“Tantos amigos tão
leais!
Perderei também este
em regressando a aurora."
E o corvo disse:
"Nunca mais!"
— O Corvo, Edgar Allan
Poe
Lucas
— Lucas, querido, acorde! — disse uma
voz, que naquele momento soava amável, retirando-me do sono, acompanhada de um
suave toque, que pertencia a minha mãe.
Acordei atordoado, não só por ser acordado
no meio da noite por minha mãe, mas pela forma com qual me tratava... Havia
anos, para mim milênios, desde que Catarina me chamara por “querido”. Anos,
desde... Douglas e Amanda.
A luminária ascendeu, inundando meu
quarto com uma luz que fez doer meus olhos. Sentada na cama, Catarina, a mãe,
ainda me tocava o braço, entretanto, suas feições estavam diferentes, algo em
seus olhos castanhos, ou mesmo a maneira que me encarava, denunciava certa
apreensão... Medo.
Catarina temia alguma coisa?
— Vamos lá, Bela Adormecida! Não está
esperando um beijo, está ?! — Dessa vez, a voz que se fez soar foi a de meu
pai, escorado do outro lado do meu quarto, com um sorriso malicioso estampado
nos lábios.
— A nossa família não pode ser normal
uma vez na vida? — Perguntei, endireitando-me na cama, ainda grogue.
— Falou o homem que tem dois namorados!
— Alexandre, pare de gracinhas! — O tom
de minha mãe saiu sério, embora, eu pudesse jurar que ela segurava um riso no
canto da boca — Lucas, querido, preciso que você nos acompanhe um momento.
Vamos, vamos! É importante!
Os dois saíram do quarto e me deixaram
sozinho por alguns minutos enquanto me vestia de forma mais decente. Na sala,
meus pais me esperavam tensos, de mãos dadas na altura do queixo, enquanto
conversavam compenetradamente — se algum dia houvéssemos ido a igreja,
arriscaria que estavam rezando, orando, juntos para alguma coisa. Como se não bastasse o ar pitoresco da noite,
os dois ainda se vestiam de formas esquisitas, como eu nunca os vira antes
fazer.
Alexandre, meu pai, embora estivesse de
roupas sociais, vestia um sobretudo cor de gelo, o qual se destacava em sua
pele negra, e, em uma das mangas longas, o símbolo preto de um leão estampado
enfeitava a roupa, numa espécie de brasão. Nos dedos, entrelaçados aos de
Catarina, carregava inúmeros anéis de todos os tipos e tamanhos.
Minha mãe não usava seu terninho como
de costume, mas uma longa camiseta preta com a gola recaindo sobre os seios, com
um corpete de couro apertando seu quadril, que em nada parecia pertencer à ela.
Assim como meu pai, também trajava um
casaco sobretudo com tons gelo, embora o símbolo, diferentemente de Alexandre,
tratava-se de um enorme corvo o qual se empoleirava nos ombros.
Instantaneamente, um verso se fez soar em minha cabeça, lúgubre, macabro —
“Nervermore!”
— Tudo bem, não sabia que íamos dar uma
festa temática. — comecei, tentando espantar a sensação ruim que o verso
trouxera — Se eu soubesse, teria vindo de Magnus Bane! Herdei a maioria dos
gliters da Natasha.
— Eu disse que ele faria piada com as
nossas roupas! — meu pai sorriu, suavemente, estralando seus dedos, virando-se
para mim.
Embora a piada, os dois pareciam
absurdamente preocupados. Alexandre nunca estralava os dedos a menos que
estivesse demasiadamente nervoso. Pera aí, eu estava falando sobre o estralar
de dedos? Perdão pela falta de descrição. Onde estava com a cabeça?! Meus pais
acordaram-me no meio da noite, agindo e se vestindo de forma absurdamente
suspeitas, malas, livros e os mais pitorescos objetos amontoavam-se pela sala —
Aquilo era um cajado?! — e eu estava falando dos dedos do meu pai? Alguma coisa
em suas feições, ou a maneira com qual se comportavam pareciam gritar que os
segundos atuais, não passavam de uma pequena introdução para algo nada
agradável estava por vir.
— Tudo bem, o que é que está acontecendo
aqui? — perguntei, sentindo a apreensão congelar meu peito — Para onde estão
indo? Por favor, não me digam que é comprar cigarro porque isso é demodê
demais!
Por alguns ínfimos milésimos, achei ter
visto a tensão dos dois sumir, para logo após perceber seus ombros serem
esmagados novamente pela tensão.
— Venha cá, Lucas. — disse minha mãe,
estendendo a mão para mim — Eu fiz de tudo para que esse dia nunca chegasse,
acredite em mim, mas nas circunstâncias atuais... Precisamos contar um segredo.
Por favor, sente-se.
Mecanicamente, tomei o lugar que minha
mãe me indicara. Os dois, no entanto, continuaram de pé, entreolhando-se numa
conversa silenciosa. No celular sem sinal, o relógio marcava 2:45 da madrugada.
O silêncio se perdurou por alguns segundos que se arrastaram.
— Vocês vão me contar que eu sou
adotado, não vão? — Tentei, novamente para quebrar a tensão que se instaurara —
Se for, sinto informar: já é tarde demais. Sei disso há anos. Décadas!
— Desde quando você faz tantas
piadinhas assim? — Meu pai tomou a frente e se sentou ao meu lado, pondo a mão,
paternalmente, em meu colo — Essa é uma conversa séria, Lucas. Precisamos de
toda sua atenção.
— Nós iremos viajar e há algo que
precisamos contar antes disso.
— Vocês sempre viajam! Qual o problema
dessa vez?
— Não, não, Lucas, dessa vez é
diferente. Há uma chance de... Não voltarmos.
Finalmente, o motivo daquela tensão
parecia tomar uma forma, uma forma assustadora. “Nevermore”, a perversa voz
ressoara por meu corpo, numa badalada que ressonava desagradável em minhas
costelas. Era um verso pavoroso demais para se recordar após uma frase como
aquela dita por Catarina.
— O quê?! — pulei para fora do sofá,
enquanto minha voz subiu algumas oitavas — Que porra de brincadeira é essa,
Dona Catarina?
— Lucas, por favor, escute o que eu e
sua mãe temos a dizer...
— Mas ela está dizendo que vocês não
vão voltar!
— PODEMOS não voltar — corrigiu-me meu
pai, como se aquilo, de alguma maneira, pudesse amenizar a situação.
— Oh, sim! Estou muito mais tranquilo
agora! — Sarcasticamente retruquei, sem
pensar, deixando que o tom ácido simplesmente escorresse de meus lábios — Por
favor, continuem falando sobre essa viagem da qual podem nunca mais voltar. A
mudança do verbo fez toda diferença para narrativa.
— Pare com isso! — Ralhou minha mãe,
com estranho descontrole no tom rígido. Mesmo que não me fitasse, pondo-se de
frente a pintura da sala, arriscava a dizer com certa fragilidade, ao julgar
pela forma com qual seus ombros estavam caídos. — Você é um Holanda.
Comporte-se como tal!
Meu
corpo tremeu, como se as palavras de Catarina fossem expelidas junto de
eletricidade. De rosto quente, podia sentir meu cenho franzir, enquanto meus
olhos não paravam de fita-la.
— VOCÊ DE NOVO COM ISSO?! FODA-SE ESSE NOME
INFELIZ, CATARINA! — Retruquei, com a voz mais grosseira do que eu esperava.
Embora não quisesse saber se estava mantendo o prumo ou não, o controle
começava a escorrer por entre meus dedos — O que diabos um nome de família tem
a ver com uma situação como essa?!
Então ela se virou, imponente e de
nariz em pé, austera como sempre fazia. Seu olhar, no entanto, denunciava uma
insegurança destoante de si e da quimera que buscava passar, feito um impávido
colosso o qual, lentamente, derretia-se por dentro.
— Tudo, Lucas, eis a questão! Esse é o
momento em que ser um Holanda significa tudo! — seu tom também estava
descontrolado, descompassado. Como que houvesse percebido, suspirou, tentando
tonar a rigidez usual — Eu sei que você me achava maluca por ficar repetindo
essas coisas, mas era como conseguia te contar. Esse é o momento em que todos
nós, mais do que nunca, precisamos carregar a responsabilidade de sermos Holanda,
da maneira que pudermos. É um fardo que nunca queria que fosse seu. Sente-se.
— Sente-se... — Ratificou meu pai,
tocando suavemente meu braço.
— Tudo bem, estou atendendo a fixação
de vocês de estar sentado. Então, onde querem chegar com todo esse papo de
família Holanda? Por acaso que vocês vão me falar que são personagens de Anne
Rice ou só esquisitos mesmo?
Meu pai sorriu e meneou a cabeça,
enquanto minha mãe novamente suspirava, voltando-se impaciente para outro lado.
— Spolier Alert! Você se surpreenderia
como está correto em partes — Sussurrou meu pai, levantando-se e indo em
direção minha mãe, tomando-a pela mão num gesto de afeto e suporte — Esse é o
momento, minha querida.
Catarina assentiu, aproximando-se de
mim, porém sem soltar da mão de meu pai. Sentaram-se ambos e sem me dar espaço
para alguma piadinha, começou a falar.
— Nossa família é mais antiga e
importante do que você imagina, Lucas. — a voz de minha mãe era profunda, seus
olhos castanhos estavam pesados, densos, fitando um momento bem longe dali — E
o mundo não é bem como você imagina que possa ser. Aliás, preciso me corrigir:
conhecendo você e literatura que lê, talvez o mais correto é que o mundo é
exatamente como seu desejo pede, mas que sua razão desmente...
Minha mãe fez uma longa pausa, para
mais um suspiro intenso. O silêncio era absoluto, quase sepulcral. Exceto pelas
nossas respirações pesadas, nada mais podia se ouvir, parecendo que o mundo
parara também a pedido de Catarina e atentava-se para sua narrativa.
Finalmente, ao parecer encontrar os significantes corretos, minha mãe voltou
seus olhos nos meus, prosseguindo.
— Como seu pai falara, você está em
partes certo. Na raiz de nossa família, Tomaz e ela — Falou, apontando para a
mulher no quadro, de pele amendoada e cabelos negros, que pertencia a nós a
eras — Vitória Holanda são vampiros. Vitória, na verdade, além de Vampira é uma
bruxa, uma das mais poderosas bruxas que já existiu.
Minha boca se abriu, em menção de
palavras que foram interrompidas por meu pai.
— Antes de continuarmos, e
provavelmente, antes de contar mais uma piadinha. Acredito que esse seja mais
uma de nossas conversas de cerveja, não é?
Foi então, que algo aconteceu. Algo
indescritível. Completamente inimaginável, para mim, pelo menos. Com um leve
movimento de mãos de meu pai, a geladeira tremeu e uma cerveja voara diretamente
para sua mão. Assim! Como se estivesse sido controlada por...
MAGIA?
Meu corpo pesou feito chumbo. As palavras
que uma vez se formara em minha mente, pareciam escapar todas pelos lábios
abertos, em choque. Para falar a verdade, era como se meu próprio espírito
estivesse sendo arrastado para fora de meu corpo por águas pesadas e gélidas.
Finalmente eu entendia a razão pela qual haviam me mandado sentar, e agradecia
por isso.
— Alexandre!
— O que foi? — Meu pai sorriu, e com
estalar de dedos, a tampinha de cerveja foi pelos ares. Oferecendo a mim, como
ele sempre fazia quando precisávamos conversar, completou — Apenas uma. Para
você relaxar e comemorar. Esperei mais de vinte anos para mostrar isso!
Recebi a cerveja de forma atônita e
mecanicamente tomei um grande gole — quase esvaziando a garrafa de única vez.
— Não beba desse jeito, garoto!
Precisamos de você sóbrio!
— Um segundo para ele, Catarina! Ele
está enfrentando a verdade... E a verdade é que ele finalmente está percebendo
que todas as vezes das quais pedi para buscar cerveja, foram em vão, pois eu
poderia ter feito isso sem levantar do sofá.
O líquido gelado transbordou da minha
boca, com um riso. Por mais atordoado que estivesse, a cerveja pareceu melhorar
um pouco meu estado.
— Então, quer dizer que vocês... vocês
são bruxos? — perguntei, mesmo que pergunta soasse ridícula por inúmeras razões.
Mas o que poderia fazer? Não conhecia o manual: coisas inteligentes para se
falar quando seus pais revelam segredos mágicos. — Por que nunca me contaram?
— Porque, por mais tentador que possa
parecer, um mundo da magia é extremamente perigoso e nem sempre bonito. Mortes,
traições. Na história dos homens, houveram aqueles que abusaram de seus poderes
e fizeram coisas terríveis. O momento em que vivemos é um desses exemplos.
— O que está acontecendo, Catarina?
Vocês precisam de ajuda? Há algo que eu possa fazer?
Catarina sorriu e segurou minha mão,
novamente com ar maternal que há eras não experimentava.
— Eu já disse. Precisamos que você seja
forte. Que fique bem enquanto estivermos fora.
— Mas por que vocês precisam ir? —
perguntava, sentindo cada palavra arranhar minha garganta — Para onde vão?
— Ainda não sabemos — respondera meu
pai, de tom sério, como usava poucas vezes — Não sabemos para onde iremos. Mas
precisamos ir. Você, em caso de... Não voltarmos, será o último Holanda.
Precisamos que você esteja firme e que tome seu papel perante os bruxos algum
dia.
— Mas eu sou bruxo?!
— Não, felizmente não — minha mãe
apertou meus dedos, antes de levantar-se e ir para a imensa estante de livros
que ficava na sala de estar da casa deles. Mesmo tendo lido bastante, nunca
chegara a ler todos os livros de meus pais — Tentamos fugir desse mundo há anos,
mas é impossível. Nunca contamos para
você, porque pelo menos a sua vida deveria ser normal. Agora, no entanto, o
dever nos chama e não podemos te contar tudo. Embora... — disse, voltando para
perto de mim com um imenso livro que eu nunca vira antes — Embora esteja aqui
toda a história da nossa família. Todos os Holandas escreveram suas memórias,
um dia você precisará escrever também, e tenho certeza que escreverá melhor do
que todos nós.
— Por que não posso ir com vocês?
Lentamente, um nó ameaçou enforcar-me a
garganta. Não estava gostando da forma com qual os dois falavam. As palavras, o
tom sublime e de despedida, exalava a certeza de que os dois se encaminhavam
para morte, e de bom grado! Minhas mãos tremiam descontroladamente, ameaçando
derrubar o restante da cerveja que estava em minha garrafa. Percebendo meu
nervosismo, meu pai segurou forte minha mão, dando um grande pigarro.
— Você deixaria Douglas e Amanda, meu
filho?
O nome dos dois pesou-me os ombros,
trazendo-me a realidade. A nossa realidade, a que julgava ser nossa, pelo
menos, e que a duras penas íamos construindo. Alexandre estava correto, se ir
com eles significasse abandoná-los, ou seria incapaz de prosseguir com um único
passo sequer.
— É mais seguro para você não nos acompanhar.
— recomeçou novamente minha mãe, porém, logo foi interrompida com o badalar da
campainha. Apreensivos, meus pais novamente trocaram olhares silenciosos que
fora finalizado com o afastamento de meu pai — Lucas, meu filho, temos pouco
tempo e precisamos de sua atenção mais intensa. Precisamos saber que você vai
ficar bem, que estará seguro. Queremos que fique com a casa, essa casa. O
apartamento em que você está, já está sendo vendido e todo o nosso dinheiro
fora transferido para sua conta no banco. É muito importante que você fique com
a casa, entendeu? Não a venda. Fique com ela!
— O que tem demais com ela?
— Eu e seu pai já iniciamos o ritual de
proteção. Antes de irmos embora, nenhum bruxo ou bruxa poderá ser capaz de
lançar um feitiço se quer dentro desta casa, é uma maldição absoluta e
poderosíssima. Só assim você ficará seguro. E Lucas...
Por um segundo, minha mãe parou,
ponderando novamente suas palavras. Num movimento rápido, pegou do pequeno
bolso de seu sobretudo, três anéis os quais reconheci no momento em que os vi.
Tratava-se da aliança de meus pais. Não, eram alianças bem mais antigas do que
isso. Antes deles, já haviam pertencido aos meus avós, e aos avós antes deles
também — eu deveria ter desconfiado que alguma coisa não tava certa na família.
— Eu sei que posso não ter sido a
melhor mãe nesse tempo. Sempre exigi em demasia de você e falhei terrivelmente
sobre... Sobre seu namoro. Sua nova família. Mas conversei com seu pai e
entendemos a importância de protege-los também... Então, o que eu quero dizer é
que você tem a nossa benção. Não, mais do que isso, eu quero que você os chame
para morar aqui também. Peça-os em casamento.
— Mãe, a senhora não precisa...
— Eu sei que não — insistiu,
depositando as alianças na palma de minha mão — Tomamos a liberdade de replicar
a aliança masculina para Douglas. Nem se preocupe com o tamanho, ele se adapta
ao novo dono, só assim esse negócio de alianças daria certo na vida real. Por
favor, eu só quero que você fique bem.
— Quem diria que a filha era mais louca
que o pai!
As palavras de meu pai retiraram-nos da
bolha que havíamos nos colocados. Ficamos tão absortos em nossa conversa que
nem se quer tomamos ciência de quer meu pai já retornara para a sala,
acompanhado de um outro homem ao seu lado, de pele pálida e cabelos negros.
Atordoado, pensara no início que se tratava de Douglas, mas seu tom de voz
afastou qualquer dúvida.
— Catarina Holanda, aqui estou, como
combinado — Disse, e sua voz soava rígida, até desconfortável ou anacrônica em
alguma medida — Esse é o garoto da nova geração?
— Lucas, esse é Edgar Menezes. Um amigo
de família de longa data.
— Mais longa do que meu ego gostaria de
afirmar, garoto. — falou, abrindo um
sorriso encantador. Levantei rapidamente para cumprimenta-lo e perdi o equilíbrio,
tropeçando em meus pés — De qualquer maneira, é um prazer conhece-lo.
Apenas sorri de forma abobalhada,
enquanto sentia meu rosto corar. Por alguma razão, eu começava a me sentir
zonzo. Trôpego. Bêbado. Mas era impossível, eu havia apenas tomado uma única
cerveja!
— Precisamos deixa-lo sob seus
cuidados, Edgar. — Minha mãe se levantou, pondo-se entre eu e o rapaz que
parecia não ser tão mais velho do que eu — Precisamos do seu serviço. Não
podemos mais gastar nossa magia, por isso, queremos que você altere sua
memória.
— O quê?! Vocês vão o q-q-quê? — minha
língua enrolava em minha boca — Eu não posso esquecer de tudo isso!
— Até o momento certo, você irá
esquecer. Se um dia precisar delas, Edgar virá até você.
— N-não, Ca-Cata — novamente, ao tentar
andar, meus pés pareceram chutar um ao outro e pendi em direção ao chão. Teria
caído, no entanto, se Edgar não houvesse parado ao meu lado e me segurado.
Uma careta tomou o rosto de minha mãe,
que deu de ombros, seguindo em direção ao meu pai.
— Precisamos terminar os encantamentos.
Depois desse feitiço, nenhum bruxo que não seja um Holanda ou objeto de nossa
propriedade poderá utilizar magia aqui dentro. Ficaremos esgotados demais para
protege-los. — meus pais se aproximaram da estante de livros, e minha mãe
colocou-o lá novamente, e, como uma pedra lançada ao mar, o livro se perdeu na
multidão de todos os outros — Por favor, vão para cima e nos esperem lá.
Juro que tentei protestar. Juro que
minha cabeça mandava meus membros se moverem, mas eu estava paralisado. Nada
parecia me obedecer. Lentamente, Edgar me apoiou em seus ombros e me encaminhou
para o meu quarto na penumbra. Zelosamente, repousou-me na cama e sentou-se ao
meu lado.
— Não acredito que eles doparam o
próprio filho. Catarina é a mais durona de todas as gerações, sabia disso,
garoto? — falou, alisando os cabelos negros, os quais se assemelhavam com penas
de corvo. Edgar possuía uma voz galante, praticamente sobre humana — Não
deveria se preocupar com o que vá acontecer com ela. Vaso ruim não quebra.
Tomando toda a força que sumira do meu
corpo, virei para Edgar, sentado em minha cama com uma postura relaxada e
despreocupada. Seus olhos, profundos e de idade imensurável eram escuros, quase
pretos.
— Mudemos de assuntos. Diga-me, você
tem namorada? — Pausa — Ou namorado?
Assenti, pesadamente..
— Dois. Os dois.
— Dois?! — Edgar pareceu surpreso com minha resposta,
ao mesmo tempo em que parecia se divertir — Olha só! Espero que Tomaz não pense
que é influência minha, afinal, nos conhecemos
agora!
Com dificuldade de respirar, assenti,
mesmo sem entender muito do que acabara de falar. O ar da casa parecia pesar a
cada segundo que passava. O quarto, que antes estava entregue a penumbra, agora
era iluminado por cores de todos os tipos e intensidades. O chão e a parede
vibravam, feito um casebre atormentado por um terremoto. Ao fundo, vozes — não
só a dos meus pais, mas inúmeras outras — soavam numa melopeia fúnebre, tal
qual a própria morte, suas filhas e rebanho, juntassem ao cortejo do eterno.
Era horrendo e belo, em igual maneira.
Então era isso que era magia, afinal?
— Quem é Tomaz?
— Tomaz Holanda é seu
tataratara-alguma-coisa-avô, eu parei de contar depois da quinta geração. É o
seu ancestral e meu melhor amigo. Embora aquele bastardo tenha sumido há
algumas décadas. Ele e Vitória, são os primeiros Holandas que sua mãe tanto se
orgulha.
Tudo voltou a ficar preto, e escuro.
Alguma coisa no ar, no entanto, parecia estático, cheio de energia. Edgar olhou
novamente o quarto, com tédio e desinteresse. Voltou-se para mim, no entanto,
com um sorriso malicioso. Mesmo que sua figura estivesse começando a virar um
borrão com o soturno, pude perceber dois pequenos filetes de canino pareciam
fugir de seus lábios.
— Se eles dominaram esse tipo de
encantamento, não vai ser difícil derrubá-los. Bom, como você já deve ter percebido,
eu sou um Vampiro. — Começou, aproximando-se de mim. Com um toque em minhas
costas, endireitou meu corpo para que eu ficasse sentado, ereto, olhando
diretamente em seus olhos. Por mais que estivesse ali, falando comigo como um
ser vivo, seu toque, no entanto, era frio, gélido, morto. — Não, antes que me
pergunte, não brilho no sol, apesar de ter alguns truques na manga. Sua mãe
quer que eu altere suas memórias, então, toda essa noite não passará de
estranhos pensamentos e reminiscências que um dia, quem o sabe, voltará à tona.
Se um dia acontecer, significa que nos encontramos novamente. Não fique
constrangido. — sua voz era firme e melodiosa, com um ator de filmes deveria
falar. Todas as palavras eram proferidas com rigor excessivo, embora, ainda sim,
eu achasse absurdamente galante — Tenho outras formas não tão glamorosas de
fazer isso, mas prefiro não fazê-las. Ah, e por favor, não confunda, isso são
apenas negócios.
Dito isso, Edgar pressionou seus
caninos no canto inferior de sua boca, fazendo com que dois filetes de sangue
escorressem por eles. Com a língua, espalhou o líquido feito tinta rubra por
sobre os lábios. Seu aperto se fez firme em minhas costas e ele se aproximou de
mim, dando-me um pequeno beijo.
Meu corpo se contorceu de alguma forma
— não sabia se era medo ou prazer —, parecendo que uma corrente elétrica
acabava me percorrer inteiramente. Meus músculos enrijeceram, todos eles, para
logo depois relaxarem, de uma forma inefável.
Edgar deixou meu corpo cair lentamente
sobre a cama e se levantou, dando uma pequena piscadela para mim.
— Está feito! — Disse, quando duas
pessoas adentraram em meu quarto.
Meus pais me olhavam, seus rostos
estavam turvos, as linhas de suas feições eram borrões que se confundiam com o
fundo, feito as pinturas de Cézanne.
— Lucas, lembre-se do que ensinamos a
você — dissera meu pai, sentando em minha cama e tocando meu rosto afavelmente
— Temos orgulho por ser quem você é. Corajoso. Bravo. Eu sei que daria um bruxo
excepcional e você tenha sua própria magia. Seu próprio encanto.
Catarina o acompanhou e sentou-se do
meu outro lado. Recuperando as alianças que haviam caído sobre a cama,
colocou-as novamente em minha mão e apertou com força. Eu gostaria de dizê-los
que os amava. Precisava agradecê-los pelo lar que me deram e por terem me amado
mesmo não sendo sangue do sangue deles. Precisava dizer que foram ótimos pais,
que esperava vê-los rapidamente. Precisava vê-los novamente. Mas meus lábios
não respondiam. Meu corpo não respondia. Apenas fiquei ali, vendo-os como
borrões, entre a escuridão, esperando que pudessem entender as palavras em meu
olhar.
— Nós te amamos, meu filho.
A voz de minha mãe foi a última coisa
que ouvi, antes da escuridão tomar completamente minha visão, como tintas
negras encharcando um papel. Eu não sabia naquele momento, mas essa era a
última vez que escutaria a voz de minha mãe ou que receberia seu toque. No
momento seguinte, em que adormeci profundamente, as lembranças daquela noite se
perdiam a imagens confusas de um sonho distorcido em que um corvo sobrevoava
meu quarto, respondia todas as minhas súplicas, entoando:
— Nunca mais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário