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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Dossiê de separação


- Quando foi que nos tornamos tão estranhos?
Tal era a pergunta a qual cansava de me fazer, quiçá teria uma resposta por defina - nem por mim, muito menos para ele.
Às caraminholas de minha mente, por muitas noites, roguei-lhe o dossiê regido por minha lembranças para a resolução de tal caso. Se razão alguma existia naquela separação, de fato eu pudesse encontrar nas reminiscências do meu passado. Do nosso passado.
Em algum lugar, por algum momento, fomos cúmplices. Sim, momentos raros, deveras, mas que por certo existiram. Esse vínculo profundo - pelo menos,  vínculo e profundo para mim - acontecia sempre que ficávamos sozinhos, verdadeiramente sozinhos, só nós dois, sem a presença ou espectro de outrem. Apenas nossos lanceios, repertórios, versos, sim, só nós dois. Esses eram momentos importantíssimos para mim, pois parecia ser nessas ocasiões em que verdadeiramente nos encontrávamos.
Talvez por isso eu gastasse tanto, inicialmente, daquele nosso parque que costumávamos ir para conversar e bater os pés, era o nosso lugar, o porto Seguro para se atracar depois de dias ao mar;  com a invasão deste, sobrou-nos muito pouco, quase nada. Aliás, a bebida fora a única coisa que nos sobrara de quase nosso. Eu gostava de beber com ele também,  pois nessas ocasiões, parecíamos nos reconhecer efêmeros lampejos. Eram ínfimos segundos, por vezes, num olhar desconfiado, contido em um sorriso de confidência ou afago disfarçado.
Recordo-me, inclusive, de desejar infinitamente a nossa insônia quando estávamos juntos na mesma cama, só para vislumbrar essa flamula de cumplicidade que tanto estimava.
Não era Eros, que fique bem claro, embora eu o quisesse para mim. Alguém há de me dizer, por ai: se eros fosse, talvez não havia de me doer tanto a ausência.
Sim, a amizade transcende Eros - por mais que esse tenha capacidade de nos cegar.Explica-se daí esses poucos casais que se apartam continuando desejosos pela amizade. “Antes de qualquer coisa, somos amigos”, dizem.
Parecerá clichê, embora muito certo para mim, o pensamento que reiterarei: Amigos são a família eleita. É, muitas vezes, um laço tão demasiado forte, tão mais intenso, que pouco se tem a falar das amarras que aprisionam o sangue. É amar um irmão escolhido por si, e por todas as aventuras vividas.
Outra prova de sua supremacia entre amigos, é que há, em alguns amantes mais sóbrios, a ideia de efemeridade nos relacionamentos ou não possibilidade do eterno. Logo, para aqueles que conhecem a fugacidade do amor, sempre se espera, a qualquer momento, perder um amor, mesmo que a contra gosto de nós, seres amantes. Contudo, é certo que não se espera nunca perder um amigo: cúmplice e irmão.
Por tal razão, ratifico minhas digressões pretéritas: Eros, por mais que cegue, pois cega, não vence a Filos. Se amigos se afastam por paixões, é que de fato, nunca deva ter existido, cativos em seus corações, o sentimento filial.
Mas tornando ao fluxo cortado, tenho que concluir sobre o passado: Momentos estes, de real sinceridade e mútua cumplicidade solitária, eram por demasiado pouco, tão pouco, que eu recém pragmatismo insiste em acusar que nunca existiram. As Musas e minhas trovas passadas poderiam facilmente me servir de testemunhas neste tribunal. Sempre olhamos de formas distintas um para com o outro: eu era o devoto fervoroso, cheio de anseios e súplicas, tu, não passava de um anarquista Salvador, quase surdo, demais cego, que de mim sempre se utilizava quando bêbado ou em momentos que melhor lhe fosse aprazível. Restava-me, então, as sobras. Sim, na importância das coisas era tudo, para bem depois ser eu. Nunca me vi ser o primeiro em nada, para ti.
Claramente, seria injusto se lhe acusasse, se assim parece que faço, de completos descasos. Ouvia-me, sim, em alguns momentos, que talvez fosses sinceros e espontâneos, embora o que predominasse fosse-lhe a aparência de obrigação ou somente algo como um prêmio de consolação, a bala pobre entregue a um menino que não ganhara seu presente desejado. Como disse, essas lembranças de tua presença existem, pouquíssimas deveras, num passado remoto, já me quase esquecido.
(Há de se dar razão a Schopenhauer: somente a dor é positiva e só ela que se faz sentir, caso contrário, não seria o mar de mágoas que estivesse transbordando por fazer essa catarse da qual me põe a escrever, e sim, minhas letras estivessem trabalhando numa ode de nosso pontuais momentos de cumplicidade.)
Agora pode-se explicar com bastante facilidade meu futuro alíbi de ausente. Por sempre me ter em último, passei a colocar outros em primeiro. Aí também me veio Eros - do qual, já bem o disse, cega -, e já não mais te via com mesma devoção, ou desejava-te em nossa solidão. Sem devoção, parei de te ter fé. Na falta de cumplicidade, passei a aventurar-me sozinho e a trovar a outros o meu amor. Verso por verso fui me ausentando de tua vida até sobrar-te o silêncio, que então o fez reclamar.
Há de se dar razão a Schopenhauer.
Acusou-me, então, de ausente, afastado, desnaturado, pagão. Mal sabia ele que, na verdade,  acusava-me dele próprio. Assim, afastamo-nos a nossa localidade contemporânea. Repliquei-lhe a aprendizagem, e pronto.
Oh, quão dura fora essa aprendizagem. Uma vez que, mesclada com a falta deixada em meu peito, a cada novo elegível a amigo, temo ao ver qualquer traço semelhante. (Aí vindes outra vez, inquietas sombras!) Fecho-me, fustigado com a possibilidade  futura. Vou-me embora sem maiores explicações, em busca de outro possível porto a atracar.  O afastamento acabou-se por tornar o operante de sua pintura.
Sim, era mais que irremediável a falta sentida por mim. Mas não mais tu, meu caro amigo, nem mesmo eu - sei, pois que somos homens diferentes. Refiro-me a nós, naquele juvenil passado, de distinção inefável da fenomenologia do hoje.
Porque o homem a quem ele se tornara não mais me agradas, e sei que a recíproca recai sobre mim. Orgulhosos, insólitos. Secos. Sem fé ou devoção, somos, deveras, homens diferentes agora...
         ... É por tal razão que não escrevo uma carta de conciliação e sim um dossiê definitivo de nossa separação.