— Eu não acredito
que você queimou minha barraca, Max! — murmurou o garoto sardento. Apesar de
sua voz se abafar no pequeno espaço, percebia-se o tom de raiva genuína — Você
precisa se controlar mais!
Max se remexeu desconfortavelmente.
Os dois estavam espremidos numa barraca pequena, cheia de malas jogadas uma
sobre as outras. Era a punição para Max, talvez. O grupo inteiro decidira, de
maneira unanime demais, que, devido o incidente, Artur iria dormir com ele:
mesmo que sua barraca mal o coubesse. Por isso espremiam-se, um contra o outro.
Já tinham tentado formas de ficar confortáveis e nada conseguiram encontrar:
quando um estava satisfeito, os dois entravam em atrito entre si, tinham que
encontrar uma forma igual em conforto. Quando um estava bem, o outro reclamava
por posições e posições seguidas. Até que enfim encontram: as pernas cruzadas,
entrelaçadas entre si em que sempre que se mexiam, o corpo dos dois se
aproximavam ou acochavam. Podia não ser o paraíso, mas era o mais próximo de
Elísios que encontraram.
— Você sabe que
mereceu. Você tem se comportado feito um babaca desde que...
— Desde que
comecei a namorar Aline? — Artur também se remexeu, elevando sua voz — Qual seu
problema com ela, afinal?
— Eu não tenho
problema nenhum com ela, meu caro. Desde que ela não seja um problema para o
grupo. Você atrasa treinos, deixa de estudar os pergaminhos...
— E desde quando
você se tornou fiscal de produtividade? — Artur se remexeu com mais força, com
o intuito de chutá-lo entre as pernas, parando, porém, muito perto do objetivo
— Não temos um líder.
Max apertou a suas
coxas contra a perna do rapaz, fazendo-o gemer levemente de dor. Artur o olhou
com o máximo que conseguia se dirigir a imagem de uma penumbra muito perto de
si. Definitivamente, não conseguia compreender o problema. Ele não era culpado
por terem se afastado, ainda sim, de alguma maneira, via o outro falar ou se
ressentir, pesaroso, como quem fora deixado.
— Não temos um
líder e é por isso que temos que confiar em todos. Você está cuidando assim?!
— Ah, não, Max! —
berrou em resposta. As outras pessoas, e não só a do seu grupo, reclamaram,
chiando para que diminuíssem o tom. Ele obedeceu, ainda estava confuso sobre o
que esperar de acampamentos. Sussurrou: — Você sabe o que eu tenho feito pelo
grupo. Eu tenho me dedicado como todo mundo ali. Se você parasse de pegar no
meu pé talvez percebesse! Então, sai fora!
— Eu não pego no
seu pé! — bradou. Mais novos chiados. — Nem tudo gira em torno de ti, meu caro!
Artur revidou e,
durante alguns ridículos segundos, os dois garotos travaram um projeto de luta,
em que os participantes ficam presos um ao outro por suas pernas e braços.
Pararam quando ambos começaram a soar e perceberam que aquele calor era algo
pelo qual deveriam não passar. Assentiram tacitamente juntos, apesar de não
terem se mexido para as posições iniciais.
Nesses momentos em
que Artur não precisava trocar uma única palavra para que compreendessem
qualquer coisa que tinha a dizer, era que sabia estar fazendo a coisa certa.
Era fácil, natural. Até mesmo nestes raríssimos momentos em que ele e Max
conseguiam compreender sobre qualquer coisa, parecia ser bom o suficiente para
lutar. Não estavam tomando a decisão errada — pelo menos, em algum momento de um
futuro, ainda permanecia incrédulo sobre o ritual dar certo.
— Você me vê de
uma maneira tão ruim assim? — foi Max quem quebrou o silêncio, depois de suas
respirações voltarem a ficar calmas. Ainda sussurrava, lembrando de seus
vizinhos.
— Não te vejo de
uma forma ruim... Te vejo de uma forma chata! Precisa aprender a relaxar!
— Eu sei relaxar!
— Não, Max, não
sabe.
O garoto se calou,
irresoluto. Preocupar-se com o grupo não era não saber relaxar. Assim como a
maioria, ele também não se encaixava com os outros, por mais que popular um
adolescente de 17 anos pudesse ser numa escola de Paranapiacaba. Não só isso:
nutria, por cada um dos seis, um sentimento de proteção, de afeto. Sabia da sua
força e não encarava protege-los como fardo, e sim como um prazer. Gostava de
se sentir útil, para os seis, aquilo hexaplicava.
— Tudo bem, então
— suspirou, forte, fazendo Artur sentir seu hálito quente — Você quer que eu
aprenda a relaxar. Vamos continuar com o jogo! Prometo não fugir como da vez
anterior. Eu faço uma pergunta na minha vez, respondo na próxima. “E você” não
conta como pergunta válida e pode assumir algo no lugar. Simples, fácil. Não
precisa ser muito inteligente para entender.
— Eu estava lá,
Max. Eu sei das regras e mesmo assim... Não...
— Vamos! Os outros
dizem que temos que melhorar a nossa relação. Nada melhor que o estúpido jogo
da Verdade. Já disse, não vou fugir de nenhuma pergunta.
— Ok. Comece,
então.
Artur apenas
assentiu, exasperadamente. Max, no entanto, parou, não estava preparado para
vencer aquela discussão tão cedo. Estruturara somente a primeira parte do
plano, faltava a crucial: o que perguntaria para Basílio? Teria alguma coisa
para saber a verdade? Foi quando, de fato, percebeu que não entendia muita
coisa sobre o rapaz. Sim, tinha mantido um distanciamento seguro, pelo bem do
grupo — foi o que pensara —, se todos estavam de amorzinho com o novato, ele
deveria se manter imparcial. Distante. Agora, então, não sabia por onde
começar.
— É por isso que
você falou aquilo para o Igor mais cedo? — pronunciou as primeiras palavras que
pularam para fora de sua língua. Ao fazer-se do silêncio, sentiu a necessidade
de explicar. — Mais cedo quando falamos de mim. Você disse que não me pegaria
nem em mil anos... É por isso, por não saber relaxar, porque sou chato? Porque
eu pego no seu pé?
— Não, não
acredito que é sobre o que isto se trata? Porque eu não inflei teu ego imenso?
Nunca desconfiei que tu fazia o tipo com autoconfiança baixa, Max. Podemos
parar por aqui.
— Estou fazendo
isso pelo grupo, seu babaca! — remexeu-se, acertando a coxa contra a de seu
amigo. — Você topou e não tenho pergunta melhor no momento, então responde ai!
Artur tensionou o
maxilar, com o imenso ridículo, constrangedor!, que aquela cena se tornava:
dois adolescentes, homens, bruxos, que tinham tido um histórico extremamente
discutível de amizade, apesar de hoje não se suportarem, entrelaçados, com
perguntas sobre preferências sexuais de um garoto extremamente narcisista? Não
precisava dos poderes de pré-cognição de Miguel para saber que tudo só pioraria
dali para frente, caso desse um passo a mais.
Contudo, tinha de
entrar no jogo. Respirou fundo e abriu os olhos, encarando a imagem entregue a
penumbra de Max, com pouco menos de um palmo de distância, em que pensaria
estar numa das lições de mágica: era pelo grupo, o outro mesmo dissera.
— Não, não foi por
isso que eu disse aquilo. Você pode se achar grandão e fortão, como uma coluna,
mas foge antes que a gente perceba, não tem nada de verdadeiramente seguro
nisso. Nem mesmo tem como saber o que esperar de ti. Por que estar com alguém
assim?!
— Porque eu tenho
tanquinho? — tentou.
— É, estou
sentindo. Mas mesmo assim, não, obrigado. — Artur parou, pensando na pergunta.
Sempre teve algo que queria saber, e, já que participava de toda aquela falta
de senso, além de espaço, perguntaria de uma vez : — Por que você parou de
falar comigo e se afastou daquela maneira? Quando éramos crianças...
Desta vez, quem
deu o grande suspiro foi Max, porém, diferente de Artur, o peito permanecia num
ritmo levemente descompassado. O acocho entre os dois aumentou, embora ninguém
soubesse de quem, ou quê, era o sentimento que o impeliam a fazer aquilo, sem
se importar com as resistências pelo meio do caminho. Era isso que sempre via
quando tocava no assunto: o garoto sempre ficava tenso, pesaroso.
— Não adianta
falar se não vou ser acreditado.
— Ah, não, você
não pode mentir! Eu falei a verdade e me deve o mesmo.
— Tudo bem, a
verdade é que fiquei com medo. — começou, francamente, sentindo seu peito
descompassar ainda mais — Nós erámos como irmãos... Aí descobri a magia e você
sabe, é quase um processo natural nos afastarmos. Antes que você fizesse isso,
eu fiz. Não sabia como lidar, sei lá.
Max terminou suas
últimas palavras numa bufada quente de quem
descarrega um peso enorme, após imensa labuta. Contrariando seu desejo
de gritar, controlava-se num tom baixo, sussurrante. Costumava pensar que não
se importava com o que Artur pensava, estava errado. Via isso agora. Ele sempre
fora a opinião que mais importava.
— Isso não faz o
menor sentido para mim!
— Eu tinha doze
anos, desculpe se me faltava maturidade para discernir como me portar com
pessoas não-mágicas. Minha vez: qual é a coisa mais embaraçosa que você faz
escondido?
— De que revista
da capricho tu retirou isso, Max?
— Cala a boca e
responde. Ainda não tenho uma pergunta boa pra fazer.
— Eu gosto de me
ver no espelho... Não é nada demais, mas não faço isso na frente dos outros.
— Tipo pelado?
— Não, tipo provando roupas para minha
promissora carreira de modelos de moletom! — novas remexidas. — Sim, é claro
que é pelado. Qual tua música favorita?
— Glory Box! É ótima para fazer sexo. —
Max sentiu o olhar julgador de Artur em seu rosto — O que foi? Adora ficar de
frente pro espelho fazendo só Deus sabe o quê, e me crítica por que eu gosto de
transar com música?... Por falar nisso, tu gosta de se olhar no espelho por que
tem tesão em ti? Tipo, no teu corpo ou no corpo de um cara?
O tom de Max era
de uma curiosidade genuína. Os rumos daquela conversa poderiam não estar indo
pelos rumos mais sério, no entanto, seguiam sinceramente em relação um ao
outro. Era um grande avanço, pensando nos últimos meses, não poderia perder
isso.
— Um pouco dos
dois, talvez? — respondeu — Raramente eu fico com caras, então, pode ser que
seja isso. E você?
— Essa pergunta
não vale.
— Tudo bem: por
que você tem que dormir de cueca?
— Ora, desculpe se
não esperava receber visitas. Não trouxe muitos pijamas elaborados para usar
esta noite. E como se esse seu short de moletom fosse melhor do que minha
cueca.
Artur novamente
tentou acertá-lo com a perna, mas apenas conseguiu fazer com que Max se
mexesse, fazendo a maior parte do seu corpo de estofado. Temia se movimentar
mais, principalmente, porque começava a achar estranhamente confortável. A
madrugada começava a esfriar, a perna quente que recaía sobre si esquentava-o.
Não, não eram só elas, percebeu, os braços do outro garoto também já se
entrelaçara ao seu corpo, sua cabeça apoiava-se sobre um deles. Até mesmo as
respirações de ambos emanavam calor.
— O que foi a primeira coisa que você pensou
quando percebeu que era bruxo?
Artur se
surpreendeu. Aquela parecia uma pergunta sincera, íntima, não uma coisa
pré-pronta de revista adolescente. Pela primeira vez em dias, pareciam estar
entrando no ritmo certo.
— Que eu estava
ficando louco... Louco como meu pai. Não foi nada bom, na verdade...
— Sinto muito...
— Não, espere! —
Artur interviu. — Mas a primeira vez que descobri o grupo, essa foi a sensação
realmente boa. Eu pensei que talvez... Talvez eu pudesse pertencer realmente a
um lugar... Sim, bem clichê de adolescente.
Max poderia ter
gargalhado, sabia bem, no entanto, o garoto louro apenas arfou num sorriso que
estava longe de ser desdenhoso ou de zombaria. Era um riso confortável e
quente. Era acolhedor. Sorrisos podiam fazer aquilo?
— Eu pensei que
nunca mais iria lavar louça na mina vida! — cochichou gratuitamente, ainda
exibindo aquele sorriso levemente abobalhado. — Já pensou?
— Max perfeito não
gosta de lavar louça? Não, quem diria!
— Babaca!
Os garotos se
cutucaram, animadamente, desta vez. O silêncio se aconchegou sobre os dois, em
seguida, com as respirações se compassando entre si. Duraram algum tempo mais
espaçados até a nova pergunta realizada por Artur, que não precisava ser
lembrado de que era sua vez, mesmo depois de minutos sem falar nada. Fluiu,
apenas:
— Por que você
pirou lá no sítio? Desde que chegou lá, começou a se comportar de uma forma
diferente, não falou a verdade quando jogamos. Tudo isto tem alguma coisa a
ver?
Max não respondeu,
tensionando seus músculos, fazendo Artur temer ter ido longe demais. Não podia
enxergar muito bem, mas podia jurar quem o garoto fechara os olhos. Já estava
pronto para intervir, quando o efêmero silêncio foi quebrado pelo outro:
— Como você sabe,
eu acordei mais cedo do que a maioria. Desde cedo eu passei a treinar com meu
pai e ele me ensinava todo os tipos de feitiços, alguns complicados e perigosos
demais para uma criança. — Max parou, suas linhas do maxilar estavam mais
fortes. — Numa manhã eu estava sozinho, tomando banho de piscina, quando as
defesas da casa cederam, um grupo de quatro bruxos invadiram a casa. Por sorte
não me viram, foram em direção a casa e começaram a vasculha-la, quebrando
tudo. Uma cena de filme, sério.
As imagens daquele
dia inundaram sua mente.
O pânico o tomou.
Seus músculos tremeram de uma forma que nunca mais fizeram depois daquele dia,
e o garoto sabia que não era por estar com frio da piscina. Saiu, tentando não
fazer barulho — era o único plano que tinha. Uma das figuras o viu antes que a
criança pudesse pensar no que fazer depois. Dois dos bruxos vieram ao seu
encontro, estavam descuidados, talvez pensassem que ainda não tinha acordado,
se é que possuía algum poder. Definitivamente, não estavam preparados para o
que aconteceria: suas mãos moveram-se mais rápido do que cabeça, o feitiço
sendo proferidos por seus lábios e num segundo, o primeiro caía longe. O
segundo entendeu o recado, pondo-se em defesa para os novos feixes de luzes que
o atingia.
A balbúrdia vibrou
pelo sítio inteiro, fazendo com que os restantes dos invasores revidassem
contra o garoto que agora se escondia sob o balcão do deque. As palmas de sua
mão ardiam, pequenos filetes de sangue escorriam pelo punho. A respiração
ofegante fazia-o sentir como se estivesse afogado. Nunca soltara tantos
feitiços de ataque de uma vez só. Não sabia se tinha sido atingido, mas algumas
costelas doíam. Estava apavorado, pela primeira vez em sua breve vida
experimentava o temor de uma batalha com outros bruxos, que não seu pai, o qual
pararia antes que alguma acontecesse.
— Cutis! — bradou,
pondo-se de pé, seus dedos empunhados feito uma lança.
O feixe de luz
cortou o ar, acertando em cheio o bruxo que antes tentava se defender,
fazendo-o cair para trás. Mas o número era maior do que poderia batalhar
sozinho e, em poucos segundos, o grito de Max, sentindo alguns de seus ossos
quebrarem, retumbava por todo o sítio.
— Eu não sei o que
teria acontecido se meu pai não tivesse aparecido. — continuou a narrar o
garoto, em tom de voz rouco. — Ele
abateu os três bruxos restantes bem mais rápido do que eu... O restante é muito
confuso, devo ter desmaiado. Só volto a ter lembranças do dia seguinte, meu
braço estava enfaixado e eu tinha curativos por várias outras partes do corpo.
— Vaso ruim nunca
quebra! — cochichou Artur, cutucando a barriga de Max.
Ele se remexeu,
retribuindo a brincadeira com um movimento de ombro. Não parecia estar tão mais
tenso, no momento em que tornou a falar:
— Mesmo quebrado,
eu ainda me senti culpado por não ter, sei lá, conseguido proteger a nossa
casa... Foi quando meu pai disse que, enquanto estivesse no sítio, ele me
protegeria e eu poderia... Relaxar. Por isso insisti para que passássemos
alguns dias lá, só o grupo. Precisava baixar minha guarda para poder pensar
direito... Te ver levar Aline lá, quebrando o nosso voto, me fez ficar puto,
porra. Era um lugar em que eu não precisava me preocupar com nada e você trouxe
uma das preocupações bem para o meio dele!
— Desculpe.
— Tudo bem, eu
nunca contei isso a ninguém, não tinha como saber disso.
Artur deixou
escapar algo próximo a um projeto de sorriso orgulhoso, com a ideia de ter
ganhado a confiança de Max ao ponto de lhe confidenciar algo assim. Não
tornaram mais a falar durante muito tempo e as únicas coisas que se podiam
ouvir eram suas respirações, harmônicas, e o barulho lisos de pele. Os cabelos
avermelhados subiam por entre dedos pálidos que dançavam suavemente. Não sabiam
como, nem o por quê, mas perceberam de repente o quanto seus corpos estavam
colados um ao outro. As pernas de um, emaranhava-se entre as do outro. Nenhum
movimento, por menor que fosse, era passado despercebido, aliás, muito pelo
contrário, ambos pareciam confortáveis para deixar suas coxas zanzarem sem um
limite a vista.
— Olha só... —
sussurrou em tom rouco, Max, tocando o peito de Artur com a ponta dos dedos,
descendo até sua barriga — Pelo visto não sou o único a ter tanquinho aqui.
Ele o tocava,
morno, percorrendo seus músculos. O mais surpreendente naquilo tudo era a
naturalidade com que a ação se desenrolava, feito um complexo sistema de
engrenagens que rodavam sem nenhum conflito. Artur cerrou os olhos,
permitindo-se por a mão sobre as coxas do outro, afagando-as, sentindo os pelos
ralos fazerem cócegas. Pouco importava por onde suas mãos deslizassem, fautosas,
pois em cada centímetro eram recebidas com uma eletricidade ímpar.
Max se remexeu,
ajeitando o seu corpo para que Artur se aconchegasse com a cabeça e as pernas
sobre ele. Enlaçando-o com seus braços, trouxe o rosto sardento para perto do
seu, pondo a mão em sua nuca. Fluíam, um ao outro, perdendo o fôlego por lábios
úmidos. Sem que precisassem trocar uma única palavra, despiram-se, aproveitando
a sensação das peles quentes, aconchegadas. Seguiam, em passos harmônico, o
desbravamento pelos tracejados que se misturavam, embaralhado dos amassos.
O garoto sardento
foi o primeiro a provar o gosto de Max, sentindo-o dentro de si, com a boca
morna. Era preciso muito controle, e alguns travesseiros, para que o barulho não
fosse suficiente para acordarem seus vizinhos. Aquela atração arrebatava-os de
maneira única, peculiar. Artur raramente se sentia assim com outros rapazes. Na
verdade, raramente se sentira assim com outras pessoas. Nada, em nenhum
movimento, caminhava para o errado. Não que tivessem feito tudo com passos
sincronizados, atrapalhados na barraca apertada, vez ou outra batiam a cabeça,
colocavam-se em posições desconfortáveis, apenas resultavam em risos abafados.
Cochichavam, em
arfadas, alguns insultos e provocações, numa tentativa demasiadamente falha de
reproduzirem os repertórios das duas pessoas que nunca mais voltariam a ser. Em
algum momento, Max percebeu, com excitante espanto, o quanto gostaria de que
tivesse mais luz, ao fitar com dificuldade os contornos de Artur delimitando-se
na penumbra, sobre ele. Desejava descobrir quais cores resultariam daquela
mistura de vermelho e amarelo que surgia diante de si. Nunca o percebera, mesmo
passando muito tempo ao seu lado, no entanto, agora que fazia, não vislumbrá-lo
nos mínimos detalhes o qu.e suas mãos, pernas e bocas sentiam, soava-lhe um
completo desperdício.
Inexistiu, também,
um único momento em que se movimentaram no pequeno espaço, que a aura protetora
de Max estivesse sumido — o outro notara, —, enquanto o abraçava ao beijar ou
em que mordiscavam de leve seu pescoço. Algumas das vezes tiveram apenas que se
conter para não deixar marcas, a maioria das tentativas, falhas. No fim, Artur
tinha o corpo do garoto atrás de si, colado ao seu, com o hálito quente roçando
em suas orelhas e o nariz colado em seus cabelos levemente molhados, rubros.
Quando, enfim, a
extasia os tomou completamente, voltaram aquela mesma posição, cutucando-se de
maneira marota e balbuciando algumas partidas de jogo da verdade sob o
cobertor
Nenhum comentário:
Postar um comentário