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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

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                - Desculpe, mas você perderá sua vida.
                Ele pensou novamente nas palavras que seu médico houvera lhe dito enquanto caminhava sozinho pelas ruas, com a respiração tremula e o coração vacilante. Ele iria perder a sua vida, e não havia jeito, seu destino estava escrito em pedras que não poderiam ser alteradas, fadado à objetividade e certeza que tudo possuía.
                Mas como havia chegado até aquele ponto?
                Tentou lembrar-se do primeiro indício da doença em seu organismo. Então lhe veio àquela terceira manhã, quando fora hipnotizado por algo que o pegara de surpresa, e mudara seu destino. Sim, naquele momento, a doença instalara-se em seu corpo, mas sem dar sinal de vida, continuando em silêncio.
                Ela o fez ter sonhos, maldita doença, não bastava apenas matar, tinha de fazê-lo sofrer antes disso. Arrancar-lhe cada fantasia, desejo, devaneio... Tudo que ele havia sonhado para viver, agora escapava de si, feitas folhas caídas e esfacelas de outono, um que não via o sol brincar, e logo, sem sorrisos. Sim, pois a maldita também lhe arrancara os dentes, apenas os de sorrir, porque fazia questão que comesse, e ficasse forte para fazê-lo sucumbir mais lentamente.
                Com o cigarro pesando dez quilos em seu bolso, ele sentou-se ao chão para ponderar sobre a vida, algo que nunca parecera ter tempo, até aquele momento.
Aonde fora parar o sentido de amanhã? Retornou a pensar. Tudo já estava tão premeditado, que não lhe sobrava nada para criatividade. Que sentido havia nisso?
A resposta continuara escondida entre o silêncio.
                Ainda sentado, viu uma menina correr feito uma criança sadia, cair, e berrar desesperadamente, e pela primeira vez sentiu inveja.
Sim, ele sabia que a queda deveria doer, mas ela podia correr, teve a oportunidade de sentir-se livre, a sensação do vento beijando seus lábios e a pele; de cair, sujar o vestido, arranhar os braços para deixar como uma lembrança que caíra de verdade. Por isso a invejou, pois estava viva, enquanto ele morria com uma doença silenciosa.
Comparou então o correr da garota, com o viver dos homens.
Quando nascemos, o colo é nosso único mundo. Não nos dávamos ao luxo de correr, pois somos indefesos demais para aquilo, faltava-nos ousadia; Até que deleitados pelo desejo o qual todos que andavam a nossa volta nos passavam, resolvíamos dar os primeiros passos. Caímos, chorámos, mas aprendíamos que, se quiséssemos andar novamente, cair seria um risco eminente, pois o chão, esse nunca deixaria de estar de braços estendidos para nos receber as faces.
Mas andar era algo belo demais para ficarmos parados, e então, abandonávamos o colo de nossos pais, não que deixassem de ser maravilhosamente acolhedores, tínhamos que procurar os nossos próprios colos, nos braços de pessoas outras, que às vezes, eram de outras pessoas.
E nessa busca, aprendemos a correr, e andar fica chato. Desejamos correr até a esquina, ou até o fim do mundo. Ansiamos correr a todo instante, como se nunca houvéssemos corrido antes, e como se nunca pudéssemos correr novamente. Corríamos com outras pessoas, corríamos com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, corríamos até secretamente, pois o que mais importava era correr.
Logo em seguida, o tempo de correr passa, e nos limitamos novamente a caminhar, as vezes com as pernas rijas, adquiridas com as correrias passadas. Agora, desejávamos apenas caminhar tranquilamente, de mãos dadas de preferencia, pois nós no fundo sabemos que caminhadas até o fim da vida, podem durar muito para uma única pessoa.
Então paramos de andar, e logo deixamos de viver, nos limitando apenas a existir.
                E naquele momento, no fim de sua reflexão – ainda envolto pelos prantos da menina – deu-se conta de uma coisa: Sim, a vida era realmente bela, mas só para aqueles que tinham a oportunidade de viver, e não tão somente existir.
               

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