- Vem
cá, eu deixo você dormir aqui.
Soneca
não respondeu, olhando-me meio receoso com a proposta. Suas sobrancelhas grossas
– mas ainda sim, lindas – estavam erguidas enfatizando a dúvida expressa em
seus olhos castanhos.
-
Caramba! Meu colo é tão ruim assim?!
- Claro
que não, né, seu besta! – disse-me ele, aproximando e passando os braços sobre
meus ombros – é porque... Bom, aqui?
Olhamos
em volta. Era manhã, soneca e eu estávamos no campus da nossa universidade, chovia
e nos abrigávamos em um amontoado de árvores bem distante dos blocos
estudantis. O clima estava claramente frio, mas não de uma forma ruim, pois ele
só aguçava o desejo que nossos corpos estivessem entrelaçados – nem que fosse
num abraço.
Soneca
percebeu que não houvera me convencido, e tornou a falar.
- Ah
tipo, alguém pode nos ver, sei lá.
- É
verdade! Estamos gazeando aula, isso é um horror – retorqui sarcasticamente.
Um lindo
sorriso iluminou aqueles belos lábios que eu tanto amava. Naquele momento, o
sol que faltava no céu, de repente, estava bem ali, de tão caloroso que era.
- É, só
estou preocupado com isso – disse ele tentando forjar um tom sério – Claro!
- Era
só o que deveria estar. Vem, se deita aqui... Vou te deixar com mais sono! Em vinte e dois de abril do ano de mil e
quinhentos, Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil...
- O que
você está fazendo? – perguntou dando aquele sorriso novamente.
- Te
ensinando história! É só começar que você fica sonolento, não é?
Soneca
sorriu maliciosamente, levantando apenas um lado dos lábios, antes de dar-se
por vencido e cair em meu colo, fingindo roncar.
- Viu?
É tiro-e-queda!
- Tem
razão! – falou enquanto pegava minha mão para por em seus cabelos loiros e
cacheados – Cafuné também ajuda e muito.
- Ei,
não pare, se não vou acordar! – Soneca ameaçou de se levantar, mais eu o impedi
que fizesse isso.
- Tudo
bem então... Hum, de início, Portugal não se interessou por nossas terras, e as
esqueceu durante mais ou menos trinta anos. Foi só então, que começaram a
enviar pessoas para poder explorar as terras brasileiras...
Parei
de falar e baixei meu olhar, para conseguir vê-lo. Soneca me fitava com os
olhos serenos e amenos, sorria feito um bebê e acariciava minhas mãos enquanto
fazia cafuné em seus cabelos.
- Por
que parou? – sussurrou Soneca num tom rouco, parecia estar prestes a cochilar.
- Eu me
atrapalhei...
- Com
quê?
- Com
você – sussurrei aproximando-me um pouco de seu rosto – Fui prestar atenção em
como você é lindo, e a história perdeu a graça.
-
Perdeu a graça, ou você não sabe mais, hein, seu avoado?!
- Pode
me culpar por ser avoado quando estou com você?
Soneca
novamente sorriu e fechou os olhos, dando um pequeno beijo em minhas mãos.
Voltei ao meu trabalho, porém dessa vez, sem falar mais nada, limitando-me
apenas a acariciar seus cabelos e rosto. Não queria perder mais nada daquele
ser, nem mesmo um ínfimo detalhe num segundo qualquer daquela adorável cena,
pois era assim que eu o observava, feito um espectador diante de uma peça esplendorosa,
onde ele era meu ato principal – sem falar do favorito.
Sei que poderia reviver essa cena
tantas outras vezes a qual desejasse, pois Soneca era absolutamente meu e não
fugiria de mim. Entrementes, continuei a observá-lo assim mesmo, com paixão de
como se fosse a primeira e única vez que eu faria aquilo.
Os minutos se passaram, e a
respiração de soneca ia ficando cada vez mais arfante e pesada, até que por
fim, adormecer completamente em meu colo. Ele era tão lindo dormindo, quanto
era acordado dando seus sorrisos maliciosos.
Não pude evitar, vê-lo assim tão
frágil e sereno, completamente esparramado em meu colo, atiçara em mim uma
vontade de dizer aquilo que todo amente deve dizer, embora somente quando for
chegada a hora. Tive vontade de finalmente abrir a boca, escancará-la e urrar
feito um desvairado para colocar algo que estivera cativo entre meu coração e a
garganta. Algo que apenas sussurrei para não acordá-lo.
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