Um dia, certo garoto – sozinho, como ele preferia pensar – chorava desesperadamente de fome. Seu choro era o mais escandaloso e silencioso possível, a cara se contorcia, o lábio franzia, os berros eram extravasados de outra forma, e as lágrimas , ao que parecia, só saia quando estava deveras sozinho.
Mas uma vez, logo após o estrondo de uma bomba, alguém o pegara chorando. Não, alguém o fora carregado por ele, para vê-lo chorando.
- Ei filho, por que está chorando? – perguntou o homem.
- Estou com fome. Muita fome. Desesperado pela agonizante e intensa fome!
O Homem parou fitando confuso tudo ao redor do garoto. Onde estavam, existia uma completa fartura de alimentos dos quais ele precisava, de todos os gostos, tamanhos, e calores. Então, por que ele chorava de fome?
Sem haver completas respostas, o homem – agora – apenas se limitava a observar os berros do garoto.
- Faça alguma coisa! Faça alguma coisa, me dê o que comer.
- Claro, claro, só um momento...
O Homem nem precisou correr para conseguir o alimento, de dentro do seu bolso mesmo, retirou algo quente, e quem sabe suculento, e entregou para o garoto.
- Não quero isso! – reclamou o garoto dando um tabefe nas mãos do Homem.
- Por que não? Você não está com fome?
- Mas não quero isso! – dizia aos berros – Estou com fome! Com fome!
-E o que você está fazendo para se alimentar?
- Claro que nada – respondeu.
Irritado com o que o Garoto acabara de fazer, o homem recolheu o alimento, e colocou de volta de onde retirara.
- Certo, se não quer isso, por que não vai atrás de comer sozinho?
- Por que não há nada aqui para se alimentar. Nada. E estou com fome!
- Como não tem? Ficou maluco, ou acabou por ficar cego? Olhe em volta, só o que tem é fonte de alimentos para essa sua fome, vá atrás.
- Não, eu não vou atrás, a comida, tem que vir até mim, e estou com fome.
O sangue borbulhou pelo corpo daquele Homem, há quem diga que, até o castanho de seus olhos também pareciam ferver de raiva quando ele deu finalmente as costas para o garoto e se afastou. Contudo, ainda havia algo – pelas lembranças passadas creio eu – que o fazia a ficar por perto, juntinho com as outras fontes de alimentos.
- Olha, mais um. – Disse uma delas quando o homem se aproximou.
- Mais um o que?
- Para o estoque do moleque.
- Mas eu não sou não.
- Ah não? – E se calou.
E ficaram assim, ainda por terminar. Porque tem gente que leva demais a serio a expressão : “ Se Maomé não vai a montanha, a montanha vai a Maomé.” E ainda querem discutir provérbios.
NOTA: Dedico esse texto ao meu mais recente velho amigo. De um Leão, para um adorador de cobras que acabou por confundir jubas com escamas.

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