André, de fato, nunca
fora um rapaz confortável com seu corpo. Entendo que essa possa ser uma
declaração pitorescas para uns — como alguém não era confortável com o próprio
corpo? —, no entanto, nada fazia mais sentido para ele do que essa declaração.
Aquele corpo, simplesmente, não lhe cabia. Tal sentimento de desconforto se
estampava em seu rosto magricela. Tudo, cada detalhe de seu corpo, como
afirmara, parecia desajeitado — desajustado. Justamente por ser uma imagem
incomum no meio de tantas personas padronizadas, que os problemas acostumavam-lhe
acontecer, como uma balada repetitiva e cansativa — Naquele dia, em que,
definitivamente, encontrou sua morte, por certo, não poderia ser diferente.
Era sábado pela manhã,
dia de folga para os estudantes da Academia Mágica de Aurora, que era conhecida
pelo mundo bruxo como a Grande Ordem. Ávidos pelo destaque entre o mar de
feiticeiros, praticavam, todos, a nobre arte da magia pelo campus, mesmo nos
sabádicos dias. André, por exemplo, voltava da biblioteca com o grosso volume
do livro “Introdução à magia mental para iniciantes, v. I : O que eu estou
pensando?”, quando uma forte massa de energia o atingira com violência no
ombro, derrubando-o de cara no assoalho. O coro de risadas ecoou mais
intensamente pelo corredor abarrotado de alunos, do que o próprio barulho do
sujeito sendo estatelado ao chão.
— Tropeçou, Andrezinho-viadinho?
— dissera uma voz, em suas costas.
Novas risadas
retumbaram, servindo de pólvora para o calor que tomava o corpo de André, que
nem mesmo precisou conferir quem falara. Desde sua primeira semana na Academia,
um grupo de alunos não o deixava em paz, importunando-o das mais diversas
formas possíveis — culpa de ser desajeitado, sabia —, eram comentários
venenosos, apontadas malfazejas e mais risadas como uma maldita trilha sonora
por onde passava, e que o incomodavam como incomodaria a um palhaço depressivo.
Atacar-lhe pelas costas, no entanto, era um comportamento novo, sem sombra de
dúvidas provindo dos anteriores. Estava claro, para Cristiano e os demais
estudantes de graus mais elevados e que lideravam o assédio, que Andrezinho, o
desajeitado, nunca se defendera por não ser capaz de tal ato — afinal, muitos
alunos do primeiro grau não são capazes de entrar em embate direto com bruxos
do terceiro, como eles. Embora o seu pensamento pudesse estar certo em partes,
mais certo ainda, era que existiam outras coisas sobre Andrezinho, o tal
desajeitado, que precisavam ficar muito mais claro a seu respeito.
Levantou-se, o
desajeitado, lentamente, de forma paciente, fria, e quando se virou para
encarar o grupo de bruxos os quais se gabavam numa posição aberta e
esparramada, moveu-se rápido demais, preciso demais, sem dar tempo o suficiente
para saberem o que acontecia, até que dois bruxos já voavam janela afora.
Surpreso com o golpe de André, Cristiano não conseguiu se mover veloz o
suficiente até também ser atingindo no peito e ser arremessado por muitos
metros no corredor.
A plateia ensandecida,
recém-formada pelos alunos presentes, urrou delirante com a reviravolta.
Entretanto, recuperado do golpe surpresa do desajeitado, Cristiano também se
pôs de pé já com as palmas da mão espalmadas para o ar, movendo seus lábios no
rosto avermelhado com o misto de fúria e vergonha.
— Apek! — gritou,
fazendo uma maça de fogo brilhante se espalhar de sua mão e voar em direção ao
seu oponente.
Num movimento gracioso,
André pulou a janela, pousando firmemente na grama do lado de fora do prédio e
correu floresta a dentro, sendo acompanhados de novos aplausos e assomos da
plateia atenta que começou a correr para o lado externo, não desejando perder
nem um momento daquela batalha.
— Nós vamos te quebrar
inteiro, seu viadinho do caralho! — Cristiano estava aos berros, ensandecido,
enquanto perseguia Andrezinho, o desajeitado, até a pequena floresta — Não
adianta se esconder, nós vamos te achar! Volta aqui!
André, quando ouviu os
berros do grupo de bruxos, já estava devidamente escondido por entre as
árvores. Silenciosamente, esperou, até que os passos que pareciam chiados ao
longe, começaram a tomar forma e ficar mais audíveis. Seu coração martelava
frenético de adrenalina, suas veias, as quais já pareciam começar a se costumar
com a monotonia, pareciam enlouquecer de excitação pelo fogo de uma nova
batalha. Mais uma batalha que era travada por ser quem era: um desajeitado.
Temendo se meter no
meio do conflito e ser atingida por acaso, a plateia não adentrou a floresta,
esforçando-se ao máximo para ver o que acontecia. Farfalhados e sons de corpos
se chocando ecoavam entre as folhas, sendo iluminados, ocasionalmente, com
flash de luzes azuis, róseas e brancas. Não se poderia saber quem ganhava
aquele conflito, mas, por certo, não poderia ser Andrezinho! — Afinal, ele era
somente um, não era?! — Tal pensamento, que habitava os espectadores começou a
mudar, no entanto, quando o primeiro dos três fora arremessado com força contra
os alunos que assistiam ansiosos, ao passo que, ao segundo bruxo, que saiu por
livre vontade — berrando, com as roupas em chamas! —, uma torcida já se
formava, vibrando para a vitória do desajeitado.
— Você brada virilidade
demais — Gritava Andrezinho, escondido por entre as árvores, esperando o melhor
momento para um novo ataque — para quem tem uma chama tão pequena!
Transtornado,
Cristiano, mirava todos os lados, ainda em postura de batalha, esperando ver
algum vislumbre do maldito a quem perseguia. Desde que a batalha começara, não
havia conseguido causar nenhum dano além de cortes no rosto e braços de André.
— E você fala demais pra quem vive escondido — urrou em
resposta, com seu tom de voz espalhando-se pelas folhas — Por que não se mostra,
seu viadinho covarde?!
Por que eu não me
mostro? — Pensou, sentindo ecoar a voz de Cristiano dentro de si. Mesmo que
odiasse concordar com o outro, sabia que, nas palavras ensandecidas, habitava
uma flâmula da verdade. Afinal, por mais forte que fosse, ou que se achava ser,
estava escondido, não estava? E por que estava escondido? Por que não se
mostrava para todos quem era de verdade?!... Ah, como odiava ser chamado de
Andrezinho, o desajeitado! Já era hora de resolver essa situação, que lhe
cansava! Sabia, há muito tempo quem era, e, definitivamente, não era um
viadinho, esquisito, desajeitado!
Com as mãos tremendo,
enfim, entendia que já tardava a hora de enfrentá-lo, de uma vez por todas,
para mostrar as faces do seu verdadeiro eu.
Saindo, pela primeira
vez, abertamente de seu refúgio, colocou-se de frente para o inimigo,
encarando-se com fúria. Eles sempre me encaravam com fúria — pensou, novamente,
sentido aquele calor do conflito reverberar em seu espírito — Basta. Como se um
sinal houvesse sido ouvido, os dois se puseram um contra o outro, de mãos
arqueadas:
— APEK! — Gritaram,
uníssonos.
Novas labaredas
surgiram, chocando-se com forte estrondo. Os corpos de ambos queimavam, em
próprias chamas, que eram expelidas diretamente de suas próprias veias. Com
habilidade e destreza, prosseguiram no combate mágico sem que ninguém
conseguisse liderar de fato. Feitiços eram lançados uns contra os outros, e
quando um, por desventura, era atingido, não se deixava abater, pondo-se de pé
rapidamente e tentando contra-atacar com novos feitiços. De fato, sim, lutavam
com fúria peculiar. Era certo, no entanto, naquela batalha intensa e calorosa, apenas
um iria perecer — nunca fora surpresa, também, que haveria uma morte naquela
batalha: a de André. E assim aconteceu.
Cristiano levantou o
braço esquerdo, num formato de lança, enquanto os lábios conjuravam um novo
feitiço. Num segundo, seus pés brilharam, as folhas voaram com a atração
causada pela magia; no outro, um forte jato de luz avermelhado voou por entre
as árvores, violento, voraz. O feitiço, que teria feito um enorme estrago se
houvesse acertado em cheio o seu alvo, no entanto, zuniu raspando pelo braço do
seu opoente trazendo um grande corte à tona, derramando seu sangue rubro.
Todavia, aproveitando a única brecha que lhe aparecia, no ínfimo descuido de Cristiano,
uma voz se fez ouvir em conjuração:
— Kágnse!
Como se um imenso peso
tivesse feito em seus ombros, o bruxo pereceu de joelhos no chão, sentido seus
ossos doerem intensamente. Nunca havia experimentado aquilo, aquele feitiço,
aquela dor... Era profunda, como se punhais perfurassem suas pernas, raspando,
dolorosamente, em seus ossos. Com a mesma velocidade que viera, contudo, a dor
também partira, deixando claro quem vencera a acirrada disputa.
Derrotado, Cristiano
saiu da floresta, de ombros baixos e a cara suja de terra, suor e sangue, sendo
recebido por um imenso assomo de surpresa! Aqueles que haviam tomado partido ao
seu favor deixavam pequenos xingamentos sair entredentes, enquanto os outros,
vibravam com a vitória.
— Cristiano perdeu para
o André! — Gritavam, eufóricos, tentando tornar o irreal mais palpável — Vocês
viram? Cristiano perdeu para o André!
— Não, ele não perdeu
para André! André está morto!
Bradara uma voz. Silenciosos, o restante dos
alunos procuraram, quem poderia ter sido capaz de falar tal atrocidade, até que
perceberam uma figura que saía, lentamente, da penumbra das folhas, de corpo
magricela e pele negra aquarelada com pequenas manchas brancas, feito alvas
sardas. Os cabelos, banhados pela luz do sol, os quais estavam bagunçados
devido à batalha, avolumavam-se com cachos castanhos e prateados. Era uma
imagem segura, por certo, que pela primeira vez, estava completamente ajeitada
em quem era, com quem se sentia. Podia ter o mesmo rosto de Andrezinho, o
desajeitado, mas o brilho dos seus olhos deixava claro que pertencia a outra
pessoa. Nos lábios, um sorriso malicioso estampava seu rosto.
— Ele perdeu para Valentina!
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