Há momentos em que o artista deve
se diferir dos costumes de sua antiga persona, para que possa desbravar novos mares
criativos. Dessa forma, o Demiurgo dentro de mim haverá de se resignar, porque
hoje não criarei cenários ou pseudônimos para trovar os fulgores de minha paixão.
Tentarei algo novo, uma vez acreditando que só assim te farei justiça.
Pintar-te-ei como és, apenas; serás, nessa eternidade efêmera, o meu próprio
Diego Rivera, pois me dedicarei com paixão a cada traço, mesclando e ignorando
as diversas realidades que existem entre nós ― quem sabe
assim meus anseios vanguardistas se sobressaiam e tenham valor.
Nunca imaginei o caminho que
seguiríamos quando nos permitimos aquele primeiro olhar. Sim, ainda me recordo
da impressão que tive... Cada um tem, em torno de si, uma canção que impregna o
ambiente a sua volta, as primeiras impressões são isso: a sensação que temos da
música de cada um; e a sua ― devo dizer
―, era apenas acordes seguidas de mais acordes, sem cessar, como uma canção pronta
para ser ouvida, tal qual desesperada para ser cantada; e nisso residia um toque
de mistério, o suficiente para enfeitiçar qualquer marujo sedento, e assim o
fez: enfeitiçou-me. Daí, então, as Moiras exerceram seus papéis e teceram nossos
caminhos, a minúcia com qual foi feito seu trabalho no tear é inegável
para todo aquele que se pusesse a ponderar sobre o ocorrido. Diga-me, quantos
marinheiros havia naquele porto? Quantas partidas e chegadas se fizeram antes e
depois de nós? Percebe a sutileza dos fatos, o arranjo sútil de toda a ópera? A
chance de nosso encontro era ínfima em meio a tantas variantes que poderiam nos
arrastar para caminhos completamente opostos, entretanto, cá estou eu, forçando
minhas memórias para te eternizar, como tantas outras paixões que tive! Desculpe
minha digressão, mas juro necessidade, já que o Destino é uma tinta
superestimada para a pintura perfeita, e nós, acredite, estivemos intensamente
imersos nela...
Sei, no entanto, que, para uma
obra completa, isso não basta. Além do quê, há ainda inúmeras belezas a serem
destacadas, como o tom indeciso de tua pele, ora morena, ora branca, ou teus
negros cabelos cultivados com vaidade e tento. Ah, sim, a vaidade... Não te iludas
em pensar que me passa despercebido o teu anseio de se assemelhar a Narciso,
uma vez que tudo o que fazes entrega-te: teus gestos, tua música, também não é outra a razão de premeditares tuas
palavras tal qual faria um poeta fingidor. A vaidade... Sim, é a única roupa
que não deixas de vestir, embora seja o que te torne humano e digno de ser
pintado por mim, pois a perfeição ― desde que não
seja aquela criada por meus olhos apaixonados ― não me agrada.
Não me
esquecerei de pôr suas cicatrizes espalhadas pelo corpo nos devidos
lugares em que as vi, e peço perdão se passo uma ideia distinta, mas não quero
tirá-las nunca, porque entendo que faz parte de ti, são os teus troféus, não é
mesmo?... E sobre teus olhos: negros. Escuríssimas janelas, tão profundas quanto tua
canção, mares arredios e misteriosos, que ― já
disse ― enfeitiçam os sedentos, encantam os
mais ingênuo; os desatentos, os completamente atentos... quantos foram os
tragados por estes olhos? Quem são aqueles que sabem ― ou pelo
menos desconfiam ― dos segredos velados sob tua íris? Será que eu o sei? Oh, olhos
feitos os teus, caro amigo, não foram criados para serem completamente
verdadeiros, haverá, sempre, mais um segredo a ser desbravado. Essa é a única
certeza em meio à imensidão de dúvidas... Mas não nos demoremos mais, pois
ainda tenho muito trabalho a fazer!
Seu sorriso
ficou propositalmente para o final, pois ainda me encontro indeciso de como o
pintarei. Esta parte, devo dizer, requer minúcia, destreza, sensibilidade... Uma
vez que a menor alteração pode levá-lo de sacro a profano. E como sei que te preocupa
a forma com que te veem, questiono, então: como queres que te vejam? Qual
seria a melhor forma de te eternizar em minha obra? Retrato-te da forma que veneram,
divinamente imaculado, quiçá celibatário e completamente missionário? Pôr-te
assim agradaria um público maior ― sem sombra de dúvidas! ―, embora seja mais uma
imagem perfeita de ti, dessas, acredito que já haja tantas espalhadas por aí. Entenda,
se eu cedesse ao completo agrado alheio ― bem como tu o fazes ―, minha obra não
seria nova, apenas mais uma... Por isso,
os puritanos teus amigos que me perdoem, porque escolherei a forma profana, pois
é a única na qual te vi liberto para sentir e demonstrar estampado nos lábios
cada um de teus desejos. Sim, sim! Dessa forma! Eis como irei te pintar:
sorrindo cheio de malícia como naquela manhã, despido de barreiras e teorias moralistas―
e não te preocupes, tu ficas lindo de tom malicioso, principalmente quando
levanta a sobrancelha! Porque é quando melhor te vejo e sei que és tu, não
outro ser talhado de perfeição e santidade que poderá fugir a qualquer momento
para longe. Não, não, eu quero ficar assim, pertinho... Aninhado... Entregue...
Vendo-te por completo e deixando que me veja assim também, porque essa é a nossa poesia e, por mim, deveríamos
continuar a ser poetas para sempre!
Infelizmente,
terminando meus últimos traços, percebo que certas limitações assolam até mesmo
o mais exímio pintor. Nunca aqueles que vislumbrarem o teu retrato poderão
ouvir o tom de tua bela voz; o tecido e a tinta enrijecida serão as únicas
coisas que sentirão ao tocar esta tua falha projeção, jamais será tua pele
quente e suave que tive eu a chance experimentar. Tua conversa aprazível, de
conteúdo inteligente, assim como teus beijos e afagos, viverão apenas como vultos
incertos nas mentes daqueles amantes sonhadores que porventura se deixarem levar em meio a tantos devaneios... Imperfeições de um artista imperfeito,
talvez.
Agora,
terminado meu labor, posso enfim te colocar ao lado dos tantos que já pintei, e
mesmo que fujas amanhã, guiado por tuas estrelas, o fruto de nossa efêmera
poesia permanecerá eternamente nesta obra, servindo de lembrança para tudo o
que vivemos... Que nos apaixonamos.
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