. — comecei, tentando espantar a sensação ruim que o verso trouxera — Se eu soubesse, teria vindo de Magnus Bane! Herdei a maioria dos gliters da Natasha.
— Eu disse que ele faria piada com as nossas roupas! — meu pai sorriu, suavemente, estralando seus dedos, virando-se para mim.
Embora a piada, os dois pareciam absurdamente preocupados. Alexandre nunca estralava os dedos a menos que estivesse demasiadamente nervoso. Pera aí, eu estava falando sobre o estralar de dedos? Perdão pela falta de descrição. Onde estava com a cabeça?! Meus pais acordaram-me no meio da noite, agindo e se vestindo de forma absurdamente suspeitas, malas, livros e os mais pitorescos objetos amontoavam-se pela sala — Aquilo era um cajado?! — e eu estava falando dos dedos do meu pai? Alguma coisa em suas feições, ou a maneira com qual se comportavam pareciam gritar que os segundos atuais, não passavam de uma pequena introdução para algo nada agradável estava por vir.
— Tudo bem, o que é que está acontecendo aqui? — perguntei, sentindo a apreensão congelar meu peito — Para onde estão indo? Por favor, não me digam que é comprar cigarro porque isso é demodê demais!
Por alguns ínfimos milésimos, achei ter visto a tensão dos dois sumir, para logo após perceber seus ombros serem esmagados novamente pela tensão.
— Venha cá, Lucas. — disse minha mãe, estendendo a mão para mim — Eu fiz de tudo para que esse dia nunca chegasse, acredite em mim, mas nas circunstâncias atuais... Precisamos contar um segredo. Por favor, sente-se.
Mecanicamente, tomei o lugar que minha mãe me indicara. Os dois, no entanto, continuaram de pé, entreolhando-se numa conversa silenciosa. No celular sem sinal, o relógio marcava 2:45 da madrugada. O silêncio se perdurou por alguns segundos que se arrastaram.
— Vocês vão me contar que eu sou adotado, não vão? — Tentei, novamente para quebrar a tensão que se instaurara — Se for, sinto informar: já é tarde demais. Sei disso há anos. Décadas!
— Desde quando você faz tantas piadinhas assim? — Meu pai tomou a frente e se sentou ao meu lado, pondo a mão, paternalmente, em meu colo — Essa é uma conversa séria, Lucas. Precisamos de toda sua atenção.
— Nós iremos viajar e há algo que precisamos contar antes disso.
— Vocês sempre viajam! Qual o problema dessa vez?
— Não, não, Lucas, dessa vez é diferente. Há uma chance de... Não voltarmos.
Finalmente, o motivo daquela tensão parecia tomar uma forma, uma forma assustadora. “Nevermore”, a perversa voz ressoara por meu corpo, numa badalada que ressonava desagradável em minhas costelas. Era um verso pavoroso demais para se recordar após uma frase como aquela dita por Catarina.
— O quê?! — pulei para fora do sofá, enquanto minha voz subiu algumas oitavas — Que porra de brincadeira é essa, Dona Catarina?
— Lucas, por favor, escute o que eu e sua mãe temos a dizer...
— Mas ela está dizendo que vocês não vão voltar!
— PODEMOS não voltar — corrigiu-me meu pai, como se aquilo, de alguma maneira, pudesse amenizar a situação.
— Oh, sim! Estou muito mais tranquilo agora! —  Sarcasticamente retruquei, sem pensar, deixando que o tom ácido simplesmente escorresse de meus lábios — Por favor, continuem falando sobre essa viagem da qual podem nunca mais voltar. A mudança do verbo fez toda diferença para narrativa.
— Pare com isso! — Ralhou minha mãe, com estranho descontrole no tom rígido. Mesmo que não me fitasse, pondo-se de frente a pintura da sala, arriscava a dizer com certa fragilidade, ao julgar pela forma com qual seus ombros estavam caídos. — Você é um Holanda. Comporte-se como tal!
 Meu corpo tremeu, como se as palavras de Catarina fossem expelidas junto de eletricidade. De rosto quente, podia sentir meu cenho franzir, enquanto meus olhos não paravam de fita-la.
 — VOCÊ DE NOVO COM ISSO?! FODA-SE ESSE NOME INFELIZ, CATARINA! — Retruquei, com a voz mais grosseira do que eu esperava. Embora não quisesse saber se estava mantendo o prumo ou não, o controle começava a escorrer por entre meus dedos — O que diabos um nome de família tem a ver com uma situação como essa?!
Então ela se virou, imponente e de nariz em pé, austera como sempre fazia. Seu olhar, no entanto, denunciava uma insegurança destoante de si e da quimera que buscava passar, feito um impávido colosso o qual, lentamente, derretia-se por dentro.
— Tudo, Lucas, eis a questão! Esse é o momento em que ser um Holanda significa tudo! — seu tom também estava descontrolado, descompassado. Como que houvesse percebido, suspirou, tentando tonar a rigidez usual — Eu sei que você me achava maluca por ficar repetindo essas coisas, mas era como conseguia te contar. Esse é o momento em que todos nós, mais do que nunca, precisamos carregar a responsabilidade de sermos Holanda, da maneira que pudermos. É um fardo que nunca queria que fosse seu. Sente-se.
— Sente-se... — Ratificou meu pai, tocando suavemente meu braço.
— Tudo bem, estou atendendo a fixação de vocês de estar sentado. Então, onde querem chegar com todo esse papo de família Holanda? Por acaso que vocês vão me falar que são personagens de Anne Rice ou só esquisitos mesmo?
Meu pai sorriu e meneou a cabeça, enquanto minha mãe novamente suspirava, voltando-se impaciente para outro lado.
— Spolier Alert! Você se surpreenderia como está correto em partes — Sussurrou meu pai, levantando-se e indo em direção minha mãe, tomando-a pela mão num gesto de afeto e suporte — Esse é o momento, minha querida.
Catarina assentiu, aproximando-se de mim, porém sem soltar da mão de meu pai. Sentaram-se ambos e sem me dar espaço para alguma piadinha, começou a falar.
— Nossa família é mais antiga e importante do que você imagina, Lucas. — a voz de minha mãe era profunda, seus olhos castanhos estavam pesados, densos, fitando um momento bem longe dali — E o mundo não é bem como você imagina que possa ser. Aliás, preciso me corrigir: conhecendo você e literatura que lê, talvez o mais correto é que o mundo é exatamente como seu desejo pede, mas que sua razão desmente...
Minha mãe fez uma longa pausa, para mais um suspiro intenso. O silêncio era absoluto, quase sepulcral. Exceto pelas nossas respirações pesadas, nada mais podia se ouvir, parecendo que o mundo parara também a pedido de Catarina e atentava-se para sua narrativa. Finalmente, ao parecer encontrar os significantes corretos, minha mãe voltou seus olhos nos meus, prosseguindo.
— Como seu pai falara, você está em partes certo. Na raiz de nossa família, Tomaz e ela — Falou, apontando para a mulher no quadro, de pele amendoada e cabelos negros, que pertencia a nós a eras — Vitória Holanda são vampiros. Vitória, na verdade, além de Vampira é uma bruxa, uma das mais poderosas bruxas que já existiu.
Minha boca se abriu, em menção de palavras que foram interrompidas por meu pai.
— Antes de continuarmos, e provavelmente, antes de contar mais uma piadinha. Acredito que esse seja mais uma de nossas conversas de cerveja, não é?
Foi então, que algo aconteceu. Algo indescritível. Completamente inimaginável, para mim, pelo menos. Com um leve movimento de mãos de meu pai, a geladeira tremeu e uma cerveja voara diretamente para sua mão. Assim! Como se estivesse sido controlada por...
MAGIA?
Meu corpo pesou feito chumbo. As palavras que uma vez se formara em minha mente, pareciam escapar todas pelos lábios abertos, em choque. Para falar a verdade, era como se meu próprio espírito estivesse sendo arrastado para fora de meu corpo por águas pesadas e gélidas. Finalmente eu entendia a razão pela qual haviam me mandado sentar, e agradecia por isso.
— Alexandre!
— O que foi? — Meu pai sorriu, e com estalar de dedos, a tampinha de cerveja foi pelos ares. Oferecendo a mim, como ele sempre fazia quando precisávamos conversar, completou — Apenas uma. Para você relaxar e comemorar. Esperei mais de vinte anos para mostrar isso!
Recebi a cerveja de forma atônita e mecanicamente tomei um grande gole — quase esvaziando a garrafa de única vez.
— Não beba desse jeito, garoto! Precisamos de você sóbrio!
— Um segundo para ele, Catarina! Ele está enfrentando a verdade... E a verdade é que ele finalmente está percebendo que todas as vezes das quais pedi para buscar cerveja, foram em vão, pois eu poderia ter feito isso sem levantar do sofá.
O líquido gelado transbordou da minha boca, com um riso. Por mais atordoado que estivesse, a cerveja pareceu melhorar um pouco meu estado.
— Então, quer dizer que vocês... vocês são bruxos? — perguntei, mesmo que pergunta soasse ridícula por inúmeras razões. Mas o que poderia fazer? Não conhecia o manual: coisas inteligentes para se falar quando seus pais revelam segredos mágicos. — Por que nunca me contaram?
— Porque, por mais tentador que possa parecer, um mundo da magia é extremamente perigoso e nem sempre bonito. Mortes, traições. Na história dos homens, houveram aqueles que abusaram de seus poderes e fizeram coisas terríveis. O momento em que vivemos é um desses exemplos.
— O que está acontecendo, Catarina? Vocês precisam de ajuda? Há algo que eu possa fazer?
Catarina sorriu e segurou minha mão, novamente com ar maternal que há eras não experimentava.
— Eu já disse. Precisamos que você seja forte. Que fique bem enquanto estivermos fora.
— Mas por que vocês precisam ir? — perguntava, sentindo cada palavra arranhar minha garganta — Para onde vão?
— Ainda não sabemos — respondera meu pai, de tom sério, como usava poucas vezes — Não sabemos para onde iremos. Mas precisamos ir. Você, em caso de... Não voltarmos, será o último Holanda. Precisamos que você esteja firme e que tome seu papel perante os bruxos algum dia.
— Mas eu sou bruxo?!
— Não, felizmente não — minha mãe apertou meus dedos, antes de levantar-se e ir para a imensa estante de livros que ficava na sala de estar da casa deles. Mesmo tendo lido bastante, nunca chegara a ler todos os livros de meus pais — Tentamos fugir desse mundo há anos, mas é impossível.  Nunca contamos para você, porque pelo menos a sua vida deveria ser normal. Agora, no entanto, o dever nos chama e não podemos te contar tudo. Embora... — disse, voltando para perto de mim com um imenso livro que eu nunca vira antes — Embora esteja aqui toda a história da nossa família. Todos os Holandas escreveram suas memórias, um dia você precisará escrever também, e tenho certeza que escreverá melhor do que todos nós.
— Por que não posso ir com vocês?
Lentamente, um nó ameaçou enforcar-me a garganta. Não estava gostando da forma com qual os dois falavam. As palavras, o tom sublime e de despedida, exalava a certeza de que os dois se encaminhavam para morte, e de bom grado! Minhas mãos tremiam descontroladamente, ameaçando derrubar o restante da cerveja que estava em minha garrafa. Percebendo meu nervosismo, meu pai segurou forte minha mão, dando um grande pigarro.
— Você deixaria Douglas e Amanda, meu filho?
O nome dos dois pesou-me os ombros, trazendo-me a realidade. A nossa realidade, a que julgava ser nossa, pelo menos, e que a duras penas íamos construindo. Alexandre estava correto, se ir com eles significasse abandoná-los, ou seria incapaz de prosseguir com um único passo sequer.
— É mais seguro para você não nos acompanhar. — recomeçou novamente minha mãe, porém, logo foi interrompida com o badalar da campainha. Apreensivos, meus pais novamente trocaram olhares silenciosos que fora finalizado com o afastamento de meu pai — Lucas, meu filho, temos pouco tempo e precisamos de sua atenção mais intensa. Precisamos saber que você vai ficar bem, que estará seguro. Queremos que fique com a casa, essa casa. O apartamento em que você está, já está sendo vendido e todo o nosso dinheiro fora transferido para sua conta no banco. É muito importante que você fique com a casa, entendeu? Não a venda. Fique com ela!
— O que tem demais com ela?
— Eu e seu pai já iniciamos o ritual de proteção. Antes de irmos embora, nenhum bruxo ou bruxa poderá ser capaz de lançar um feitiço se quer dentro desta casa, é uma maldição absoluta e poderosíssima. Só assim você ficará seguro. E Lucas...
Por um segundo, minha mãe parou, ponderando novamente suas palavras. Num movimento rápido, pegou do pequeno bolso de seu sobretudo, três anéis os quais reconheci no momento em que os vi. Tratava-se da aliança de meus pais. Não, eram alianças bem mais antigas do que isso. Antes deles, já haviam pertencido aos meus avós, e aos avós antes deles também — eu deveria ter desconfiado que alguma coisa não tava certa na família.
— Eu sei que posso não ter sido a melhor mãe nesse tempo. Sempre exigi em demasia de você e falhei terrivelmente sobre... Sobre seu namoro. Sua nova família. Mas conversei com seu pai e entendemos a importância de protege-los também... Então, o que eu quero dizer é que você tem a nossa benção. Não, mais do que isso, eu quero que você os chame para morar aqui também. Peça-os em casamento.
— Mãe, a senhora não precisa...
— Eu sei que não — insistiu, depositando as alianças na palma de minha mão — Tomamos a liberdade de replicar a aliança masculina para Douglas. Nem se preocupe com o tamanho, ele se adapta ao novo dono, só assim esse negócio de alianças daria certo na vida real. Por favor, eu só quero que você fique bem.
— Quem diria que a filha era mais louca que o pai!
As palavras de meu pai retiraram-nos da bolha que havíamos nos colocados. Ficamos tão absortos em nossa conversa que nem se quer tomamos ciência de quer meu pai já retornara para a sala, acompanhado de um outro homem ao seu lado, de pele pálida e cabelos negros. Atordoado, pensara no início que se tratava de Douglas, mas seu tom de voz afastou qualquer dúvida.
— Catarina Holanda, aqui estou, como combinado — Disse, e sua voz soava rígida, até desconfortável ou anacrônica em alguma medida — Esse é o garoto da nova geração?
— Lucas, esse é Edgar Menezes. Um amigo de família de longa data.
— Mais longa do que meu ego gostaria de afirmar, garoto.  — falou, abrindo um sorriso encantador. Levantei rapidamente para cumprimenta-lo e perdi o equilíbrio, tropeçando em meus pés — De qualquer maneira, é um prazer conhece-lo.
Apenas sorri de forma abobalhada, enquanto sentia meu rosto corar. Por alguma razão, eu começava a me sentir zonzo. Trôpego. Bêbado. Mas era impossível, eu havia apenas tomado uma única cerveja!
— Precisamos deixa-lo sob seus cuidados, Edgar. — Minha mãe se levantou, pondo-se entre eu e o rapaz que parecia não ser tão mais velho do que eu — Precisamos do seu serviço. Não podemos mais gastar nossa magia, por isso, queremos que você altere sua memória.
— O quê?! Vocês vão o q-q-quê? — minha língua enrolava em minha boca — Eu não posso esquecer de tudo isso!
— Até o momento certo, você irá esquecer. Se um dia precisar delas, Edgar virá até você.
— N-não, Ca-Cata — novamente, ao tentar andar, meus pés pareceram chutar um ao outro e pendi em direção ao chão. Teria caído, no entanto, se Edgar não houvesse parado ao meu lado e me segurado.
Uma careta tomou o rosto de minha mãe, que deu de ombros, seguindo em direção ao meu pai.
— Precisamos terminar os encantamentos. Depois desse feitiço, nenhum bruxo que não seja um Holanda ou objeto de nossa propriedade poderá utilizar magia aqui dentro. Ficaremos esgotados demais para protege-los. — meus pais se aproximaram da estante de livros, e minha mãe colocou-o lá novamente, e, como uma pedra lançada ao mar, o livro se perdeu na multidão de todos os outros — Por favor, vão para cima e nos esperem lá.
Juro que tentei protestar. Juro que minha cabeça mandava meus membros se moverem, mas eu estava paralisado. Nada parecia me obedecer. Lentamente, Edgar me apoiou em seus ombros e me encaminhou para o meu quarto na penumbra. Zelosamente, repousou-me na cama e sentou-se ao meu lado.
— Não acredito que eles doparam o próprio filho. Catarina é a mais durona de todas as gerações, sabia disso, garoto? — falou, alisando os cabelos negros, os quais se assemelhavam com penas de corvo. Edgar possuía uma voz galante, praticamente sobre humana — Não deveria se preocupar com o que vá acontecer com ela. Vaso ruim não quebra.
Tomando toda a força que sumira do meu corpo, virei para Edgar, sentado em minha cama com uma postura relaxada e despreocupada. Seus olhos, profundos e de idade imensurável eram escuros, quase pretos.
— Mudemos de assuntos. Diga-me, você tem namorada? — Pausa — Ou namorado?
Assenti, pesadamente..
— Dois. Os dois.
— Dois?!  — Edgar pareceu surpreso com minha resposta, ao mesmo tempo em que parecia se divertir — Olha só! Espero que Tomaz não pense que é influência minha, afinal, nos conhecemos agora!
Com dificuldade de respirar, assenti, mesmo sem entender muito do que acabara de falar. O ar da casa parecia pesar a cada segundo que passava. O quarto, que antes estava entregue a penumbra, agora era iluminado por cores de todos os tipos e intensidades. O chão e a parede vibravam, feito um casebre atormentado por um terremoto. Ao fundo, vozes — não só a dos meus pais, mas inúmeras outras — soavam numa melopeia fúnebre, tal qual a própria morte, suas filhas e rebanho, juntassem ao cortejo do eterno. Era horrendo e belo, em igual maneira.
Então era isso que era magia, afinal?
— Quem é Tomaz?
— Tomaz Holanda é seu tataratara-alguma-coisa-avô, eu parei de contar depois da quinta geração. É o seu ancestral e meu melhor amigo. Embora aquele bastardo tenha sumido há algumas décadas. Ele e Vitória, são os primeiros Holandas que sua mãe tanto se orgulha.
Tudo voltou a ficar preto, e escuro. Alguma coisa no ar, no entanto, parecia estático, cheio de energia. Edgar olhou novamente o quarto, com tédio e desinteresse. Voltou-se para mim, no entanto, com um sorriso malicioso. Mesmo que sua figura estivesse começando a virar um borrão com o soturno, pude perceber dois pequenos filetes de canino pareciam fugir de seus lábios.
— Se eles dominaram esse tipo de encantamento, não vai ser difícil derrubá-los. Bom, como você já deve ter percebido, eu sou um Vampiro. — Começou, aproximando-se de mim. Com um toque em minhas costas, endireitou meu corpo para que eu ficasse sentado, ereto, olhando diretamente em seus olhos. Por mais que estivesse ali, falando comigo como um ser vivo, seu toque, no entanto, era frio, gélido, morto. — Não, antes que me pergunte, não brilho no sol, apesar de ter alguns truques na manga. Sua mãe quer que eu altere suas memórias, então, toda essa noite não passará de estranhos pensamentos e reminiscências que um dia, quem o sabe, voltará à tona. Se um dia acontecer, significa que nos encontramos novamente. Não fique constrangido. — sua voz era firme e melodiosa, com um ator de filmes deveria falar. Todas as palavras eram proferidas com rigor excessivo, embora, ainda sim, eu achasse absurdamente galante — Tenho outras formas não tão glamorosas de fazer isso, mas prefiro não fazê-las. Ah, e por favor, não confunda, isso são apenas negócios.
Dito isso, Edgar pressionou seus caninos no canto inferior de sua boca, fazendo com que dois filetes de sangue escorressem por eles. Com a língua, espalhou o líquido feito tinta rubra por sobre os lábios. Seu aperto se fez firme em minhas costas e ele se aproximou de mim, dando-me um pequeno beijo.
Meu corpo se contorceu de alguma forma — não sabia se era medo ou prazer —, parecendo que uma corrente elétrica acabava me percorrer inteiramente. Meus músculos enrijeceram, todos eles, para logo depois relaxarem, de uma forma inefável.
Edgar deixou meu corpo cair lentamente sobre a cama e se levantou, dando uma pequena piscadela para mim.
— Está feito! — Disse, quando duas pessoas adentraram em meu quarto.
Meus pais me olhavam, seus rostos estavam turvos, as linhas de suas feições eram borrões que se confundiam com o fundo, feito as pinturas de Cézanne.
— Lucas, lembre-se do que ensinamos a você — dissera meu pai, sentando em minha cama e tocando meu rosto afavelmente — Temos orgulho por ser quem você é. Corajoso. Bravo. Eu sei que daria um bruxo excepcional e você tenha sua própria magia. Seu próprio encanto.
Catarina o acompanhou e sentou-se do meu outro lado. Recuperando as alianças que haviam caído sobre a cama, colocou-as novamente em minha mão e apertou com força. Eu gostaria de dizê-los que os amava. Precisava agradecê-los pelo lar que me deram e por terem me amado mesmo não sendo sangue do sangue deles. Precisava dizer que foram ótimos pais, que esperava vê-los rapidamente. Precisava vê-los novamente. Mas meus lábios não respondiam. Meu corpo não respondia. Apenas fiquei ali, vendo-os como borrões, entre a escuridão, esperando que pudessem entender as palavras em meu olhar.
— Nós te amamos, meu filho.
A voz de minha mãe foi a última coisa que ouvi, antes da escuridão tomar completamente minha visão, como tintas negras encharcando um papel. Eu não sabia naquele momento, mas essa era a última vez que escutaria a voz de minha mãe ou que receberia seu toque. No momento seguinte, em que adormeci profundamente, as lembranças daquela noite se perdiam a imagens confusas de um sonho distorcido em que um corvo sobrevoava meu quarto, respondia todas as minhas súplicas, entoando:
— Nunca mais.