- Você não deveria estar aqui!
A voz cortou o silêncio soturno em que a floresta se encontrava. Olhei para os lados procurando saber de onde havia vindo, mas nada conseguia ver. Era noite, e a luz prateada da Lua, parecia ser a única presente ali, banhando as árvores e a clareira em minha volta, tão majestosamente quanto perigosamente.
No entanto, nada mais parecia despertar receio o suficiente para me impedir.
- Por que não? – berrei alto para que minha voz pudesse alcança-la.
- Eu já lhe disse... – Ela tornou a responder por entre as sombras – Além do mais, minha senhora pode não gostar.
- Pareço me importar?!
-Não! Você parece ser um idiota teimoso que por mais que o rejeite... – Enquanto falava, a imagem de uma garota ia se formando lentamente na escuridão, sendo revelada pela luz pálida do luar - Sempre volta a me procurar.
Meu coração pareceu rodopiar dentro do meu peito. Ela permanecia parada, carregando nos ombros praticamente desnudos, um arco-e-flecha. A luz cálida da lua continuava a banhar seu corpo, fazendo seus cabelos louros brilharem de uma forma prateada. Ah, como eu inveja a grande majestosa da noite por poder beijar sua pele daquela forma! Enquanto a mim cabia-me unicamente a distância e o desejo...
Eu já havia visto de tudo neste mundo, deusas e deuses, sátiros e dríades, no entanto, não existia nada que se comparasse àquela beleza que parecia ser capaz de me enfeitiçar, toda vez que meus olhos a encontrava.
- Idiota e teimoso... – falei abrindo um sorriso acanhado –Bom, esse sou eu!
Por um segundo, seus lábios se abriram, mostrando aquele lindo sorriso. Contudo, não demorou muito, e sua feição tornou a ficar severa, como era de costume. E por alguns segundos, ficamos assim, apenas olhando um para o outro, com um grandíssimo espaço entre nós dois.
Já estava disposto a me aventurar para mais perto, quando de repente, um pequeno e delgado cervo se aproximou, e pairou aos pés dela.
- Parece que você nunca está sozinha...
- E por que você quer que eu fique sozinha?
- Por que você não descobre? – retorqui num tom malicioso.
Ela tornou a abrir aquele sorriso singelo e mordeu os lábios balançando a cabeça. Eu gostava da ideia que podia diverti-la, mesmo que um pouco.
- Você não deveria estar aqui, filho de Apolo.
- Eu sei que não – respondi, aproximando-me dela – Mas não resisti. Sou impulsivo demais.
- É perigoso...
- Alguns perigos, vale a pena correr.
- É muito corajoso para um rapaz que trás flores presas ao cinto.
- O quê?
Sem dizer nada, ela apontou para um ramo de flores azuis que estavam presas em meu cinto. Agora, ela parecia não parecia se importar em demonstrar que segurava o riso, o que, em sua tez pálida e delicada, fez com que suas bochechas avermelhassem levemente.
- Ah isto... É um presente de meu pai.
- Hum ... – Ela acariciava o cervo aos seus pés sem tirar os olhos verdes de mim – São Jacintos, não são? Por que logo ele te daria esta flor?
- Para que eu possa me lembrar da maldição que nosso sangue carrega – respondi, pegando o ramo de Jacintos, deixando-o bem na palma de minha mão.
- E qual é esta maldição?
- Viver sem amor. Para nós, não há uma única história que de amor que não acabe mal. Apolo e Eros tem uma richa atinga e perigosa. E logo meu pai, que é conhecido por sua beleza, luz e poesia, não pode se quer amar um mortal sem que as Moiras o tirem de suas mãos. Eis a nossa sina amaldiçoada. Eis o súplicio de Apolo que nós, sangue de seu sangue, temos que carregar.
Ela se calou, retirou os olhos de mim, e se limitou somente a acariciar o cervo que estava jogado aos seus pés.
- Não parece ser uma boa vida – continuou, ainda sem me olhar.
- Não é, embora você possa me salvar – falei, dando os passos findouros de nossa distância.
Eu sabia muito bem que, em qualquer momento, poderia receber uma aljava inteira de flechas por chegar tão perto daquela nobre moça, contudo, por que me importaria? Sentir sua pele, seu cheiro de jasmin, não me fazia temer o Hades… Não, não, muito pelo contrário. Sua divina imagem, bela feito a própria Afrodite, fazia-me temer a vida, principalmente uma que esgotaria longe dela...
- Mas você nem me conhece... – ela sussurrou, pois já estávamos tão próximos agora, que qualquer arfar singelo era o suficiente para me alcançar.
- É justamente por isto que estou aqui... Vem comigo, dá-me uma chance de te conhecer melhor, serva de Ártemis.
Ela balançou a cabeça e deixou seus cabelos loiros caírem por cima de seu rosto, formando, novamente, uma barreira entre nós dois.
Lentamente levei minha mão ao seu rosto, acariciando-o de leve. Sua pele era suave e delicada,o que atiçava ainda mais o meu desejo de continuar tocando-o. Sua respiração era calma, e seu hálito era como ambrósia… Sim, eu podia ouvir sua respiração imperando sobre o silêncio constrangedor qual se formara.
Naquele momento, o mundo ficava turvo em nossa volta. Pouco valia se estávamos sozinhos ou defronte para os deuses, a minha vontade era de pegá-la nos braços, suspendê-la e lhe dar um beijo ali mesmo. Se Ártemis descarregasse a sua fúria em mim, eu desejaria que fosse ao seu lado.
- Não... – Ela sussurrou, afastando-se de mim abruptamente, como se acordasse de um horrível devaneio – Desculpe-me.
Fechei meus olhos e mordi os lábios, sentindo meu coração que antes martelava freneticamente em peito, agora tornar-se chumbo, pesado suficiente para qualquer homem ser incapaz de carregar.
- Por favor, me desculpe.
- Não – falei ainda de olhos fechados, esforçando para dar um sorriso – Tudo bem. Não precisa se desculpar.
Ela voltou a se calar e acariciar o cervo e nada mais foi dito durante algum tempo. Quanto tempo? Quem vai saber? O fato é que por fim, ele terminou e fora ela a responsável de quebrar nossa abstinência de palavras.
- Está na hora – disse aproximando-se de mim – Você deve ir.
- Por hoje – sussurrei dando um pequeno beijo em seu rosto – Mas amanhã será um novo dia.
Ela deixou escapulir um sorriso, e com a ponta dos dedos, ajeitou seu cabelo.
- Você é realmente teimoso, não é?
- Veremos isso amanhã.
Assim, dei de ombros e tornei a voltar para a escuridão.
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