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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Papéis avulsos.

                Era como uma imensa mansão, onde facilmente se poderia caber milhares de mundos, ou quem sabe, um universo inteiro. No entanto, lá estava eu, sozinho no mais deslumbrante salão em companhia ao absoluto nada  ― e isso em apavorava imensuravelmente. Como tal maldição poderia ser recaída sobre mim? Logo eu, que presenciei glamorosas festas naquele salão, que vi inúmeras damas e seus cavalheiros dançarem ao canto entoado pelas Musas, beijos sendo desfrutados por seus amentes, histórias e vidas entrelaçadas no tear do destino; para agora, ser me dado o castigo da mais absoluta reclusão?! Era a pior de todas as desgraças. Poderia ― preferiria ― mil vezes cair moribundo de tuberculose com os jorros de sangue me escapando dolorosamente pelos lábios, por milhares e outras milhares de anos; ansiava que houvessem me estripado cada centímetro do meu corpo frágil, arrancando-me todos os órgãos um por um ou me posto em chamas como as antigas bruxas, mas nunca, nunca estar sozinho naquela imensa mansão! Era assustador demais.
                Num ímpeto de pavor e desespero, corri para todos os lugares que me permitia ir. Entrei em cada porta que me cabia, vasculhei minunciosamente salas encontradas no meio do caminho, cheguei até mesmo a clamar por todos os sagrados deuses ― e profanos demônios ― para que os trouxessem de volta àquela mansão e a solidão não fosse minha eterna companheira. Queria puder vê-los novamente, senti-los, ouvi-los, pois sem eles, eu era como um cavalheiro que perdera sua honra, ou um super-herói sem seus poderes. Sim, precisava de cada um deles para ser quem era, ou quem desejava ser.

No entanto, depois de horas naquela busca desgraçada, finalmente cedi, uma vez que todos os meus esforços pareciam vãos. Caí no mármore frio, completamente tomado pelas sombras da solidão ― Eis o meu próprio inferno, oh, Dante! ―, e por mais que me doesse o espírito, eu tinha que admitir: não mais os encontraria lá, na imensa mansão dentro de mim, e ficaria sozinho para sempre.  E por estar assim, todas as folhas à minha frente ficaram avulsas, sem única gota de tinta para nos dar uma vida.

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