Translate

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Rachegötter.


Rachegötter.
Alice acordara com uma sensação esquisita aquela manhã. Não sabia descrever com exatidão, parecia ser como se os ossos estivessem imerso em algum mar gelado, a carne congelava-se mesmo que, lá fora, o sol estivesse forte. Pensou estar doente, embora desconfiasse demasiadamente que a enfermidade que sofria, tratava-se do corpo. Aquele momento em que ainda tratava de acordar, conferiu, como de costume, os amuletos da casa para conferir se ainda poderiam protege-la de azarações ou maldições. Tudo estava no mais perfeito possível. O que inferno seria então?
Antes que seu cérebro percebesse, que acordasse todas suas memórias, para encontrar naquele cenário pitoresco a razão daquilo, um grupo de seres encapuzadas a cercaram. Suas maos frias apertaram seu braços e pernas com tanta forma, que a dor excruiciante da qual fora tomada, que as únicas partes aquecidas eram por onde o sangue se espalhava. Teria gritado, ginchado, mas sua garganta, assim como as demais partes, estavam dilaceradas.
Rachegötter — retumbou uma reminscencia de seu inconsciente.
As cenas que inundavam seus olhos, afogavam com as memórias de muitos anos atrás, recalcadas por aquele feitiço inflexível. Alice estava perante ao grupo de vampiros que findara com o último folego de todos que amara, mas que agora não passavam de carcaças ressecadas, jazindo nos quartos de sua casa. Seu marido. Suas filhas, gêmeas, que ainda nem haviam aprendido a falar mamãe. Todos mortos, porque não conseguira pagar a “taxa de condomínio”, como aqueles vermes sugadores insistiam em falar, todos os meses, carregando um sorriso perverso.
Havia três meses que Alice não conseguia pagar a taxa da qual sua sobrevivência dependia. Desde que alguém resolvera acabar com o mundo dos bruxos, caçando-os um a um, colônias de sobrevivência passaram a ser criadas, refúgios protegidos por outros seres mágicos que poderiam lutar contra os demônios que empestavam as cidades. Quando tudo estourou, mal conseguira sair de Aurora com vida, pegou seu marido e fugira para o mais longe possível. Não tiveram a sorte de fugir com os Acadêmicos, embora tivessem tido maior do que aquelas centenas de outras pessoas que ficaram pela cidade em chamas. Nunca fora treinada para fazer outra coisa se não cuidar de assuntos mágicos. Tivera que viver feito uma mortal — pois os rumores diziam que qualquer feitiço, por menor que fosse, poderia ser detectado —, trabalhar e arrumar um emprego para conseguir pagar a maldita quantia.
Os vampiros sempre foram os piores, pois indefesos, os bruxos finalmente haviam perdido a sua tão imponente supremacia. O que restavam era apenas isso: um gado perfeito pois pagava para não ser usado como alimento. Sangue bruxo era doce, perdendo apenas para o das fadas — é o que se dizia em tom de ameaça, quando passava pela rua. Enfim, eles podiam provar a teoria para Alice.
Por sorte não presenciara o momento em que eles pegaram suas filhas. O que lhe restava de insanidade não merecia ser sufocado pelos detalhes que a assombraria para sempre. O marido já lhe bastava. O sentimento que queimava excruciante em seu peito, tão pungente que não passa de uma fantasia para muitas pessoas, pareceram guiar os seus lábios, proferindo palavras tão antigas e profundas que seriam impossíveis de se reproduzir duas vezes. Era um feitiço que não precisava ser aprendido em livro algum, habitava um lugar inato no espírito. Inflexível. Avassalador. Caro. Vingança. Eram as poucas coisas que conseguia compreender em lapsos de racionalidade,
Rachegötter —  badalou mais uma vez.
 As sombras que banhavam a todos, foram tomando forma, corpofiricando-se de seres inomináveis. Vultos horrendos. Como numa fragrância pútrida, o horror se espalhava por todos — bruxa e vampiros. No meio delas, uma criatura esguia e esbranquiçada feito a lua deum um passo a frente, mas Alice não ousou olhá-la mais do que isso. O tom de sua voz a teria feito tremer sempre que lembrasse — e que só agora, conseguia lembrar —, avisava-lhe do contrato, o preço a ser pago por sua convocação. A partir daquele momento não teria mais volta: sangue haveria de ser pagado com sangue.
Rapidamente, os vultos atacaram os corpos pálidos, embriagados de sangue, ransangodo-lhe a pele que já deveria estar morta. Era como se a própria escuridão os devorassem para dentro do esquecimento, os confins da existência. Assim como Alice, não tiveram a chance de gritar.
Poderia demorar meses ou anos, mas eles retornariam. Os deuses da vingança sempre cobram suas pendências. Os deuses são justos. Alice, embora não lembrasse — pois isto também fazia parte do feitiço, já nenhum humano seria capaz de suportar aquela experiência —, carregava em seu peito aquele aviso que badalava como um lembrete evanescente.
Rachegötter.
Cinco anos, foi o que durou até que eles cobrassem Alice naquela manhã. De igual maneira, quando a criatura esbranquiçada se aproximou, e seu espírito não aguentara vislumbrá-la, seus olhos prostraram-se ao chão, rememorando — enquanto ela falava — os termos finais de seu contrato.
Rachegötter — os deuses da Vingança sempre cobram seus suas pendências.

Nenhum comentário: