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quinta-feira, 15 de maio de 2014

Às vinte e duas horas.

Às vinte e duas horas da segunda, bateu o ponto de seu trabalho, pegou uma condução abarrotada até sua casa bagunçada, despiu-se, banhou-se e foi dormir, pois, pela manhã, teria de acordar cedo – Amanhã arrumo tudo!
Sonhou...
Acordou sem vontade, comeu algo sem gosto e foi trabalhar. As vinte e duas horas passaram a se repetir, dia após dia, cotidianamente... Despia-se, banhava-se e dormia, afinal, em todos os dias seguintes, ele teria de acordar cedo. Com o passar do tempo, já não mais sonhava.
Naquele dia, às vinte e duas horas, pegou seu cartão, bateu o ponto, encerrando seu trabalho. Dessa vez, não pegou uma condução abarrotada para casa. Resolveu ir caminhando envolto pela soturna escuridão da noite.
Passou, então, por um boteco que há muito deixara de frequentar, apesar de ser bem ali, pertinho de seu trabalho. Bebeu as três primeiras doses do uísque mais caro que lá havia – sem gelo, por favor! –, e parou um momento para pensar em seu projeto de vida.
Tudo estava tão morto... Tão escuro! Não havia uma única cor no luzir das estrelas lá fora. Era tudo assim, preto ou branco, como os fios de seus cabelos. Os brancos insistiam em aparecer tão incansavelmente, que deixavam ainda mais evidente o esvanecer da fugida juventude.
Para falar a verdade, ele não sabia ao certo se sua juventude houvera fugido entre seus dedos ou sido roubada abruptamente, e, embora buscasse incansavelmente respostas, de nada adiantaria, já que, em ambos os casos, o fato era o mesmo: ela já havia ido embora, e não retornaria.
Não era assim que me via aos trinta... – pensou.
― Mais uma dose, por favor!
Não era assim que queria viver aos trinta! 
Bêbado, temia e tremia, pois já era quase meia noite, e como sempre, teria de acordar cedo pela manhã. Mas não queria... Não era aquilo que havia programado quando jovem. Ah, que se dane!
Deixou as horas em cima da mesa, pediu mais uma dose, a conta, e saiu trôpego pelas ruas da cidade. Só então conseguiu andar livre por alguns quilômetros. Em sua caminhada, viu um pequeno campo de futebol e o reconheceu de outros tempos. Era lá que, quando criança, costumava brincar com seus amigos. Alegre, satisfeito... Não havia sequer uma única preocupação que não fosse aquele gol perdido... Outros tempos.
Passou também pela rua de um antigo e verdadeiro amor. Uma namorada de quando ainda tinha impecáveis cabelos negros. Oh! sim, como aquela lembrança o fazia sofrer! Era, deveras, um verdadeiro amor que fora deixado para trás, pois só podiam se encontrar às vinte e uma horas... E vinte e uma horas não cabiam em seu horário.
Ah... Foram tantos os fios negros que havia deixado para trás! Amigos, amores, sonhos... E para quê?! Para vinte e duas horas pegar o seu cartão e bater o ponto? Manter uma casa, somente para dormir, porque pela manhã teria de acordar cedo?
Naquele desesperador momento em que finalmente encontrou consigo mesmo, entendeu o verdadeiro valor da cor de seus cabelos, seu valor inefável perante todo o dinheiro que conseguira aos findares de tantas vinte e duas horas.
Quando enfim chegou a sua casa, viu que estava completamente desarrumada. Tudo estava uma bagunça! Havia livros que nunca tivera tempo de ler, garrafas pela metade que nunca pudera terminar, e tantas outras coisas que nunca conseguira concluir, afinal, em todas as manhãs, teria de acordar cedo.
Foi a gota d’água!
Arrumou tempo, arrumou a casa, terminou todas as garrafas que estavam pela metade, leu os três últimos sonetos, deu alguns laços e dormiu...
Mas já não mais teria de acordar cedo pelas manhãs.

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