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terça-feira, 11 de novembro de 2014

A Última Dança



               Os dois se encontraram sob a lua cheia. A Dama estava ainda mais linda que todos os outros dias de suas eternas juras, e ele, como amante dedicado, não deixou de perceber enquanto a adorava silenciosamente. A cada passo dado, uma briga inefável se desenrolava dentro do si. Ele sabia que estava errado, sim, mesmo que ponderasse por mais mil anos, tinha certeza de que estava tomando a decisão errada, no entanto, tinha que fazê-la.
               ― Você está linda, Dama minha... ― disse o rapaz ao estar bem próximo. ― Como sempre, você está linda.
               ― Obrigada... ― Retrucou em tom impassível ― Por mais que eu adore ouvir teus elogios, sei muito bem porque me chamaste... Não há outro motivo para estarmos aqui, na completa escuridão... É chegada a hora, não é?
               O rapaz quis fraquejar. Seus sentimentos mandavam que fizesse o completo oposto do a que se propusera; queria beijá-la, levantá-la sob a luz da perversa lua, desejava sentir o toque suave de seus lábios, tragar seu cheiro doce como se fosse ópio... Mas nada fez. Censurou-se por completo e ficou estático, como uma estátua sem vida ― Aliás, não era assim que se sentia? Pois, apesar de seu coração continuar batendo forte ― como estava ―, nunca sentira bater tão fraco e mórbido.
               ― Eu sabia que você entenderia quando eu lhe chamasse aqui... Nada disse até então, pois em meu peito ainda residia pequena flama de esperança de desistir ao pôr meus olhos em você... Mas não posso... Não posso ficar, mas também não posso ir antes de um última dança... Nossa última dança.
               A Dama hesitou, sem saber o que responder. Será que eles poderiam ter uma última dança? Ela estava completamente frustrada, enraivecida. Como podia lhe pedir uma última dança? Não era justo que ele houvesse decidido pelos dois, ir embora, desistir do que tinham... Ia negar-lhe esse pequeno ― mas grandioso ― prazer... Ia embora. Daria as costas e nunca mais olharia para trás, mesmo que ele voltasse a se humilhar prostrado aos seus pés, recusaria categoricamente. Preferia mil vezes que ele encontrasse a morte ao caminho de volta para ela. Sim, tudo isso fora pensado naquele singelo momento, contudo, a dor que também sentia era ainda mais forte que seu orgulho de mulher... A Dama também precisava de sua última dança.
               Aceitou.
               Mesmo sem haver música, os dois começaram a bailar sob a lua. Passaram aqueles intensos segundos completamente imersos um dentro do outro, como se fossem um só. Seus olhares ternos, seus hálitos se encontravam no ar... Oh, era impossível para tais amantes não se deixarem ser tomados pelas lembranças de todas as noites que passaram juntos, de suas conversas, de seus beijos... Efêmeras quimeras que logo acabariam, e pior, esta noite seria lembrada para sempre, adicionada a seus pretéritos textos amorosos.
               Por mais que desejassem continuar eternamente naquele doce momento, a dança não poderia continuar, há muito que já tinham chegado ao máximo aonde seus passos poderiam levá-los: não havia mais para onde ir, restava apenas o fim.
               Assim fizeram.
               Cessados os passos, o fraco rapaz continuou fitando aqueles lindos olhos, procurando forças para dizer o que queria, mas sabia que estava fazendo da forma errada: olhá-la só dava motivos para que ele ficasse, e não partisse.
               Então ele se aproximou ainda mais, perto o suficiente para que sua boca pudesse dar um último beijo. Sua mão foi ao rosto da moça e segurou-o forte. Com os olhos fechados ele tinha as palavras na boca sozinha:
               ― Perdoe-me, mas eu tenho que ir. Obrigado por esta e todas as danças que tivemos. E...
               Ele parou de falar, esperando que ela entendesse o resto de suas palavras. Soltou o rosto da moça e deu as costas.
               ― És um mentiroso, sabias disso? Se me amas como dizes, por que estás fazendo isso?
               ― Porque sou um covarde...
               E assim, o rapaz saiu sem a companhia de Lua ou Estrela pala a escuridão, desejando que a Dama ficasse bem, mais até do que ele mesmo.


NOTA: 
Este texto antigo já está perdido pelo blog há alguns anos... No entanto, fiz alguns reparos necessários e trago como novidade... Acredito que este texto em particular seja importante, principalmente para fazer contraste com meus textos de 2010  início do blog. Trago-o simbolicamente para essa nova abertura do blog...  Então, espero que gostem :3
F. J. Júnior.

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