Rachegötter.
Alice acordara com uma sensação
esquisita aquela manhã. Não sabia descrever com exatidão, parecia ser como se
os ossos estivessem imerso em algum mar gelado, a carne congelava-se mesmo que,
lá fora, o sol estivesse forte. Pensou estar doente, embora desconfiasse
demasiadamente que a enfermidade que sofria, tratava-se do corpo. Aquele
momento em que ainda tratava de acordar, conferiu, como de costume, os amuletos
da casa para conferir se ainda poderiam protege-la de azarações ou maldições.
Tudo estava no mais perfeito possível. O que inferno seria então?
Antes que seu cérebro percebesse, que
acordasse todas suas memórias, para encontrar naquele cenário pitoresco a razão
daquilo, um grupo de seres encapuzadas a cercaram. Suas maos frias apertaram
seu braços e pernas com tanta forma, que a dor excruiciante da qual fora
tomada, que as únicas partes aquecidas eram por onde o sangue se espalhava.
Teria gritado, ginchado, mas sua garganta, assim como as demais partes, estavam
dilaceradas.
Rachegötter — retumbou uma reminscencia
de seu inconsciente.
As cenas que inundavam seus olhos,
afogavam com as memórias de muitos anos atrás, recalcadas por aquele feitiço
inflexível. Alice estava perante ao grupo de vampiros que findara com o último
folego de todos que amara, mas que agora não passavam de carcaças ressecadas,
jazindo nos quartos de sua casa. Seu marido. Suas filhas, gêmeas, que ainda nem
haviam aprendido a falar mamãe. Todos mortos, porque não conseguira pagar a
“taxa de condomínio”, como aqueles vermes sugadores insistiam em falar, todos
os meses, carregando um sorriso perverso.
Havia três meses que Alice não
conseguia pagar a taxa da qual sua sobrevivência dependia. Desde que alguém
resolvera acabar com o mundo dos bruxos, caçando-os um a um, colônias de
sobrevivência passaram a ser criadas, refúgios protegidos por outros seres
mágicos que poderiam lutar contra os demônios que empestavam as cidades. Quando
tudo estourou, mal conseguira sair de Aurora com vida, pegou seu marido e
fugira para o mais longe possível. Não tiveram a sorte de fugir com os
Acadêmicos, embora tivessem tido maior do que aquelas centenas de outras
pessoas que ficaram pela cidade em chamas. Nunca fora treinada para fazer outra
coisa se não cuidar de assuntos mágicos. Tivera que viver feito uma mortal —
pois os rumores diziam que qualquer feitiço, por menor que fosse, poderia ser
detectado —, trabalhar e arrumar um emprego para conseguir pagar a maldita
quantia.
Os vampiros sempre foram os piores,
pois indefesos, os bruxos finalmente haviam perdido a sua tão imponente
supremacia. O que restavam era apenas isso: um gado perfeito pois pagava para
não ser usado como alimento. Sangue bruxo era doce, perdendo apenas para o das
fadas — é o que se dizia em tom de ameaça, quando passava pela rua. Enfim, eles
podiam provar a teoria para Alice.
Por sorte não presenciara o momento
em que eles pegaram suas filhas. O que lhe restava de insanidade não merecia
ser sufocado pelos detalhes que a assombraria para sempre. O marido já lhe
bastava. O sentimento que queimava excruciante em seu peito, tão pungente que
não passa de uma fantasia para muitas pessoas, pareceram guiar os seus lábios,
proferindo palavras tão antigas e profundas que seriam impossíveis de se
reproduzir duas vezes. Era um feitiço que não precisava ser aprendido em livro
algum, habitava um lugar inato no espírito. Inflexível. Avassalador. Caro. Vingança.
Eram as poucas coisas que conseguia compreender em lapsos de racionalidade,
Rachegötter — badalou mais uma vez.
As sombras que banhavam a todos, foram tomando
forma, corpofiricando-se de seres inomináveis. Vultos horrendos. Como numa
fragrância pútrida, o horror se espalhava por todos — bruxa e vampiros. No meio
delas, uma criatura esguia e esbranquiçada feito a lua deum um passo a frente,
mas Alice não ousou olhá-la mais do que isso. O tom de sua voz a teria feito
tremer sempre que lembrasse — e que só agora, conseguia lembrar —, avisava-lhe
do contrato, o preço a ser pago por sua convocação. A partir daquele momento
não teria mais volta: sangue haveria de ser pagado com sangue.
Rapidamente, os vultos atacaram os
corpos pálidos, embriagados de sangue, ransangodo-lhe a pele que já deveria
estar morta. Era como se a própria escuridão os devorassem para dentro do
esquecimento, os confins da existência. Assim como Alice, não tiveram a chance
de gritar.
Poderia demorar meses ou anos, mas
eles retornariam. Os deuses da vingança sempre cobram suas pendências. Os deuses são justos. Alice,
embora não lembrasse — pois isto também fazia parte do feitiço, já nenhum
humano seria capaz de suportar aquela experiência —, carregava em seu peito
aquele aviso que badalava como um lembrete evanescente.
Rachegötter.
Cinco anos, foi o que durou até que
eles cobrassem Alice naquela manhã. De igual maneira, quando a criatura
esbranquiçada se aproximou, e seu espírito não aguentara vislumbrá-la, seus
olhos prostraram-se ao chão, rememorando — enquanto ela falava — os termos
finais de seu contrato.
Rachegötter — os deuses da Vingança
sempre cobram seus suas pendências.
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