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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Meu secreto pássaro azul.

                - Cala-te!
                Meu urro nem se quer conseguiu se igualar com aquele que cantarolava alto de fúria por estar cá dentro.
                Eu entendia seu desespero, mas o que podia fazer? Não podia soltá-lo para cantarolar para que todos ouvissem, não podia nem se quer imaginá-lo estragando todo meu trabalho, toda aproximação que custara tempo e penar. Não, ele iria ter de continuar cá dentro, e preso deveras.
                - Não está de noite ainda... – tentei consolá-lo – Por que não esperas um pouco mais?
                Não adiantou, ele – assim como eu – sabia que tardaria para anoitecer, procrastinaria da mesma forma para que todos os olhares dormissem, e para aquela cabeça abrisse; para que aquela vida chegasse. Sim, ele ainda tinha que ficar cá dentro.
                Mas de tanto estar cá dentro, e de querer se rebelar, as grades a qual o mantinha feito um prisioneiro invisível, já começava a se desgastar; rangiam feito dentes de um desesperado, como prantos desvairados e angustiantes de um órfão, pois tamanha era a força dele de querer sair de cá dentro.
                Uma vez também já ameaçara de morrer, e sua existência ficar restrita apenas à versos antigos, aqueles os quais o tempo escreve aos mandos do amor. Mas feito um milagre, e à custa de algo de repente – não mais que de repente –, voltou a cantarolar; de inicio fora um cântico singelo, que nem eu poderia escutar – mesmo que outros digam que nunca deixaram de escuta-lo –, e com o passar do tempo, ficou grave, ganhou ainda mais voracidade e intensidade ao parecer de uma romaria, já que agora, eu tinha espaço para ouvi-lo. Contudo, ele ainda continua cá dentro.
                Vez ou outra me dava ainda mais liberdade de escutar as suas canções jurosas que me cegava. Vê agora o quanto és perigoso? Um único momento de descuido a sós, e toda a prisão a qual o mantivera cárcere por tanto tempo, pereceria, e por minhas mãos.  Tinha medo até de afoga-lo, pois por mais que ansiasse parar de ouvi-lo, isso poderia levar uma fuga imprudente, a qual não poderia acontecer, já que é preciso que ele continue cá dentro.
                E assim, continuo meu cotidiano, ora feliz, ora confuso, mas com a ausência do entendimento de terceiros-primeiros, e sem chorar – pois eu também conseguia –, tendo em mente, juntamente com seu canto quase que ensurdecedor, dois questionamentos a perdurar. Voarás tu, sozinho por esse imenso país? E até quando ficarás preso cá dentro, meu pássaro azul, até quando? 

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