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sexta-feira, 6 de maio de 2011

A caixa.

O local estava completamente abarrotado de pessoas, umas conversavam, comiam, procuravam, ou simplesmente passavam. E foi em meio dessa intensa e cotidiana correria que tudo aconteceu.
                Um velho de covas no rosto olhava pra sua pequena caixa que ele acabara de deixar, conferia a face a procura de algo estranho – como “patas” de algum molusco, por exemplo -, e sentia-se aliviado por nada encontrar.
                Então está feito, pensou ele com um suspiro longo e mórbido., e sem mais delongas deu as costas para a caixa e começou a andar.
                Mas o lugar era grande e abarrotado demais para que ninguém percebesse o que se passava, o velho nem mesmo se quer houvera tomado cuidado em esconder que tinha deixado sua caixa para trás, abandonada e desistida, e um outro jovem percebera, correu até o pacote, curioso para saber o que havia dentro dele.
                Não precisava que o jovem olhasse duas vezes para reconhecer o que havia lá dentro, e ao abrir se assustou. Aquilo era valioso demais para ser jogado assim, ao léu. Que louco! Irresponsável! Pensou o indignado recolhendo a caixinha, colocando-a debaixo do braço, e logo tratou de procurar o velho para devolvê-la, o que foi fácil, pois o velho andava lento demais.
                - Senhor! Senhor!
                O jovem precisou fritar no mínimo mais três vezes para que o velho escutasse.
                - Pois não? – respondeu o perseguido com fleuma.
                - Senhor, o que houve? – apressou-se o jovem – por que está partindo assim?
                - Desculpe-me, mas não sei do que falas. Tem certeza de que é com a pessoa certa com quem está falando? Já me confundiram muito com outras pessoas na vida.
                O jovem se irritou.
                - Claro que é com o senhor! Não se faça de desentendido, você muito bem do que estou falando. Da caixa! Não, do que está dentro dela!
                O rapaz então mostrou a caixa com o nome frágil escrito. O velho olhou, ele a reconhecia era claro, e muito bem, pois ela não fora esquecida por descuido, e sim abandonada.
                - O que tem?
                - O que tem?! Por que a joga fora? Não sabe o valor que isto tem?
                - Costumava saber. -  respondeu o velho, tão fleumo, tão impassível, que só irritava ainda mais o jovem – Por que me perguntas isso?
                - Porque me aborrece o desperdício! Tantas pessoas queriam ter o que está dentro da sua caixa e você, por só Deus sabe o motivo, o abandona como nada valesse.
                - Não me importo. – dizia o velho – Talvez volte a procurar o que há dentro da caixa, não hoje nem amanhã, porém no momento não me importa o valor que tenha, já nem mesmo faz parte de mim, e me canso de segurá-lo por aí, porque simplesmente cansa.
                - E os pelos que nele podem crescer? Isso não te importa também?
                O velho simplesmente balançou a cabeça.
                - Agradeço – disse ele numa educação seca – mas preciso voltar agora, está ficando tarde e a responsabilidade prevalece. Até a vista meu jovem.
                E saiu o velho andando novamente, e o jovem mesmo sem entendê-lo, o deixou ir sem mais impedimentos, porque apesar de tudo ele entedia uma coisa: não se retruca com pessoas que deixam para trás aquilo que ele deixara.
                E colocando a caixa de volta onde encontrara, o jovem voltou a fazer seus afazeres, pois a responsabilidade prevalece.