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terça-feira, 4 de novembro de 2014

O Retrato

Há momentos em que o artista deve se diferir dos costumes de sua antiga persona, para que possa desbravar novos mares criativos. Dessa forma, o Demiurgo dentro de mim haverá de se resignar, porque hoje não criarei cenários ou pseudônimos para trovar os fulgores de minha paixão. Tentarei algo novo, uma vez acreditando que só assim te farei justiça. Pintar-te-ei como és, apenas; serás, nessa eternidade efêmera, o meu próprio Diego Rivera, pois me dedicarei com paixão a cada traço, mesclando e ignorando as diversas realidades que existem entre nós ― quem sabe assim meus anseios vanguardistas se sobressaiam e tenham valor.
Nunca imaginei o caminho que seguiríamos quando nos permitimos aquele primeiro olhar. Sim, ainda me recordo da impressão que tive... Cada um tem, em torno de si, uma canção que impregna o ambiente a sua volta, as primeiras impressões são isso: a sensação que temos da música de cada um; e a sua ― devo dizer ―, era apenas acordes seguidas de mais acordes, sem cessar, como uma canção pronta para ser ouvida, tal qual desesperada para ser cantada; e nisso residia um toque de mistério, o suficiente para enfeitiçar qualquer marujo sedento, e assim o fez: enfeitiçou-me. Daí, então, as Moiras exerceram seus papéis e teceram nossos caminhos, a minúcia com qual foi feito seu trabalho no tear é inegável para todo aquele que se pusesse a ponderar sobre o ocorrido. Diga-me, quantos marinheiros havia naquele porto? Quantas partidas e chegadas se fizeram antes e depois de nós? Percebe a sutileza dos fatos, o arranjo sútil de toda a ópera? A chance de nosso encontro era ínfima em meio a tantas variantes que poderiam nos arrastar para caminhos completamente opostos, entretanto, cá estou eu, forçando minhas memórias para te eternizar, como tantas outras paixões que tive! Desculpe minha digressão, mas juro necessidade, já que o Destino é uma tinta superestimada para a pintura perfeita, e nós, acredite, estivemos intensamente imersos nela...
Sei, no entanto, que, para uma obra completa, isso não basta. Além do quê, há ainda inúmeras belezas a serem destacadas, como o tom indeciso de tua pele, ora morena, ora branca, ou teus negros cabelos cultivados com vaidade e tento. Ah, sim, a vaidade... Não te iludas em pensar que me passa despercebido o teu anseio de se assemelhar a Narciso, uma vez que tudo o que fazes entrega-te: teus gestos, tua música, também não é outra a razão de premeditares tuas palavras tal qual faria um poeta fingidor. A vaidade... Sim, é a única roupa que não deixas de vestir, embora seja o que te torne humano e digno de ser pintado por mim, pois a perfeição ― desde que não seja aquela criada por meus olhos apaixonados ― não me agrada.
Não me esquecerei de pôr suas cicatrizes espalhadas pelo corpo nos devidos lugares em que as vi, e peço perdão se passo uma ideia distinta, mas não quero tirá-las nunca, porque entendo que faz parte de ti, são os teus troféus, não é mesmo?... E sobre teus olhos: negros. Escuríssimas janelas, tão profundas quanto tua canção, mares arredios e misteriosos, que ― já disse ― enfeitiçam os sedentos, encantam os mais ingênuo; os desatentos, os completamente atentos... quantos foram os tragados por estes olhos? Quem são aqueles que sabem ― ou pelo menos desconfiam ― dos segredos velados sob tua íris? Será que eu o sei? Oh, olhos feitos os teus, caro amigo, não foram criados para serem completamente verdadeiros, haverá, sempre, mais um segredo a ser desbravado. Essa é a única certeza em meio à imensidão de dúvidas... Mas não nos demoremos mais, pois ainda tenho muito trabalho a fazer!
Seu sorriso ficou propositalmente para o final, pois ainda me encontro indeciso de como o pintarei. Esta parte, devo dizer, requer minúcia, destreza, sensibilidade... Uma vez que a menor alteração pode levá-lo de sacro a profano. E como sei que te preocupa a forma com que te veem, questiono, então: como queres que te vejam? Qual seria a melhor forma de te eternizar em minha obra? Retrato-te da forma que veneram, divinamente imaculado, quiçá celibatário e completamente missionário? Pôr-te assim agradaria um público maior ― sem sombra de dúvidas! ―, embora seja mais uma imagem perfeita de ti, dessas, acredito que já haja tantas espalhadas por aí. Entenda, se eu cedesse ao completo agrado alheio ― bem como tu o fazes ―, minha obra não seria nova, apenas mais uma...  Por isso, os puritanos teus amigos que me perdoem, porque escolherei a forma profana, pois é a única na qual te vi liberto para sentir e demonstrar estampado nos lábios cada um de teus desejos. Sim, sim! Dessa forma! Eis como irei te pintar: sorrindo cheio de malícia como naquela manhã, despido de barreiras e teorias moralistas― e não te preocupes, tu ficas lindo de tom malicioso, principalmente quando levanta a sobrancelha! Porque é quando melhor te vejo e sei que és tu, não outro ser talhado de perfeição e santidade que poderá fugir a qualquer momento para longe. Não, não, eu quero ficar assim, pertinho... Aninhado... Entregue... Vendo-te por completo e deixando que me veja assim também, porque essa é  a nossa poesia e, por mim, deveríamos continuar a ser poetas para sempre!
Infelizmente, terminando meus últimos traços, percebo que certas limitações assolam até mesmo o mais exímio pintor. Nunca aqueles que vislumbrarem o teu retrato poderão ouvir o tom de tua bela voz; o tecido e a tinta enrijecida serão as únicas coisas que sentirão ao tocar esta tua falha projeção, jamais será tua pele quente e suave que tive eu a chance experimentar. Tua conversa aprazível, de conteúdo inteligente, assim como teus beijos e afagos, viverão apenas como vultos incertos nas mentes daqueles amantes sonhadores que porventura se deixarem levar em meio a tantos devaneios... Imperfeições de um artista imperfeito, talvez.  

Agora, terminado meu labor, posso enfim te colocar ao lado dos tantos que já pintei, e mesmo que fujas amanhã, guiado por tuas estrelas, o fruto de nossa efêmera poesia permanecerá eternamente nesta obra, servindo de lembrança para tudo o que vivemos... Que nos apaixonamos.

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