O Pioneiro
Nunca pensei bem sobre o que eu encontraria naquele armário velho, que no tempo de minha mocidade me servia como refúgio. Ali eu guardava tudo com que os olhos alheios pudessem me julgar. Todos os meus sentimentos, os quais em uma boa parte do tempo estiveram guardados em um único caderno, já velho e gasto pelo tempo.
O Pioneiro era mais o que ele parecia. Todas as minhas aventuras – amorosas ou não – estavam guardadas ali, e a cada experiência importante eu escrevia um poema. Peguei-o com as mãos um pouco trêmulas devido a idade, e também alterado por uma antiga felicidade que agora inundara meu corpo completamente. Abri meu caderno na primeira folha, e vi uma data que me chamou atenção.
17 de março de 1947. Eu sabia que poderia ter mal de Parkinson, mas não Alzheimer, me lembrava de cada detalhe daquele dia.
Era o baile do colégio, ela estava lá, linda como sempre - meu coração bate mais forte até hoje quando me lembro dela.
De todos os rapazes que a convidaram, nenhum ela havia aceitado, mas mesmo assim continuava lá. Descrente, nervoso e meio desajeitado, fui falar com ela. E depois de algum tempo de conversa – eu não sabia ao certo quanto, o tempo passava muito rápido quando eu estava com ela – minha tensão sumira quase por completo, então a convidei para dançar. Foi uma grande surpresa ouvir um sim daqueles lindos lábios. Meu corpo tremia por dentro, mas tinha que me manter firme, e apesar de tudo, com uma manobra ousada e de sucesso, eu a beijei.
Sabia que não podia fazer aquilo, pelo menos não enquanto estivéssemos nos domínios do colégio. Fui punido pela direção antes que terminasse o baile, mas não importava, eu tinha estado com ela, tive meu primeiro beijo, minha primeira aventura...
O meu primeiro poema.
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