A estação estava abarrotada, não de pessoas, pois os dois
sempre tiveram — ou precisaram de — mais privacidade possível quando estavam
juntos. Contudo, sim, ela estava totalmente abarrotada. Lembranças
marcadas na parede — e nos órgãos — , presentes, juras — Todos espólios de uma vida que não poderiam ser jogados fora antes de uma profunda ponderação.
Mas
mesmo que desejassem — agora mais levemente — estar juntos, um vidro separava o
dois. Ela estava dentro de um vagão de trem, pronto para voltar de onde viera
um dia. Ele permanecia do lado de fora, o rosto estava lívido e totalmente
impassível. Poderia estar se despedindo de um conhecido — pensou ela.
—
Faça-me parar — começou, como sempre, a falar — Não me deixe voltar.
Ele
balançou a cabeça com um sorriso no canto dos lábios.
— Você
não entrou aí obrigada... Além do mais, isso é um trem, é forte, não tenho a
menor chance de pará-lo.
— Teria
se quisesse. Um dia, você o fez parar — dizia ela, soluçando desesperada — e
então desci da minha louca viagem sem rumo... Faça-o parar novamente, um único
movimento que não seja forçado bastaria...
Sua garganta
fechou e o trem deu um grande solavanco anunciando que a partida não tardaria.
Completamente tomada pelo desespero, os tremores lentamente começavam a
retornar, assim como os batimentos descontrolados. Já era quase a hora.
Por um
segundo pensou em continuar a insistir, mas se deu conta de algo que não foi
surpresa para ela.
— Um
bilhete — disse fracamente — Isso na sua mão é um bilhete?
Envergonhado
ele tentou esconder atrás do corpo, mas já era tarde, para ambos.
— Bom,
então adeus.
— Adeus.
E assim,
o trem partiu novamente para escuridão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário