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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Boca Vermelha

Era manhã; o dia chuvoso mantinha o céu numa intensa e eterna alvorada, deixando apenas que pequeníssimos raios de sol, ora ou outra, fugissem daquela prisão de nuvens, e quando isso acontecia, a luz penetrava entre a janelas do café no qual eu estava.
Os vapores do meu cappuccino dançavam naquele ambiente frio. Foi nesse cenário que ele entrou. Um sorriso de boca vermelha estava cravado naquele belo rosto – eu me espantava de como ele ficava ainda mais lindo toda vida que eu o via.
                Tanto ele quanto os outros de seus amigos que entraram, não me viram sentada timidamente no cantinho do café. Mas eu sim, o via. De repente, aquele desejo de grudar os olhos na pessoa amada se apossou de mim, e por mais que eu tentasse, era praticamente impossível de controlar a minha ansiedade de vê-lo sorrir, o anseios imensurável e quase frenético de me aproximar, de sentar ao seu lado, e ficar um pouquinho em comunhão com ele, no mesmo barco, no mesmo mundo.  Na mesma vida.
                Todavia, dentre todas emoções que passaram em meu peito, a única a qual perdurou fora a angústia, já plantada com raízes fortes em meu coração. Pois no final das contas, eu sabia que era impossível.
                Ah, como é bruta a flor do querer...
                Então, lembrei-me da única forma qual poderia me aproximar.
                O copo do cappuccino dançou ameaçando derramar, quando esbarrei na mesa à procura da minha mochila, afobadamente. Já com lápis e meu caderninho de desenho, comecei a tentar trazê-lo para mim.
                Mas por onde começaria meu desenho?
                Decidi começar por seus cabelos. Mesmo sendo inútil, eu tentava simular a cor negra feito breu que ele possuía. Eram curtos, e eriçados sobre a testa num topete. Logo em seguida, tentei colocar a beleza de seu rosto nas folhas brancas e mortas.
                Os olhos castanhos e serenos, os óculos de bordas pretas enclausurando-os garbosamente. Sua boca... Essa era minha parte favorita. Sua boca era tão rosada, que por vezes se confundia com um vermelho, lindo, charmoso, ao seu redor, uma barba rala – também negra –, que ficava em perfeita sintonia com sua pele pálida e azeitonada.
                Enquanto continuava meu trabalho, Ele conversava absortamente, ainda sem reparar em mim. E sorria, dando aquele sorriso de boca vermelha que só ele possuía, mostrando os dentes brancos. Estralava os dedos finos e também pálidos, coçava a nuca – que possuía uma pequena mancha vermelha –, e alisava seu cabelo.
                De longe, sua voz se perdia no meio de outras pessoas conversando, e do som que tocava numa vitrola mais adiante. Não que a música fosse ruim, longe disso, todavia, ele, com sua voz rouca e firme, era como uma melopeia, feita especialmente para mim, e quanto a isso, nem as músicas de Chico Buarque seriam capazes de competir.
                Com o passar do tempo, eu fiquei perdida nos detalhes do meu desenho, ousava tentar imitar a faceta de Gepeto , porém, com um reles papel. A única coisa que, agora, penetrava em minha mente era a música, e tudo – por mais irresistível, que fosse – parecia se ausentar à medida que os detalhes aumentavam.
                Sem que eu percebesse, o tempo parecia se esvair mais rapidamente enquanto eu estava fixa em minha idiota tarefa. Pois era bem assim que eu me sentia: uma completa tola. Apaixonada por quem nem mesmo me conhecia. Como ele era capaz de fazer isso comigo? Bastava aparecer, e uma onda quente percorria todo meu corpo, o coração, pulava feito um maluco, frenético... Sim, de fato, era uma tola, mas uma apaixonada – na verdade, poucas vezes os dois se distinguem.
                Mas já lastimava ter que terminar meu desenho. Não podia andar com ele em minhas coisas, logo que estivesse pronto, o largaria fora, o abandonaria para não cair em tentação de me perder naqueles olhos de quimera.
                E era tempo então. Por mais que eu houvesse me esforçado o máximo para lhe dar a real beleza, ainda sim existia uma enorme lacuna entre o real e o esboçado. Não que meu desenho fosse ruim, bem longe disto, mas não havia como conseguir ser inteiramente fiel, pois as coisas de belezas infinitas, só são criadas uma única vez. Creio que até Da Vinci se frustraria ao tentar.

                E assim, levantei um tanto desolada, como se ao deixar meu desenho na mesa, juntamente com o dinheiro da conta,  eu estivesse largando um pedaço de mim. Mas mostrando bem que até uma paixão platônica, pode ser descrita num sublime desenho, desde que seja feito, por se não, pelas cores do amor.

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