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sábado, 10 de maio de 2014

O Acontecimento de Paris

                O casal fitava a maravilhosa vista da cidade luz enquanto se enamoravam na belíssima Torre Eiffel, algo que era ― sem sombra de dúvidas ― tão extraordinário quanto distinto.
                ― Não é lindo, amor? ― dizia Lucas a sua doce amada, beijando-lhe as faces e o pescoço – Paris... Ah Paris! Sabia que ela fica ainda mais linda com você aqui.
                Rebeca pareceu não gostar, mesmo com todo clima romântico a sua volta, conseguiu remexer os lábios e franzir o cenho em desacordo com o que seu namorado acabara de falar.
                ― O que foi? ― Perguntou ele, preocupado.
                ― Nada, amor, nada não.
                ― Rebeca! Fala sério, o que foi dessa vez? Pode falar!
                Rebeca virou-se e deu uma grande olhada
em toda cidade luz. Há quem diga que seu olhar era entediado, seco e extremamente insensível a toda aquela beleza. Por fim, virou-se para Lucas com o mesmo ar aborrecido.
                ― Você mal está prestando atenção em mim, Lucas, e cá entre nós, meu amor, Paris sempre será a mesma! Quer eu esteja aqui ou em Roma! ― disse ela em um tom nada doce ― Então, não me diga isso, por favor! Além do mais, Paris nem é tão linda assim, é só uma cidade boba.
                O pobre rapaz parou sem acreditar com que acabara de ouvir. Ele, que há meses trabalhava dobrado para conseguir mais dinheiro, perdia noites de sono somente para planejar a viagem perfeita, o momento perfeito com sua amada amada,  viu suas fantasias serem jogadas fora, sem o merecimento que deveria receber. Afinal, era ou não um grande presente?  Mas tudo bem, Lucas ainda fazia parte da escassa safra de homens românticos, gentlemens, dos quais que não importava a situação, sempre conseguiam manter o perfume de Eros no ar, então, resolveria esse contra tempo, só precisava respirar fundo antes de prosseguir mais calmamente.
                 ―Bom, excusez-moi mon amour ... Prometo que escolheremos outro destino da próxima vez.
                ― Da próxima vez, não é? ― Retrucou Rebeca.
                ― Claro! O que acha do... Caribe!
                ― Quente demais.
                ― Canadá?
                ― Frio demais.
                ― China?!
                ―Chinês demais.
                Lucas parou novamente, dessa vez, não houve código cavalheiresco que o impedisse de desejar empurrar sua amada torre a baixo.    
                ― New York?!
                - Aí amor, muita gente.
                O folego fugiu de seu peito, já não sabia mais o que fazer para animá-la ou para provar seu amor. De repente, lembrou-se do motivo de estarem ali, e como última arma, estalou os dedos. Violinistas apareceram do nada, como se houvessem ali brotado de alguma flor invisível! Ah sim, e que violinistas!
                A melodia então começou a soar inundando o ambiente,  Lucas aproveitando o espanto de sua bela amada, ajoelhou-se diante de seus pés e de dentro do bolso, retirou uma caixinha de veludo vermelha. Ah... Era um pedido de casamento! Não, não, mais do que isso! Era uma afirmação de seu incomensurável amor por aquela mulher.
                - Aí Lucas... – disse ela olhando toda a cena inteiramente estupefata – Que coisa mais...
                Tudo aconteceu em um único segundo. A respiração do rapaz ficou presa em algum lugar desconhecido, na mesma hora que viu o espanto de Rebeca, uma centelha de esperança brotou em seu peito. Não havia como ela não gostar – estava seguro disso –, não havia como! Tudo era perfeito! A cidade mais romântica do mundo, os violinos – órgão favorito de sua amada – tecendo volúpias melodias, ele, seu eterno namorado, ajoelhado na frente de todos, somente provar o quanto a amava! Tudo estava mais que perfeito! Então não, não havia nenhuma ínfima chance dela discordar agora... Certo? Errado. Pobre rapaz, ninguém o avisou sabia que a certeza é algo inteiramente variável e extremamente dependente de cada pessoa. Podia ele ter suas certezas inabaláveis, que para Rebeca, não passariam de infames caprichos ― Eis a tragédia de amantes dissonantes.
 ―Clichê ― Completou Rebeca totalmente desdenhosa.
                Foi o tiro certeiro no amante que desabou, deixando a caixinha cair na escuridão daquela cidade que só deveria existir luz. Os violinistas pararam de tocar, o silêncio constrangedor tomou de conta do ambiente. Todos ao redor os olhavam ― e se entreolhavam ― de forma completamente incrédula, e em certo ponto, até ofendidas. Recusar um pedido romântico na cidade mais romântica do mundo era um terrível sacrilégio! Se Lucas houvesse empurrado Rebeca da torre, teria recebido muito mais aprovações da sociedade parisiense do que aquilo ― e devo acrescentar que não precisaria passar por aquele embaraçoso episódio.  
                Rebeca pareceu ter percebido o ar abatido de seu namorado e começou a se aproximar tão delicadamente, que por um momento, o rapaz achou que ela fosse se desculpar com ocorrido. No entanto, ao invés de escolher palavras de redenção, optou por algo:
                ― Ah, vai ficar calado agora, é isso, só para estragar a nossa noite?! Não sei como ainda namoro um garoto tão birrento como você!
                Não deu outra. No dia seguinte, todos os jornais falavam sobre o jovem que havia pulado da Torre Eiffel na noite anterior.

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