Perguntaram-me
recente sobre minha fixação por personagens literários. Não, especificamente,
questionaram-me meu afã na trova de duas personagens de mesmo pai, embora
vindas famílias distintas: Helena e Capitolina. Machadianas que sejam, as duas
não poderiam se distinguir mais uma da outra, todavia, falemos disso depois.
Não
sei, caros leitores, se vossos olhos se encantam com os rabiscos das musas
tanto quanto eu. As artes, todas elas, parecem-me o brilho da vida — que
existe, mas que não significa bela ou mesmo atrativa. É, então, a luz que lhe
falta, o luzir no palco dando enfoque aos personagens da ópera. Tamanha paixão,
é claro, acabam por me resultar em espasmos prazerosos a cada nova criatura
criada que encontro por meu caminho. Desleixado ou descuidado — quem há de
saber? —, enfeitiço-me por completo por tais figuras, amo-as como se me fossem
caras de longa data, e, vez ou outra, vejo-me, não mais tão surpreso assim, a
analisar a ópera e seus cantores, aos olhos desses personagens.
O
mais claro, para qualquer um que me conhece: Bane. E ao senhor Bane dedico-me
muito. Ao certo, nunca me vira tanto em nada ou ninguém, quanto nos lápis de
olho e excentricidades de um imortal. Por essa razão, quiçá, muitos devem se
surpreender ao saber que outras personas, cá eu, reservo cuidadosamente em que
retomo ao prisma de seus olhos. É verdade, no entanto, do emaranhado de
máscaras, as duas, a da romântica e a da realista, são as que vem por segundo
em minha vida.
Ora,
deves estar se perguntando, ansioso — ou deveras entediado — por que as duas?
Por que não Aurélia Camargo — inocente demais para ser uma Merteuil — que com
escárnio se vestiu e fez pouco dos homens que se jogaram aos seus pés,
cultivando o amor, fantasiado de ódio, pelo único que a negara? Ou quem sabe
Dorian Gray, demônio sedento, no qual a luxúria fizera morada, deturpando os
santos e os pecadores?
Admito,
muitos desses tons existem em minha pintura, mas são secundários. Detalhes de
luz e sombras, cenários, minuncias que só são percebidas — e exercidas — quando
cansados os olhos das demais três figuras, miram-se os demais ao fundo. Sim,
além de Bane, definitivamente, sou Helena e Capitu.
Primeiro,
faz-se necessário explicar que as duas figuras em questão só, de fato, aparecem
na presença do amor — ou de uma paixão intensa. Sim! Somente quando o brilho do
interesse ilumina meus olhos, quando os significados parecem carecer de forma,
é que as duas entram em cena para seus papéis na ópera.
Primeiro
a romântica, e, em fim, a realista.
—
Vivo como Helena, mas sempre me sobressaio como Capitu! — Já dissera várias
vezes.
Vivo
como Helena porque, jurar-te-ei amor eterno! Elogiarei os versos, devotarei a
tua beleza, suspirarei com tua voz, afagarei os teus cachos! E que belos
cachos! Escritor que sou, tecerei para ti, somente para ti, na ausência
pungente de significantes, trovas sinceras — de um poeta fingidor —, darei
mundos, fundos, símbolos e tons. Entregarei meus ouvidos capaz de ouvir e
entender estrelas, e traduzirei, sussurrando em teu corpo, aninhado, o que elas
dizem. Amarei-te como um bicho, simplesmente, e muito e a miúde, sei que
poderei morrer de te amar mais do que pude. Sim, serei capaz de morrer sem ti.
Definhar — de repente, não mais que de repente —, prostrado num canto, vertendo
as lágrimas, sangue que jorra da alma, indo de encontro ao grupo que fora
estudar a geologia dos campos sagrados...
...Até
que você, meu caro... Encha-me o saco! Que não se atente ao aviso dado por
Eros, faça pouco de minha fidelidade, do meu amor, ou simplesmente não o mereça!
Eis, então, o momento de Capitu.
—
Queres ir para o seminário? Pois bem, serei o primeiro da filha, sentado com
elegância na visão de todos. Ah, quer casar-me? Meu caro, sinto muito: não hei
de esperar tanto para isso. Mas, não fiques triste, prometo-te dar meu primeiro
filho para o batismo.
Ah,
sim! Quanto mais tu te enamoras com Escobar — porque o sei que se enamoras—,
mais paquerarei com o gajo de cavalo branco. Meus versos, admito, não serão os
mais perversos, porque, para ser franco, não existirá mais verso algum. Teus
quadros, ficarão pendurados feito uma natureza morta: por mais bela que seja,
não irá se distinguir de uma pera — sem significados. No fogo ou no gelo,
pegarei um navio para a Europa e só os deuses — isso é, se eles tiverem coragem
de me espiar — irão saber de minhas peripécias por lá.
Em
fim, enfim, fim.
Porque
não se não o disse antes, posso dizer-te agora: Se é para morrer, por favor,
meu caro, que morra você.
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