Era manhã; o dia chuvoso mantinha
o céu numa intensa e eterna alvorada, deixando apenas que pequeníssimos raios
de sol, ora ou outra, fugissem daquela prisão de nuvens, e quando isso
acontecia, a luz penetrava entre a janelas do café no qual eu estava.
Os vapores do meu cappuccino
dançavam naquele ambiente frio. Foi nesse cenário que ele entrou. Um sorriso de
boca vermelha estava cravado naquele belo rosto – eu me espantava de como ele
ficava ainda mais lindo toda vida que eu o via.
Tanto
ele quanto os outros de seus amigos que entraram, não me viram sentada
timidamente no cantinho do café. Mas eu sim, o via. De repente, aquele desejo
de grudar os olhos na pessoa amada se apossou de mim, e por mais que eu
tentasse, era praticamente impossível de controlar a minha ansiedade de vê-lo
sorrir, o anseios imensurável e quase frenético de me aproximar, de sentar ao
seu lado, e ficar um pouquinho em comunhão com ele, no mesmo barco, no mesmo
mundo. Na mesma vida.
Todavia,
dentre todas emoções que passaram em meu peito, a única a qual perdurou fora a
angústia, já plantada com raízes fortes em meu coração. Pois no final das
contas, eu sabia que era impossível.
Ah,
como é bruta a flor do querer...
Então,
lembrei-me da única forma qual poderia me aproximar.
O copo
do cappuccino dançou ameaçando derramar, quando esbarrei na mesa à procura da
minha mochila, afobadamente. Já com lápis e meu caderninho de desenho, comecei
a tentar trazê-lo para mim.
Mas por
onde começaria meu desenho?
Decidi
começar por seus cabelos. Mesmo sendo inútil, eu tentava simular a cor negra
feito breu que ele possuía. Eram curtos, e eriçados sobre a testa num topete.
Logo em seguida, tentei colocar a beleza de seu rosto nas folhas brancas e
mortas.
Os
olhos castanhos e serenos, os óculos de bordas pretas enclausurando-os
garbosamente. Sua boca... Essa era minha parte favorita. Sua boca era tão
rosada, que por vezes se confundia com um vermelho, lindo, charmoso, ao seu
redor, uma barba rala – também negra –, que ficava em perfeita sintonia com sua
pele pálida e azeitonada.
Enquanto
continuava meu trabalho, Ele conversava absortamente, ainda sem reparar em mim.
E sorria, dando aquele sorriso de boca vermelha que só ele possuía, mostrando
os dentes brancos. Estralava os dedos finos e também pálidos, coçava a nuca –
que possuía uma pequena mancha vermelha –, e alisava seu cabelo.
De
longe, sua voz se perdia no meio de outras pessoas conversando, e do som que
tocava numa vitrola mais adiante. Não que a música fosse ruim, longe disso,
todavia, ele, com sua voz rouca e firme, era como uma melopeia, feita
especialmente para mim, e quanto a isso, nem as músicas de Chico Buarque seriam
capazes de competir.
Com o
passar do tempo, eu fiquei perdida nos detalhes do meu desenho, ousava tentar
imitar a faceta de Gepeto , porém, com um reles papel. A única coisa que,
agora, penetrava em minha mente era a música, e tudo – por mais irresistível,
que fosse – parecia se ausentar à medida que os detalhes aumentavam.
Sem que
eu percebesse, o tempo parecia se esvair mais rapidamente enquanto eu estava
fixa em minha idiota tarefa. Pois era bem assim que eu me sentia: uma completa
tola. Apaixonada por quem nem mesmo me conhecia. Como ele era capaz de fazer
isso comigo? Bastava aparecer, e uma onda quente percorria todo meu corpo, o
coração, pulava feito um maluco, frenético... Sim, de fato, era uma tola, mas
uma apaixonada – na verdade, poucas vezes os dois se distinguem.
Mas já
lastimava ter que terminar meu desenho. Não podia andar com ele em minhas
coisas, logo que estivesse pronto, o largaria fora, o abandonaria para não cair
em tentação de me perder naqueles olhos de quimera.
E era
tempo então. Por mais que eu houvesse me esforçado o máximo para lhe dar a real
beleza, ainda sim existia uma enorme lacuna entre o real e o esboçado. Não que
meu desenho fosse ruim, bem longe disto, mas não havia como conseguir ser
inteiramente fiel, pois as coisas de belezas infinitas, só são criadas uma
única vez. Creio que até Da Vinci se frustraria ao tentar.
E
assim, levantei um tanto desolada, como se ao deixar meu desenho na mesa,
juntamente com o dinheiro da conta, eu
estivesse largando um pedaço de mim. Mas mostrando bem que até uma paixão
platônica, pode ser descrita num sublime desenho, desde que seja feito, por se
não, pelas cores do amor.
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