- Ainda bem que você está aqui...
Ela falou, colocando a cabeça em meu ombro. Com o rosto ainda molhado pelas lágrimas, o peso que ela colocava sobre mim era maior do que pensava que estivesse. Calado, ouvindo-a fungar e murmurar as desventuras que abateram sobre ela, minha mente era apenas parte ouvidos. Não que eu não quisesse ouv-la, claro que não, mas suas palavras arrastavam fantasmas que odiava lembrar, e foram eles os responsáveis por me tirar a completa atenção, levando-me para uma cena distante de anos atrás.
Lá estava ele, deitado, fitando meus olhos, enquanto eu chupava outro cara na sua frente. Estávamos bebados, não pensavamos direito e eu poderia elencar inúmeras outras explicações para aquilo, mas nada mudaria o fato do que aconteceu: nós nos exibiamos para ele que assistia, intrigado, desejoso. Em meus ouvidos, o alarme de que os passos dados não poderiam mais ser retrocedidos continuavam a gritar, mesmo que não fosse capaz de apalacar o tesão mesclado com nossa embreaguez.
Não me recordo ao certo como o passo que faltava foi dado, mas acredito que não fui eu que o puxei, o que me lembro, foi de suas mãos em torno do meu pau, e sua boca quente, molhada, engolindio-o, trazendo-me para dentro de si... Ficamos por algum tempo, naquela brincadeira, sentindo nossos gostos, pesseando pelos tracejados de cada um dos três corpos. Era delícioso, isso nunca pude negar, tê-lo, enfim, depois de tanto tempo, depois de tantas vezes com qual tivemos que nos reprimir, colocando uma grande barreira para que aquilo acontecesse...
Alguns muros existem com uma função e nós fomos tolos de ter ultrapassado.
A culpa que esmagou meu espírito - e que ainda hoje o faz -, foi infinitamente maior do que o tesão que senti. Os sussuros de prazer transfiguraram-se em murmúrios soturnos, a respiração ébria entrecortada foram substituídas pelo estrangulamento da ansiedade em minha garganta. Desesperado, tentei arremesar essas lembranças no lugar mais escuro e esquecido do meu consciênte, apesar de nunca ter encontrado lugar longe o suficiente para impedir que escorregasse para minha cabeça, vez ou outra, como dessa vez acontecia ao ouvir sua namorada se lamentar.
Eu não deveria estar aqui depois do que fiz - era o que pensava em resposta.
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