Havia um circulo de crianças, e todas conversavam animadamente.
- Então eu abracei o dragão assim! – dizia um deles levantando-se todo espevitado – E quando vi que não havia mais jeito, com o coração inteiramente descompassado, eu fugi!
- Nossa – alarmou-se outro – que coisa!
- Corta essa Nico, dragões nem existem.
- E como explica o que aconteceu? – disse Nico pretencioso e voltando a se sentar ao lado dos amigos – Tudo o que aconteceu é verdade meu amigo, e está na minha memória. Aconteceu mesmo.
- Não deve ter acontecido nada, você está mentindo. Seu mentiroso!
- Aí deixa ele João, continua vai.
O garoto voltou então a trovar os acontecimentos, ora ou outra ainda pulava animado, dramatizava o que podia, até olhava para o chão e fazia cara de choro quando contava-lhe algo triste, procurando convencer a todos - até o Joãozinho, que era o mais cético – que tudo o qual acontecera era a mais pura verdade.
- E como você sabia que era um dragão Niquinho?
- Ora como eu sabia Margarida, uma lagartixa crescida e que não havia de ser, muito menos um moinho de vento, porque não sou tão pirado assim. Era um dragão mesmo, e ele era enorme, de escama negra feita à noite mais sombria e soturna que já se ouviu falar, e tinha os olhos tão.. Tão, devoradores, que eu achei que me hipnotizaria apenas com um olhar. Ele era belo, ah se era, um baita de dragão! Mas eu fui mais forte, e resisti aquela hipnose. Certo que quase fraquejei, mas lutei contra aquilo que eu sabia muito bem que não havia chances de vencer. E foi bem assim que aconteceu. -Nossa, que incrível!
- É, eu sei.
Nico se recostou na árvore e deu um suspiro de alívio – que foi acompanhado por muito de seus amigos também – quando terminou de contar sua aventura, tão agoniante e perigosa. Nessa mesma hora Marcos, um de seus apenas amiguinhos se juntou a arruaça excitada que as crianças faziam.
- Ainda não acredito – continuou João – Se houvesse pelo menos uma prova, uma testemunha...
- E tem! O Marquinhos estava lá comigo, ele é testemunha!
- Sou o que?
- Testemunha! – disse Margarida maravilhada – É verdade que vocês enfrentaram algo parecido com um dragão, de escamas pretas e olhos penetrantes?
- Como é que é?
- Vocês não...
- Não, claro que não. Eu nem sei do que ele está falando.
- Como assim, você sabe muito bem o que aconteceu, só tem medo, é isso.
- Claro que não, se tivesse acontecido...
-Mas aconteceu! O dragão, ele...
- Já tá na hora de crescer, não acha não? E parar de ficar inventando coisas onde não há! – Disse Marcos com um tom desdenhoso mas impossivelmente também manso e aveludado – Não aconteceu e ponto.
João deu uma gargalhada que foi acompanhado pelos outros. Marquinhos, após dizer aquelas duras palavras para o seu amigo, levantou-se e saiu aborrecido da roda de amigos, que logo em seguida, fizeram o mesmo e o acompanhara.
Mas Margaridazinha continuou ao lado de Nico, nem se quer riu do comentário, pelo o contrario, ficara com as feições tão emburrada, que mais parecia uma carranca a qual sua mãe esboçava quando ela quebrava algo de importante na cozinha. E isso despertara em Nico curiosidade. Por que ela não havia rido de sua cara, como os outros?
- Porque eu sei que você não é do tipo de confundir lagartixas com dragões, ou moinhos de ventos. – respondeu a menina pomposamente quando seu amigo lhe fizera a pergunta – e se disse que era um dragão, há de ser um dragão! Um baita de dragão.
Nico voltou a se calar, ficando rubro com o constrangimento lhe tingindo as faces, mas então, lembrou-se novamente do que havia acontecido e franziu o seu cenho aborrecidamente.
- Mas então por que diabos ele disse aquilo? Que não havia acontecido nada, que não fazia ideia do que eu estava falando?
Margaridazinha hesitou, procurando na cachola de menina, alguma coisa que pudesse lhe explicar, foi então que em meio de sua mente esperta, lhe veio tal resposta:
- Olha Niquinho, existem ocasiões que, mesmo sendo passada com alguém de seu lado, mesmo sendo ela uma grande personagem de tal aventura, você vive isso sozinho, e não há como mudar ou fazê-la viver, se ela não quiser que isso aconteça... É como chutar a bola nos pés de alguém que não quer jogar futebol. Ela simplesmente não vai chutar de volta, mesmo que tenha a bola ao seus pés. Entende?
Niquinho calou-se por um momento, mas logo depois assentiu e começando entender finalmente a razão do problema: unilateralidade de histórias, que assombrava até os adultos.
No fim, já cansado com tudo, levantou-se também e logo após ajudar Margarida a fazer o mesmo, foi comer uma torta de amoras no jantar, pois era só isso que lhe cabia fazer.
No fim, já cansado com tudo, levantou-se também e logo após ajudar Margarida a fazer o mesmo, foi comer uma torta de amoras no jantar, pois era só isso que lhe cabia fazer.

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